| Ensaio sem tema. Cinema. |
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| Arquivado em: Artz | |||||||||||||||
| Escrito por luiz ribeiro | |||||||||||||||
| Sex, 22 de Dezembro de 2006 14:49 | |||||||||||||||
O titulo do filme da Mostra de Veneza pouco importa neste momento. Assisti um filme e gostaria de tentar comentar.O que pode um corpo... saberá alguma resposta? Tudo ao saber que há uma finitude. O corpo delineado no cinema, para quem o frequenta, apresenta formas 'reais' ou ficticias. Estes cortes instantâneos são o que chamamos imagens; um movimento ou um tempo impessoal.
Ensaio sem Tema.
Saio da 63ª. Mostra do Cinema de Veneza. O cinema apresenta muitos roteiros delineando histórias. Um roteiro de cinema pode ser definido como uma tentativa sistemática e ordenada para prever o futuro filme. É uma previsão que na prática se concretiza num manuscrito contendo a descrição, cena por cena, enquadramento por enquadramento e das soluções de todos os problemas técnicos e artísticos que se prevê para a realização do filme. Vemos que o corpo delineado no cinema, para quem o freqüenta, apresenta formas ‘reais’ ou fictícias. Na tela encontro um ”movimento real ---- > duração concreta” e “cortes imóveis + tempo abstrato”. Estes cortes instantâneos são o que chamamos imagens; um movimento ou um tempo impessoal. Em A Evolução Criadora, Bergson baliza a formula injusta: a ilusão cinematográfica [1].
O titulo do filme da Mostra de Veneza pouco importa neste momento. Assisti um filme e gostaria de tentar comentar. Estou sem memória e o ensaio é sem tema. O que pode um corpo... saberá alguma resposta? Tudo ao saber que há uma finitude. Ocorre que entre o nascimento e o momento da finitude, no meio, há uma infinidade de acontecimentos. A finitude do corpo pode ser o momento da morte como também pode ser finitude, o corpo nas relações com pensamentos. A infinidade não se opõe a finitude. O ser no presente é acontecimento passado. Numa crise de dor profunda, Deleuze uniu-se a finitude e trouxe o acontecimento para infinidade...um caráter do Dasein[2]. Pulou da janela da clinica onde estava. Noutras linhas, Deleuze situou no fio da navalha o kairós[3] , a decisão que faz parte da plenificação da vida que não pode ser objetivada[4] . Vemos em Heidegger que a questão do ser está ligada a facticidade, ao sentido do ser. A intensidade da dor sentida num corpo, não pode ser dimensionada pelo outro, é fenomenológico. Não há uma imagem possível que exemplifique a ‘intensidade do sentido’ para se fazer compreender a dor na unidade de um outro corpo. Na perspectiva das modulações diversas da aparência (moda, espetáculo político, teatralidade, publicidade, cinema, televisões) um conjunto significativo forma a necessidade de uma reflexão sobre a forma. Então, pode o ensaio sem tema ter uma forma com alguma matriz formadora. Impregnado pela modulação da cinematografia, encontro na diversidade do roteiro um conjunto de elementos possíveis para cortar e apresentar uma reflexão teórica que também integra em parte um conflito no conjunto da vida social sempre feita por imagens. O epistemológico no recorte do elemento causador da aparência, será o corpo que a imagem no cinema apresentou. A personagem, Pietro, descobre ter um tumor no cérebro, isso o levará a fazer as contas consigo mesmo e com sua solidão. Ele cria sozinho uma filha. Uma menina meiga, centrada, que na pequenez inocência não pode entender por que o pai vive só. Cinzia, amiga de longa data de Pietro, o encontra para sair, conversar, fazer amor, questioná-lo ou ouvi-lo. São amigos, livres, independentes. Somente para ela que ele diz que não quer morrer quando descobre a terrível doença. O titulo do filme, se relaciona com a historia de Pietro. Outras histórias se entrelaçam. Tem o claustrofóbico, que não consegue conquistar a amada que trabalha andares acima na mesma instituição, por se sentir incapaz de entrar no elevador. Um executivo culto e consagrado, casado, vivendo o conflito para sair do casamento e assumir o seu amor por uma jovem, com sentimentos verdadeiros e profundo que não deseja uma relação dividida. Um professor universitário consumido por si mesmo e as teorias sociais... entre outros. Recorto para refletir um pouco, Pietro.
