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Felix Guattari: Os oito "princípios" da esquizoanálise PDF Imprimir E-mail
Arquivado em:  Esquizoanálise
Escrito por Bernardo Rieux   
Qua, 12 de Outubro de 2005 20:30
A esquizoanálise seria um novo culto da máquina? Talvez! Mas não certamente no quadro das relações sociais capitalistas! O rpogresso monstruoso dos maquinsimso de toda natureza, em todos os domínios, e que parece agora dever conduzir a espécie humana para uma inelutável catástrofe, poderia pois, tornar-se a via real de sua liberação. Então, sempre o vleho sonho marxista? Sim, até um certo ponto, pois, antes de apreender a história como sendo essencialmente carregada pelas máquinas produtivas e econômicas, penso, ao contrário, que são as máquinas, todas as máquinas que, funcionando à moda da história real ficam, por isso, constantemente aberats aos traços de singularidade e às iniciativas criadoras. Como contestar hoje que apenas uma revolução generalizada poderá, não só melhorar de maneira sensível o modo de vida sobre a terra, mas simplesmente slavar a espécie humana de sua destruição? Trata-se de afrontar tanto os imensos meios de materiais coercitivos como os meios microscópicos de disciplinarização dos pensamnetos e dos afetos de militarização das relações humanas. Mesmo que se volte para o Oeste, para o Leste ou para o Sul, a questão fica na mesma: como organizar de outro modo a sociedade. A repressão permanecerá sempre como um dado de base de toda organização social? Porém, nada disso é inelutável, outros agenciamentos sociais, outras conexões maquínicas são concebíveis! Sobre esse ponto, pouco importa se parecemos titubear sobre o marxismo: não há nada a esperar de bom de um retorno às naturezas primeiras (não é por nada que os diversos fascismos não cessam de reclamar sobre elas). Nada mais como solução geral que a menor catarse em pequena escala! Nada pode ser resolvido a não ser pela colocação de agenciamentos altamente diferenciados. Somente deve ficar claro que as máquinas revolucionárias, que mudarão o curso do mundo, não poderão ser efetivadas, e só tomarão uma consistência fazendo-as efetivamente agir, por uma dupla condição:

 

1) que elas tenham por objeto a destruição das relações de exploração capitalista e o fim da divisão da sociedade em classes, em castas, em raças, etc.

2) que elas se estabeleçam, rompendo com todos os valores fundados sobre uma certa micropolítica do músculo, do phallus, do poder territorializado, etc...

Eis-nos de volta à questão da esquizoanálise! Não se trata, como se vê de uma nova receita psicológica ou psico-sociológica, mas de uma prática micropolítica que só tomará seu sentido com referência a um gigantesco rizoma de revoluções moleculares que proliferam a partir de uma multidão de mudanças mutantes: tornar-se mulher, tornar-se criança, tornar-se velho, tornar-se animal, planta, cosmos, tornar-se invisível... - do mesmo modo inventar "máquinas", novas sensibilidades, novas inteligências da existência, numa nova submissão.

Após isso, se eu devesse forçosamente dar como conclusão algumas recomendações de bom senso, algumas regras simples para a direção da análise do inconsciente maquínico, eu proporia os aforismos seguintes que, aliás, poderiam ser aplicados a todos os outros campos, a começar pelo da "grande política":

1 - "Não impedir". Em outras palavras, não acrescentar ou retirar. Ficar, justamente, na adjacência da mudança em curso e extinguir-se tão logo possível (não se trata aqui, pois, de curas que se arrastam durante anos, até dezenas de anos como é a moda atual para a psicanálise!).

