Lembrar-me
Fruto e Germe PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Amauri Ferreira   
Seg, 04 de Julho de 2005 20:25

Absolutamente tudo que existe é fruto e germe. Em qualquer corpo da natureza coexiste o produtor e o produto. Se o produtor coexiste no produto, ou seja, no corpo, não pode existir a separação entre o criador e a criatura - essa separação é uma estranha ficção que os homens inventaram na forma de um Deus como referência universal, como se a ordem natural das coisas destinasse-nos a vivermos em débito constante com um credor transcendental. É o nascimento da dívida impagável. Ora, se existe no corpo a realidade do que foi produzido e a realidade do que o produz, não há mais a dívida infinita; portanto, somos autônomos, não precisamos de um referencial externo a nós mesmos. Mas há uma enorme diferença entre ser autônomo e afirmar a autonomia. Eis o maior - e talvez o único - problema da humanidade.

 

 

Por Amauri Ferreira (Junho de 2005) 

  

primeiro:

Absolutamente tudo que existe é fruto e germe. Em qualquer corpo da natureza coexiste o produtor e o produto. Se o produtor coexiste no produto, ou seja, no corpo, não pode existir a separação entre o criador e a criatura - essa separação é uma estranha ficção que os homens inventaram na forma de um Deus como referência universal, como se a ordem natural das coisas destinasse-nos a vivermos em débito constante com um credor transcendental. É o nascimento da dívida impagável. Ora, se existe no corpo a realidade do que foi produzido e a realidade do que o produz, não há mais a dívida infinita; portanto, somos autônomos, não precisamos de um referencial externo a nós mesmos. Mas há uma enorme diferença entre ser autônomo e afirmar a autonomia. Eis o maior - e talvez o único - problema da humanidade.

segundo:

 Ao destruir aquilo que a humanidade se agarra, o ideal, o que nos resta? "Somente" a realidade. É na realidade que a vida acontece. Quando a sujeira do ideal ascético é varrida para longe, o que fica é a pureza do corpo e a sua capacidade de ser afetado e de afetar; é o corpo que pode, ou não, ser afirmado. Ao negar a capacidade do corpo de ser afetado, nega-se a sua modificação, pois o sujeito agarra-se a um "eu" imutável - mas, apesar disso, a modificação do corpo segue existindo. O problema é a qualidade dessa modificação, já que a crença no ideal continua a produzir realidade (no fundo, é a própria natureza no homem que a produz). Uma modificação ignóbil, com certeza. Mas ao afirmar a capacidade do corpo de ser afetado, a modificação é bem-vinda, e não demonizada. A modificação se torna nobre, vira uma composição, motor ininterrupto de novas produções.

terceiro:

Fruto: produto, algo que se conserva. Germe: promessa, capacidade para se tornar algo. Duas crianças, um menino e uma menina: incapazes, ainda, de gerar uma nova vida. Conservando-os até certa idade, gerarão um filho. A águia, após mais uma manhã de caça, leva o peixe ao ninho para alimentar os seus filhos. Com o passar do tempo, já maiores, eles ensaiam os primeiros vôos. Quando já conseguem voar e caçar sozinhos, seguem o seu destino sem a companhia da mãe, e o mundo se abre para eles... Não seria o instinto materno uma necessidade para que o futuro seja afirmado? A semente da maçã, o útero da mulher, o esperma do homem: forças da natureza que, harmoniosamente, proporcionam a renovação da vida. O olfato, a audição, a visão, o tato, o paladar: sentidos do corpo humano que permitem que o cantor cante; que o pintor pinte; que o escritor escreva. A realidade se passa no corpo, pois se ele recebe os fluxos que o atingem, somente através dele é possível transformá-los em energia criativa - o que se cria é algo que sempre expressa uma singularidade e um ineditismo.

quarto:

O que é um casamento feliz? O da Natureza Naturante com a Natureza Naturada: somente tal casamento proporciona gozo, alegria e felicidade. Portanto, o casamento não é com uma outra "pessoa", mas sim com a relação... O casamento de um sujeito com outro sujeito é uma farsa: a união entre o "Eu, homem, 35 anos, brasileiro, bem sucedido profissionalmente", com o "Eu, mulher, 33 anos, brasileira, bem sucedida profissionalmente" é a união dos que estão distantes de si mesmos. É uma união que tem, entre eles, um ideal regendo a relação. Tem algo estranho aí... Esse ideal não seria um Deus? Ou a lei? Ou a riqueza? Ou o sucesso? Ou o bem comum? Ou a normalidade?... Na verdade, trata-se da maior desunião que é possível ter.

quinto:

O que é normalidade? Uma coisa rasteira, fétida, pobre, doente, triste, sombria, estéril, entediante, temporal. O que é anormalidade? Uma coisa elevada, cheirosa, rica, saudável, alegre, iluminada, fecunda, excitante, intempestiva... A anormalidade é musical.

sexto:

Se a relação entre os corpos é afirmada, o outro não é uma oposição, mas sim um alimento. Portanto, antes do fruto apodrecer, é necessário encontrar novas energias para que sejam gerados novos frutos - e assim segue... A criação é primeira em relação à conservação. A força de conservação somente tem sentido quando serve de abertura para novos devires criativos. A conservação é um efeito daquilo que já foi criado. Já a força de criação não tem tempo a perder com contemplações: como os fluxos são inesgotáveis, a criação é também inesgotável.

sétimo:

Se a força de criação vive em nós, ou seja, "Deus" está em nós, a dívida é paga imediatamente através do ato criativo. O prazer que advém da criação já é o "salário"; assim "Deus" goza em nós. Não há mais sujeito, reconhecimento e ideal ascético: a capacidade de metamorfosear-se é sintoma de saúde, de aliança com a Natureza Naturante... É o momento do SIM de Ariadne ao SIM de Dioniso.

oitavo:

O quê? Briga na senzala? O senhor enche o estômago de carne e, depois, joga o osso para o alto. Os famintos se expremem, dão cotoveladas uns nos outros, disputando o prêmio. Aí o vencedor grita: "É meu! É meu!".

nono:

Mas como é que o poder age para que Ariadne continue num cego e desastroso SIM a Teseu? Inserindo um ideal nas suas relações, sendo o próprio Teseu um modelo de perfeição. Ora, se o ideal é externo às relações imanentes, o desejo passa a desejar uma ficção. No capitalismo, o produtor re-produz algo já pré-definido, já pré-determinado. Para isso, o capitalista paga um salário ao trabalhador para que ele re-produza o que é útil para uma sociedade conservadora. O produto, então, é separado do produtor. É o império da lei do mercado: nele, as energias criativas são sugadas para a extração da mais-valia e, por essa razão, a criação somente tem importância se for comercialmente viável. Trata-se de um grave erro: já não há mais prazer ativo, mas pequenos prazeres nas formas mais variadas de recompensa, como dinheiro, reconhecimento, elogios, etc. Mas a força de criação segue existindo no sujeito, mesmo alienado. Por isso não há sequer uma instituição no mundo que não adote meios para controlar a insubordinação dos seus comandados. "Recursos Humanos" neles! Dores, sofrimento e depressão transformam-se em sintomas de uma vida totalmente separada da sua capacidade de agir: "Seriam os publicitários realmente criativos?". Vivemos numa sociedade amputada, que não sabe mais o que é, verdadeiramente, criar. Em quais valores ela está alicerçada? Nos valores antinaturais...

décimo:

Se a criação é mais importante do que a conservação (pois não se conserva algo que não foi criado antes), a humanidade enfrentará o maior de todos os desafios: Dioniso continuará com o seu eterno SIM; mas será que Ariadne continuará ignorando-o por muito mais tempo? Afinal, quantas bombas atômicas precisarão explodir para que essa união seja afirmada?

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Última atualização em Sex, 07 de Dezembro de 2007 16:54
 
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