Movimento real Não tenho mais vinte anos. A resposta oferecida por Pietro, poderia estar relacionada a idade e a intensidade do corpo que descobre a necessária demasia do sexo, o melhor do prazer humano que nos localiza na existência. Também podemos relacionar a afirmação da resposta, ao movimento real do corpo a sua duração concreta de um futuro não-devir corpo, por saber que não haverá mais vinte anos para existir. A imagem que contorna sua memória se tornou indiferente. Elas não são mais um espelho. Foucault denominaria de heterotopia, isto é, experiência de união ou mistura análoga à do espelho. O espelho, é uma utopia, uma vez que é um lugar sem lugar algum. Irreal, aberto do lado de lá da superfície. Uma sombra que me dá visibilidade[7]. As heterotopias estão ligadas a pequenos momentos, num espaço publico ou privado, sempre projetado com o pensamento. Para Pietro ao rever seus momentos guardados numa caixa, uma heterotopia de desvio escolhida foi viver mesmo com a opção solitária ‘conforme ordenou os poderes crescentes ou decrescentes[8]’ na dimensão do seu corpo. É a pequena filha que o traz a redimensionar sua existência, quando adentra a sala e vê Pietro rasgando as lembranças do seu campo de afecções. Ela questiona o que ele faz e tem a resposta que está jogando fora suas ‘coisas’. Uma réplica imediata se afirma quando ela o faz lembrar que ele nunca foi ‘capaz de jogar nada fora’. Pietro contra argumenta que há um momento que precisamos escolher e decidir o que queremos como lembrança.
Cortes imóveisO executivo culto resolve separar da mulher. Vai viver sua decisão ao lado da jovem. Eles vão caminhar e namorar nas margens da baia. Ela sempre disposta encontra um pedalinho abandonado e resolve remar ao lado dele, tranqüilos, contemplativos, de muito longe observam a cidade e o fim da tarde que cai para o anoitecer. O objeto não suporta o peso dos dois, parte-se ao meio, ele não sabe nadar e morre afogado. Na noite ela e o corpo morto são resgatados. Ela passa a conviver e saber da finitude ao lembrar o que viveu do grande amor, maior, talvez, que a idade que os separavam no tempo. A dor pode ser uma espécie de morte na vida. Não há uma imagem para a dor, na unidade do individuo, há um sentir pela experiência do Dasein. A finitude contida na infinidade do presente é duração para uma lembrança. O executivo ao lado dela ouvia criticas sobre as sombras que ele projetou no espelho da insegurança, ao rever seu espírito viveu um puro jogo encontrando um sentido para amar. Sobre a maca, Pietro é conduzido à sala de operação, no corredor vê Cinzia na ante-sala e se despedem com um olhar sereno. O espectador faz um link com o acidente anterior. O outro sentido do jogo da imagem que sempre remete a próxima seqüência. O cirurgião ao colocar a máscara de oxigênio, lembra-o para não marcar nenhum compromisso para está noite. Nesse momento na casa Pietro, a filha tem no antebraço muitos pedacinhos de fita adesiva. Calmamente ela junta e cola o que antes fora mundo-todo do pai, ora rasgado e espalhado pela sala. Monta um quebra-cabeça. Um espírito fantasista joga no extremo limite entre a brincadeira e a seriedade. A menina brinca montando um mosaico, a bricolagem está inteiramente marcada pelo jogo, cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado da natureza da morte. Sua ratio reside numa camada muito mais profunda, na representação do pai. Com o fragmento ela reúne a linguagem primeira que o homem a fim de poder comunicar, ensinar e comandar, o permitiu distinguir as coisas ao domínio do espírito. É no mito e no culto que têm origem a grande força instintiva da vida civilizada[9]. Veremos em Bergson, que o cérebro faz parte do mundo material não o contrário. Corpos semelhantes ao meu, a configuração dessa imagem particular eu chamo meu corpo[10]. Meu pai está na imagem do meu corpo. Cinzia aguarda fora da clinica a saída de Pietro. Ele se aproxima e diz ela