2 - "Quando acontece alguma coisa, isso prova que acontece alguma coisa". Tautologia fundamental para marcar aí, igualmente, uma diferença essencial com a psicanálise cujo princípio de base quer dizer que: "quando não acontece nada, isso prova que acontece, na realidade, alguma coisa no inconsciente"; princípio que seve para o psicanalista justificar sua política do silêncio e das esperas indefinidas. Na verdade, é pouco frequente que aconteça verdadeiramente alguma coisa nos agenciamentos do desejo! Convém, também, guardar todo seu relevo para tais acontecimentos e toda sua vitalidade para os componentes de passagem que são a manifestação desses acontecimentos. Os prisanalistas queriam que nós acreditássemos que eles estão em relação constante com o inconsciente, que dispõem de uma ligação privilegiada que os reúne a ele, uma espécie de telefone vermelho, como o de Carter e de Brejnev! O despertar do inconsciente sabe se fazer compreender por ele próprio. O desejo inconsciente, os agenciamentos que não se exprimem pelos sistemas dominantes de semiotização, manifesta-se por outros meios que não enganam. Aqui não se precisa de porta-voz, de intérpretes. Que mistificação é essa de pretender que o inconsciente trabalhe em segredo, que naõ se possa dispensar um certo tipo de detetive para decifrar suas mensagens e, sobretudo, afirmar que ele está sempre vivo, latente, repelido, quando na verdade ele estaria visivelmente entorpecido, esgotado, morto, e que não haveria mais outro recurso a não ser o de reconstruí-lo, algumas vezes partindo quase do zero? Que alívio, um pouco fraco, como o de encontrar alguém que lhe dê crédito, contra toda aparência, de uma riqueza inconsciente, inesgotável, enquanto tudo ao seu redor - a sociedade, a família, sua própria resignação - parece ter conspirado para exauri-lo de todo desejo, de toda esperança de mudar sua vida! um tal serviço não tem preço e compreende-se por que os psicanalistas cobram tão caro! (1)

3 - A melhor posição para se ouvir o inconsciente não consiste necessariamente em ficar sentado atrás de um divã.

4 - "O inconsciente compromete aqueles que dele se aproximam". Sabemos que "acontece alguma coisa", quando o agenciamento esquizoanalítico atualiza uma "matéria de opção"; torna-se então impossível ficar neutro, pois esta matéria de opção arrasta, no seu sulco, todos aqueles que encontra.

5 - "As coisas importantes não acontecem nunca onde nós as esperamos". Outra formulação do mesmo princípio: "A porta de entrada não coincide com a porta de saída". Ou ainda: "As matérias dos componentes incitando uma mudança não são geralmente da mesma natureza que aquelas dos componentes que efetuam essa mudança". (Exemplo: a palavra se converterá em somático, ou somático em econômico, ou em ecológico, enquanto que o ecológico se converterá em palavra ou em acontecimentos sócio-históricos, etc., etc.) A riqueza de um processo esquizoanalítico medir-se-á pela variedade e pelo grau de heterogeneidade dessas espécies de transferir rizômicos de maneira que nenhuma espécie de semiologia signfiicante, de hermenêutica universal ou de programação política pretenderá traduzi-los, pô-los em equivalência, os teleguiar para daí, finalmente, extrair um elemento comum facilmente explorável pelos isstemas capitalistas. Um significante não representa decididamente a subjetividade esquizo-analítica para um outro significante! Como os componentes não conseguem organizar seus próprios núcleos maquínicos e seus próprios agenciamentos de enunciação, rebelam-se diante da pretensão dos significantes dominantes para interpretá-los. E, em seguida, são eles que fagocitam o componente significante (O que, é preciso repetir,  não é de maneira alguma sinônimo de um primado sistemático dos componentes naõ-verbais "diante do tempo das máquinas!").

6 - Visto que na passagem tratou-se de transfer, penso que estaríamos bem advertidos para distinguir em todas circunstâncias:

- os transfers por ressonância subjetiva, por identificação pessoal, pelo eco do buraco negro;

- transfers maquínicos (máquinas-transfers) que procedem aquém do significante e das pessoas globais, por interações diagramáticas e a-significantes, e que produzem novos agenciamentos antes de representar e transmitir indefinidamente antigas estratificações.

