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José Amorim de Oliveira Júnior Acadêmico do Curso de Licenciatura em Filosofia - UCG. Orientadores: Ms. Eduardo Sugizaki/José Ternes
Trata-se de uma reflexão sobre a concepção nietzschiana do problema da aceitação e da negação do mundo, bem como da existência nele.
"(...) o homem não deve buscar no infinito sua felicidade, mas fundar na Terra o seu céu; a ilusão de um mundo sobreterrestre levou os espíritos humanos a uma atitude equivocada perante o mundo terrestre (...)." (Apêndice de Genealogia da Moral, 'Fado e História' [Fatum und Geschichte], p. 168, Cia. das Letras, 1998, São Paulo, tradução e notas de Paulo César de Souza)
"(...) Falar de outro mundo distinto deste carece de sentido, supondo que não nos domine um instinto de calúnia, amesquinhamento e de suspeita contra a vida. Neste último caso nos vingamos da vida com a fantasmagoria duma vida distinta, duma vida melhor." (Crepúsculo dos Ídolos. A 'Razão' na Filosofia, § 6, Coleção Os Pensadores, Vol. II, p. 111-112).
Vinte e seis anos separam estes dois textos de Nietzsche. Fado e História, do então jovem filólogo, enquanto que Crepúsculo dos Ídolos, dos últimos anos da sua produção filosófica. O que há de comum entre ambos é a preocupação do autor em afirmar esta existência. Ao combater a valorização filosófica e religiosa de um outro mundo, além desse, Nietzsche abala os alicerces da metafísica ocidental, particularmente, a de herança platônica e cristã, já que entende o cristianismo como "uma espécie de platonismo para o 'povo' ". Nietzsche abandona a tradicional polêmica sobre provar a existência ou inexistência de um paraíso, de um mundo além. Para ele, essa é uma discussão superada. Acreditamos que o filósofo se preocupa em instituir uma nova ética: não apenas uma nova visão de mundo, mas uma nova postura humana diante dessa existência. O próprio filósofo reconhece que "a ilusão de um mundo sobreterrestre levou os espíritos humanos a uma atitude equivocada perante o mundo terrestre". A filosofia é usada então como um martelo, instrumento para destruir uma visão equivocada dessa existência (negativa) e instituir uma nova postura (afirmativa). Nietzsche, na sua obra Crepúsculo dos Ídolos, propõe-se a dar uma nova perspectiva sobre a questão da existência, enunciando quatro teses, nas quais irá tecer um esquema conceitual que se propõe a negar a divisão de mundos, um terreno e um celeste e postular a ética da afirmação incondicional da existência. Na primeira tese, argumenta que "os fundamentos, em vista dos quais 'este' mundo foi designado como aparente, fundam, em vez disso, sua realidade - uma outra espécie de realidade é absolutamente indemonstrável." Para designar esse mundo como aparência (em uma conotação negativa, depreciativa), o ser humano recorreu ao enganador princípio da essência das coisas, do ser, princípio esse segundo o qual o mundo das aparências é uma mentira, uma cópia imperfeita de um outro mundo, o mundo-verdade. Essa é uma suposição indemonstrável. Nietzsche considera que "(...) o ser é uma ficção" e que "o mundo das aparências é o único real. O mundo-verdade foi acrescentado pela mentira." A esses inventores de conceitos superiores, como Ser, Absoluto, Bem, Verdade, Perfeição, o filósofo chama de "enfermos urdidores de teias de aranha" (Crepúsculo dos Ídolos, A 'Razão na filosofia', § 4), que farão com que a humanidade pague tão caro por seus erros conceituais, que irão se impregnar na cultura e na mente humana, fazendo com que as pessoas tomassem uma postura errônea frente à existência, uma postura de suspeita, de negação. Sendo "O mundo das aparências o único real" (Crepúsculo dos Ídolos, A 'Razão' na Filosofia, § 2), o filósofo diz o seguinte a respeito da dualidade aparência e essência: "o que é aparência, agora para mim! Certamente não será o contrário de um ser... que saberia eu dizer acerca de algo, que não fosse os atributos de sua aparência! (...) a aparência para mim é a própria vida e ação (...)" (Gaia ciência, § 54). Percebemos que para o filósofo não há distinção alguma entre aparência e realidade. Não diríamos que se provoca a destruição do conceito de ser, mas que se institui uma nova ontologia: o ser é o próprio devir, o próprio vir-a-ser. A efetividade, em sua multiplicidade, ao invés de contrapor-se ao ser, o constitui. Na segunda tese, Nietzsche diz que "os signos característicos que se deram ao 'verdadeiro ser' das coisas são os signos