que ele careca, está mais jovem e parece Genghis Khan, e poderiam fazer algo de bom juntos... algo que sempre fizeram. Duração concreta. Entretanto é consigo que Pietro deve encontrar-se. Todos nos temos algum ponto para rever nas imagens causa das afecções que se produzem. Está na ação do corpo destinado a mover objetos. Objetos sempre externos entre estímulos que recebo de fora e movimentos que vou executar. Na calçada sob uma ponte muito alta que liga as margens do rio que corta a cidade, alguém pula para o suicídio. Pietro vê o ato final de uma vida. Assim foi a sua ao rasgar lembranças materiais e memórias. O instinto de se preservar com a pulsão da vida se opõe a pulsão morte. No impulso instintivo ele mergulhar para retirar o corpo que agoniza ainda na superfície e o traz para a margem. Onde sempre estamos, contornando a morte que não desejamos. Sem fôlego, sem se saber possível, descobre ao salvar um desconhecido que ele existe além do determinismo da morte, da dor e da solidão. Pietro passa a desafiar a vida, junto com a filha, vai praticar mergulho vertical em alto mar. Resiste e experimenta sem tanque de oxigênio o que pode um corpo. Essa é a imagem final. Fim. [1] Deleuze, Gilles. Cinema: a imagem-movimento. São Paulo, Brasiliense, 1985. [2] O único ente que compreende ser – o homem. Dasein é estar-aì é ser-no-mundo. [3] Conceito de instante, ligado ao conceito de situação. Os caracteres cairológicos não calculam nem dominam o tempo; situam antes na ameaça, através do futuro. [4] Stein, Ernildo. Seis estudos sobre ‘Ser e Tempo” de Heidegger. Rio de Janeiro, Vozes, 1988. [5] O título traduzido foi: ‘Não marque compromisso esta noite’. [6] Bergson, Henri. Matéria e Memória. São Paulo, Martins Fontes, 1999. [7] Foucault, Michel. De outros espaços. Conferencia em 14 de março de 1967, no Cercle d’Études Architecturales. [8] Bergson. Idem, p.15. [9] Huizinga, Johan. Homo Ludens. São Paulo, Perspectiva, 2004. [10] Bergson. Idem, p. 13.
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Hits: 2780 Comentários (3)
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Leandro
escreveu:
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André Bazin Existe um texto do André Bazin, no livro, cujo título é "cinema", que bem ilustra o que eu penso: "Os limites da tela não são, como o vocabulário técnico daria por vezes a entender, a moldura da imagem, mas a "máscara" que só pode desmascarar uma parte da realidade. A moldura polariza o espaço para dentro, tudo o que a tela nos mostra, ao contrário, supostamente se prolonga indefinidamente no universo. A moldura é centrípeda, a tela centrífuga.... O cinema ao exibir um corpo o recria... Assim eu imagino, sonho e divago. |
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"'O cinema ao exibir o corpo o recria..." "'O cinema ao exibir o corpo o recria..." certamente poque o corpo é uma imagem para o cinema, simples e coerente e são muitos os corpos que o cinema apresenta... mesmo o corpo criado para a ficção procurando ilustrar um devir futuro. Â corpo, sempre o que apresentamos para o dizer das muitas representações humanas... Gostaria de dizer que não consegui anexar um artigo de nove páginas no oestrangeiro.net , ainda, e não tive tempo de retornar na página e anexar.... ficou uma coisa fragmentada sem sentido, peço desculpas. . Escrevi após ver a Mostra do Cinema de Veneza.Assisti apenas um filme e delirei sobre o que vi. lombra minha... |
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... Luiz, eu ousaria reescrever sua frase ( ou para frasea-la, que seja, rs) pelo prisma do seguinte apontamento: a (re)presentação de algo, se perfaz, também, pela criação. Talvez seja o momento de considerar a arte cinematográfica como produção e reprodução, analogicamente, do ambito real do seres. Creio ser justo com a setima arte, como suporte da expressao humana!!! |
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