7 - "Nunca nada é adquirido". Nenhum estádio, nenhum complexo nunca é transposto, nunca é ultrapassado. Tudo permanece sempre plano, disponível a todos os reempregos mas também a todas as derrocadas. Um buraco negro pode ocultar um outro! Nenhum objeto pode ser afetado por uma identidade fixa; nenhuma situação é garantida. Tudo é assunto de consistência, de agenciamento e de reagenciamento. A publicação de uma consistência simbólica garantida cem por cento ("como você venceu seu complexo de castração?") é uma operação desonesta e perigosa. Sobretudo da parte das pessoas que pretendem tê-lo adquirido, eles próprios, no decorrer de uma análise tida como didática!

8 - Finalmente, mas na realidade, o primeiro princípio: "toda idéia de princípio deve ser mantida como suspeita". A elaboração teórica é tanto mais necessária e deverá ser tanto mais audaciosa quanto o for o agenciamento esquizoanalítico que admitiu a medida de seu caráter como essencialmente precária.

(1) Poder-se-ia transpor, palavra por palavra, o que nós dissemos aqui do psicanalista ao militante profissional, a quem caberia "fazer existir " a classe trabalhadora como motor-da-história, mesmo quando ela estivesse deprimida, relaxada, cúmplice da ordem dominante - como em certos baluartes do capitalismo - ou, melhor ainda, quando ela não existe praticamente no local, como é o caso em numeroso países do tercerio mundo.

Bibliografia:

GUATTARI, F. O Inconsciente Maquínico - Ensaios de Esquizoanálise. Campinas: Papirus, 1988 (p. 187-191)
Comentários (12)add comment

Claudilene Paiva escreveu:

0
...
Sou estudante do 10º periodo de psicologia, e, neste momento estou tendo meu primeiro contato com a diciplina esquizoanalise. A teoria e muto boa, mas tenho duvidas no conceito de (agenciamento) que é muito utilizado por Deleuze e Guattari. Poderia me esclarecer sobre está dúvida.
Gostaria também de comentar sobre seu texto, dizendo que para uma leiga em esquizoanalise ajuda muito a leitura deste.

Desde ja lhe agradeco e aguardo um retorno.


 
agosto 26, 2007
Votação: +2

aguiomar rodrigues bruno escreveu:

0
...
Sou estudande de história em Volta Redonda no 5 periodo, e estou lendo o livro de Deleuze e Guattari (conversações), porém me encontro com inúmeras dúvidas sobre o texto, gostaria se puder de alguns esclarecimento acerca do livro. Desde já, obrigado!!
 
junho 26, 2008 | url
Votação: +1

Odécio Silva Jr. escreveu:

0
...
Sou psicólogo, formado em 2000, fazia clí­nica na rede publica até 2005, passei o restante do periodo até recentemente trabalhando com instituições, ong, movimentos de grupo..
Procuro um curso, grupo de estudos nas universidades ou outros, em esquizoanalise.
grato odécio S.Jr.
 
março 03, 2009
Votação: +3

monica silva escreveu:

0
...
Sou psicóloga da prefeitura de Paty do Alferes,morei na La Borde,estudei com Felix e estou desenvolvendo um trabalho muito interessante aqui.Fundei e coordenei o Espaço Cultural Felix Guattari em Visconde de Maua,vamos fazer cotato! :
 
abril 27, 2009
Votação: +7

JULIA CERES escreveu:

0
...
Pessoal,
o que mais me intriga mesmo é o princí­pio número 4.
Gostaria de discutí­-lo com alguém.

Andei lendo um texto muito interessante. "Transgressing the boundaries: towards a tranformative hermeneutics of quantum gravity".

Acho que tem tudo a ver com o que está posto aqui.