característicos do não-ser, do nada - edificou-se o 'verdadeiro mundo' a partir da contradição com o mundo efetivo: um mundo aparente de fato, na medida em que é uma ilusão de ótica e de ética." Essa construção de um mundo verdadeiro foi motivada pela busca pela certeza, que levou à enunciação da essência: antes um nada seguro (essência, ser) do que um algo incerto (aparência, multiplicidade). Na terceira tese, o autor diz que "fabular sobre um 'outro' mundo, que não este, não tem nenhum sentido, pressupondo que um instinto de calúnia, apequenamento, suspeição contra a vida, não tenha potência em nós: neste último caso vingamo-nos da vida com a fantasmagoria de uma 'outra' vida 'melhor'." Para Nietzsche, esta atitude é condenável, posto que efetua um deslocamento deste mundo, tido como 'aparência', para um outro mundo irreal, tido como 'verdadeira essência'. O protótipo de mundo, do qual este mundo é apenas uma cópia imperfeita é uma calúnia, é um voltar contra este mundo, contra a vida. O que, porém, leva os homens a acreditarem nesse 'outro' mundo? Essa é uma crença arraigada em várias culturas, que merece um olhar inquiridor. A negação desta existência, sua fuga, sua depreciação, dar-se-ia em prol de uma visão de mundo dualista e idealista, que separa o mundo em dois: um mundo perfeito (mundo das idéias, a essência, a forma, o ser) e uma cópia imperfeita (o mundo concreto, real, efetivo, esta existência). Cumpre perguntar: que necessidade imperiosa é esta que nos leva a criar o mundo ilusório do além? Isto se dá exatamente porque temos uma dificuldade patente em aceitar o caráter de luta (agôn), de efemeridade e de multiplicidade que este mundo possui. É esta dificuldade, em última instância, a dificuldade em aceitar a própria vida tal como ela é, que nos faz recorrer à idéia de um mundo onde reina o absoluto, perfeito, estável, acabado. Para Nietzsche, tal busca é uma aspiração pelo nada, posto ser uma busca ilusória. Entretanto, o próprio autor admite que é difícil para o ser humano reconhecer ou suportar a existência, em tudo o que ela tem de trágico e cruel. Esta tarefa, de afirmação incondicional da existência, não é obra para todos. Cada um de nós o faz de acordo suas possibilidades. Nietzsche diz: "(...) pode ser da constituição básica da existência o fato de alguém se destruir ao conhecê-la inteiramente - de modo que a fortaleza de um espírito se mediria pelo quanto de 'verdade' ele ainda suportasse, ou mais claramente, pelo grau em que ele necessitasse vê-la diluída, edulcorada, encoberta, amortecida, falseada." Ao admitir que a aceitação incondicional da existência, em sua totalidade e plenitude possa até mesmo nos destruir, Nietzsche torna lícito também uma certa dose de ilusão. Porém, é exatamente a ruptura com essa ilusão que garantirá a alguém o que o filósofo denomina de 'fortaleza do espírito'. Cada qual, então, que porte consigo sua parcela de ilusão. É interessante notar que a busca por um mundo imutável, onde o ser é valorizado ao extremo e o devir é posto de lado, não é prerrogativa apenas da filosofia metafísica, de tradição platônico-cristã. Esta busca está impregnada na ciência (através da busca pelo conhecimento absoluto, pela verdade final, a dualidade sensível e supra-sensível), na filosofia (o mundo das idéias), na moral (nos conceitos como Deus, o Bem, o Mal), se tornando substrato das mais diversas criações humanas. Esta fixação pelo ideal de uma vida perfeita, em um além, pelo ser, pelo perene, deprecia a vida terrena por transpor seu valor ao plano da fantasia, contrária à efetividade, que é, em si, múltipla e não se enquadra em qualquer posição racional reducionista. A recusa nietzschiana em aceitar qualquer distinção entre diferentes tipos de realidades (umas mais reais do que as outras), ao lado da valorização do devir, da mudança, do sensível, são ingredientes para uma Filosofia Positiva. A filosofia que Nietzsche nos demonstra rompe com os dogmas criados pela filosofia metafísica tradicional, pois adota este mundo, esta existência, como o modelo, como o ponto de partida e o ponto de chegada de sua filosofia, sem recorrer a modelos ideais e fantasiosos ('fantasmagóricos', como diz o autor). Tal filosofia é uma filosofia afirmadora da existência, uma filosofia telúrica. O próprio filósofo entende o além como uma fuga do aquém, a realidade creditada em um mundo do além, como uma negação e uma depreciação desta existência concreta, múltipla, repleta de devir.