Segue o link para quem se interessar.
http://www.physics.nyu.edu/faculty/sokal/transgress_v2/transgress_v2_singlefile.html
smilies/cool.gif
 
maio 14, 2009 | url
Votação: +0

Ferster Adams escreveu:

0
...
Nossa, que massa cara. Nunca tinha visto tanta informação preciosa junta. Pela que ela não serve para absolutamente nada. Na onda do intelectualismo, onde falar bonito é falar difí­cil o óbvio, e inacessí­vel o senso comum, essa "teoria" casa ambos muití­ssimo bem. Parabenizo a colega Julia, por citar o artigo quebrando barreiras, que apresenta bem como existem falácias absurdas hoje em ciência pelo simples medo de parecer reacionário, aceitando para tal qualque coisa, inlusive a esquizoanálise. Esse mal da psicologia é um ranso das ciências humanas, onde criar termo e teorias é muito mais fácil que pesquisá-las e analisá-las descritivamente. Se assim for, proponho a criação a teoria: Apego racional e emocional, e nelo comprrendo uma série de princí­pios q absorvem os feníŽmenos.

Era isso que esse Adams queria deixar de RECADO, para aqueles que ainda se interessam pela teoria per si e muito pouco com o que há de fato nesta, de onde e veio e sobretudo baseado em que. Chega de achismos.

Ferster Adams
 
maio 14, 2009
Votação: -3

Oriel escreveu:

0
Paródia
Esse artigo "Transgressing the boundaries: towards a tranformative hermeneutics of quantum gravity" é uma paródia, o autor, Alan Sokal, o fez como um experimento de crítica ao que ele chama de relativismo cognitivo. Ele simplesmente juntou um monte de citações, escreveu algumas coisas aleatórias sobre incerteza, complementariedade, etc. e enviou o artigo, sendo aprovado. Sokal tem uma posição bastante "neopositivista" e fez essa paródia como uma forma de espetar pensadores que já não postulam o positivismo na crença geral de que há uma Verdade e que a ciência é a que está mais próxima dela..

Quanto ao ponto 4, acho que Guattari quis colocar que o inconsciente, que pode ser identificado com o irracional na psique humana, possui um poder de atração, em que nunca estamos neutros ao entrarmos em contato.
 
fevereiro 16, 2010 | url
Votação: +1

madeline escreveu:

0
madeline
O conteúdo é muito enriquecedor e de grande contribuição na formação teórica.
 
maio 12, 2010
Votação: +0

kimberly escreveu:

0
comentário
Muiito iradoo eu sou estudante leiio muito,e adoreii essa matéria.E cheguei nela através de um professor q mandou pelo meu e_mail ...
 
agosto 31, 2010
Votação: +0

Jocélia escreveu:

0
Dúvidas
Sempre adorei Guatarri e Deleuze. Sou Orgonoterapeuta e meus conceitos tiveram um enriquecimento com essas leituras. o que gostaria de saber é, em primeiro lugar, se a resistência é tratada, e como é a relação entre estes dois seres onde a proposta é de uma troca, mudança de paradigmas.Não me fica claro o tipo de atendimento. Se puderem me dar um retorno, ficarei agradecida e entendendo mais sobre o tratamento.
grata
 
junho 07, 2011
Votação: +0

Frederico Caiafa escreveu:

0
Curso de Análise Institucional
Olá, pessoal que acompanha este site. Venho me deliciando com as leituras que vocês travam neste site. Alguns têm muito interesse em estudar a Esquizoanálise. Trabalho em uma Fundação, em Belo Horizonte, que realizará sua 9ª turma de Análise Institucional, Esquizoanálise e Esquizodrama: Clínica de Indivíduos, Grupos, Organizações e Redes Sociais.
Temos um público sempre interessado e nesta versão do curso teremos algumas aulas que serão em longa distância.
Pelo site vocês conseguem acessar maiores informações sobre o curso.
Grande abraço,
Frederico Caiafa
(31)3284-1083
(31)8322-2332
 
junho 20, 2012 | url
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Última atualização em Seg, 14 de Outubro de 2013 11:54
 
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