Na quarta tese, a divisão de mundos em 'mundo real' e 'mundo aparente' é rejeitada. A figura do artista trágico é proposta, como o modelo de uma afirmação incondicional da aparência. O artista é considerado trágico em virtude do caráter de sua postura frente ao mundo: ele afirma a aparência não porque esta seja o contrário da essência mas, sim, por considerá-la a própria essência. Ele incorpora na aparência todos os seus elementos problemáticos e terríveis. Percebe-se então a força que o sofrimento exerce na atitude humana frente à existência. A questão do sofrimento é problematizada do seguinte modo: afirmar o sofrimento não é afirmar a existência. Tomemos o exemplo típico do cristão, considerado pelo filósofo alemão como um negador da existência, por excelência. A valorização cristã do sofrimento é algo tido como algo positiva. Nietzsche vai contrariar essa hipótese, dizendo que tal atitude é meramente negativa, tendo em vista que o sofrimento é aí apenas um artifício para se obter a salvação em um outro mundo, algo tolerável, enquanto que objetiva os benefícios de uma vida futura, de um promessa de salvação em uma outra existência. Nietzsche propõe não apenas uma nova visão do sofrimento, mas também uma nova postura, para com ele. É nesse momento, em que já se combateu a busca pelo mundo do além e a esperança de vida ultraterrena, que a afirmação da existência neste mundo toma seu caráter mais radical no anúncio do que o próprio autor denomina como sendo a afirmação incondicional desta existência, a afirmação do sofrimento enquanto parte integrante da existência, a capacidade de afirmar tudo o que há de mais terrível e doloroso, juntamente com o mais alegre e exuberante. Tal postura filosófica atinge seu ápice exatamente quando Nietzsche anuncia a importância de transformarmos as experiências passadas em uma aceitação incondicional da vontade, de fazer com que todas as nossas experiências sejam tomadas como ponto de partida para a auto-superação humana, para a construção de uma qualidade de vida e de existência superior. Este pensamento é anunciado da seguinte forma: "Na Escola Bélica da Vida - o que não me faz morrer me torna mais forte." (GD/CI, Máximas e sátiras, p. 10). É o sofrimento purificador, que remete a essa existência, ao contrário do sofrimento cristão, negativo, um sofrer resignado, passaporte para o paraíso. No final da obra Crepúsculo dos Ídolos, § 4 do capítulo 'O que devo aos antigos', o autor compara a dor inerente à existência neste mundo, com a dor do parto: "(...) a dor é santa: as 'dores da parturiente' santificam a dor em geral - todo vir-a-ser e crescer, tudo o que garante futuro condiciona a dor... Para que haja o eterno prazer de criar, para que a vontade de vida afirme eternamente a si mesma, é preciso também que haja eternamente o 'tormento da parturiente'" (op. cit. p. 124) Nietzsche formula, assim, uma forma de enfrentamento da efetividade, que ele considera ser a fórmula da grandeza humana: "nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo (...) mas amá-lo..." (Ecce Homo, § 10, p. 51). Dessa postura conceitual deve nascer uma postura concreta, em que as ações devam ser orientadas pela ética do compromisso em se afirmar aquilo que se faz, de tal forma que a ação humana deva atingir sua excelência. É uma tentativa de fazer com que o 'dever ser' seja instaurado em cada ação, através da radical superação que o homem deve se propor em cada ato, em cada gesto, de modo a querer vê-lo repetido eternamente. Nietzsche constrói desta forma uma filosofia voltada para o cotidiano. Questões tais como alimentação, vestuário, clima, habitação, exercícios, são questões que assumem, nesta perspectiva, relevância filosófica: "Essas pequenas coisas (...) são inconcebivelmente mais importantes do que tudo o que até agora tomou-se como importante. Nisso exatamente é preciso começar a reaprender. O que a humanidade até agora considerou seriamente não são sequer realidades, apenas construções; expresso com mais rigor, mentiras oriundas dos instintos ruins de naturezas doentes, nocivas (...)" (Ecce Homo, § 10, p. 50). Desta forma, aquele tipo de metafísica que se propõe a discutir um mundo além, verdades absolutas, sai do cenário desta filosofia. Poderíamos nos perguntar: qual é o efeito (wirkung) de uma tal filosofia afirmativa, positiva, de uma visão de mundo, como esta que Nietzsche nos propõe? Não nos enganemos, acreditando tratar-se de uma filosofia permissiva, que a tudo afirma. Não se trata de afirmar a tudo, resignadamente, a todas as coisas, indiscriminadamente. O dizer sim a todas as coisas, indistintamente, é tarefa de asnos, de suínos, "tudo mastigar, tudo digerir é bom apenas para os porcos" (Zaratustra, III, Do Espírito da gravidade). Portanto, na afirmação deste mundo, muitas vezes temos de dizer um 'não'. O critério nietzschiano é "(...) ter vontade de responder sim; é manter as distâncias que nos separam; é ser indiferente às penas, às asperezas, às privações." (O crepúsculo dos ídolos, p. 90), ou seja, agir eticamente não significa agir em prol do bem-estar, mas agir de tal forma que se deseje a repetição desta ação eternamente. É agir de forma que a ação não seja negada futuramente. O critério de ação é a consonância que esta deve ter com os princípios afirmativos da existência. Tal ética parece-nos estranha, em uma sociedade que, como a nossa, é um exemplo de dizer 'sim' de forma indistinta a tudo. É um dizer sim que coloca em risco a própria existência, pela abundância de situações que são buscadas sempre em função do prazer, do contentamento, do bem-estar. O dizer 'sim' que Nietzsche apregoa tem em vista a superação de tais estados e pressupõe uma nova postura do homem diante do mundo até atingir sua afirmação radical e incondicional, apesar da dor e contradição a ele inerente. Esta postura só pode ser assumida por um tipo de homem afirmativo, que se preocupa com a afirmação de valores próprios. É algo experimental, que deve ser vivido profundamente por cada indivíduo. Não se trata sequer de ser perdulário para com esta existência visto que, pelo fato de não haver outra, tudo se tornaria possível. A vida é o valor sagrado, para Nietzsche e a conduta humana deve ser norteada em função dessa sacralidade. Novamente, fazemos uso da comparação que o filósofo faz da existência, com o parto. Assim como devemos aceitar a dor como condição inerente ao parto, devemos aceitar a dor como algo inerente à existência. Para nascer, é necessário vencer resistências, para evoluir, também. Não há evolução sem resistência. Dizer sim, mais que buscar o bem-estar, a felicidade, é buscar se superar, é buscar dinamizar e atualizar o que em nós existe potencialmente.
Referências Bibliográficas
(obras de Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)
Além do bem e do mal - prelúdio a uma filosofia do futuro, São Paulo, Companhia das Letras, Tradução/Notas de Paulo César Lima de Souza, 1992.
Assim falou Zaratustra - um livro para todos e para ninguém, Parte 1, Ed. Bertrand Brasil, 9a. ed., trad. de Mário da Silva, Rio de Janeiro, 1998.
Ecce Homo - como alguém se torna o que é, São Paulo, Cia. das Letras, tradução e notas de Paulo César Lima de Souza, 1995.
Genealogia da moral - uma polêmica, São Paulo, Cia. das Letras, tradução e notas de Paulo César Lima de Souza, 1998.
Crepúsculo dos Ídolos. Coleção Os Pensadores, Vol. II.
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