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por José Amorim de Oliveira Junior
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O presente artigo analisa a aparente contradição, exposta no primeiro aforismo do quinto capítulo da obra de Nietzsche (1844-1900) Humano, demasiado humano - um livro para espíritos livres, em seu título: "Melhoramento pela degenerescência".
O problema que se afigura, a nosso ver, é o seguinte: como a degenerescência pode levar algo ao melhoramento? Em nossa maneira lógica de pensar, a degenerescência de algo (no seu todo ou em parte), não nos leva exatamente a pensar tratar-se de um processo de decadência, e não de "melhoramento", como pretende o título do aforismo? O autor apresenta-nos, de início, o diagnóstico de um problema por ele denominado de "embrutecimento" do indivíduo humano. Como antítese a esse embrutecimento, apresenta-nos o que ele, ao longo do breve aforismo (§ 224), irá denominar de diferentes formas: melhoramento (já no título), desenvolvimento, progresso e fortalecimento. O filósofo estabelece uma leitura peculiar para alguns termos, bem como para a realidade histórico-cultural que ele analisa, fazendo algumas inversões de sentido (por exemplo, os conceitos de 'forte' e 'fraco' - moralmente considerados.)
"Aprende-se na história que a linhagem de um povo, que melhor se conserva, é aquela em que a maioria das pessoas tem um vivo espírito comunitário, em conseqüência da identidade dos seus princípios fundamentais costumários e indiscutíveis (...). Neste caso, reforça-se o bom costume activo, aprende-se a subordinação do indivíduo e dá-se firmeza ao carácter (...) inculcada também pela educação. O perigo destas comunidades fortes, assentes em indivíduos do mesmo tipo, cheios de caráter, é o embrutecimento (...) que segue, aliás, toda a estabilidade como a sua própria sombra. É dos indivíduos mais independentes, muito mais inseguros e moralmente mais fracos, que depende, em tais comunidades, o progresso espiritual: são eles os homens que experimentam a novidade e, sobretudo, a variedade." (Nietzsche, op. cit. § 224, pág. 206)
A primeira inversão que encontramos é que o autor não concorda com a interpretação tradicional (designada na citação como "história"), que propugna a identidade dos princípios costumários entre os indivíduos, ou seja: todos devem viver em comunidade, agindo (costume activo) e pensando a partir dos mesmos princípios (que, aliás, são "indiscutíveis"). Para o autor, isso leva o indivíduo à subordinação e ao embrutecimento. Em seguida, nova discordância do autor, ao dizer que tal pressuposto (o da igualdade de agir e pensar), leva o indivíduo à "firmeza de caráter", a ser um indivíduo moralmente "forte". Jogo de palavras ou, novamente, uma outra inversão do filósofo, ao considerar o conceito de "forte" e "firme de caráter" como algo negativo, algo que deve ser evitado? Certamente que a posição do autor é de contraposição à visão tradicional, que usa a educação como elemento inculcador de que o costume ativo seja algo digno ser seguido por todos, como um elemento não apenas de agregação e conservação social, mas até mesmo de desenvolvimento, de progresso. Afinal, nós brasileiros, podemos falar com conhecimento de causa de uma tal visão, uma vez que temos como divisa da bandeira de nossa pátria o lema "ordem e progresso". Nietzsche defende, desta forma, que haja uma ruptura com a moral tradicional, em última instância, uma transgressão do indivíduo para com a ordem estabelecida. O interessante é que esse indivíduo transgressor é considerado como um indivíduo fraco. Aqui devemos entender que o termo fraco é usado no sentido moral; na citação do autor, "indivíduos inseguros e moralmente mais fracos". Para ele, o indivíduo moralmente "forte" só o é a partir do momento em que estabelece uma profunda ligação com o costume praticado e defendido por todos, a partir do momento em que está preso à tradição, suporte para a estabilidade, para a conservação. Fica patente aí a antinomia "conservação" e "progresso". Enquanto a dinâmica da sociedade prima-se pela conservação, o autor introduz um elemento, o tipo fraco, como o inoculador de novas experiências, novos experimentos, comportamentos variegados, em oposição ao comportamento padrão, normal. Ele - o indivíduo fraco - é o elemento que permite o aperfeiçoamento do tipo, em oposição ao indivíduo forte, instrumento da conservação. É interessante as palavras do autor, "O perigo destas comunidades fortes, assentes em indivíduos do mesmo tipo, cheios de caráter, é o embrutecimento (...) que segue, aliás, toda a estabilidade como a sua própria sombra (...)", ou seja, é a instabilidade, a desordem, inoculada pelo indivíduo fraco, que possibilita a idéia de se quebrar o ciclo da moral, de sair-se do embrutecimento ("sombra da estabilidade"). Desta forma, uma nova inversão: a transgressão, o romper com limites estipulados pelo pacto social, é uma forma - a única legítima no texto do autor - de se construir um progresso espiritual. Ela só poderia ser feita por indivíduos fracos, por estarem estes em uma situação delicada e insegura, ou seja, em nada segura, não prende-se a nada, a nenhum costume estabelecido e sacramentado. Eles (os indivíduos fracos), "desatam os nós, abrem uma ferida no elemento estável de uma comunidade, inoculando algo de novo". É esse algo novo, que deve ser incorporado e assimilado pela coletividade, que permite a noção de melhoramento. A ilustração que o autor usa pode passar-nos por simplista, mas ela retrata bem o que ele quer dizer: "raramente uma degeneração (...) não tem uma vantagem por outro lado. (...) O zarolho terá um olho mais forte", por exemplo, visto que ele transforma uma fraqueza em algo positivo, em um progresso. Ao contrário do que a "história" afirma, sobre o progresso, como sendo engendrado via "luta pela vida", Nietzsche acredita que o fortalecimento do homem dar-se-ia pela possibilidade que o homem fraco tem de instituir fins mais altos para a humanidade. Ele, após inocular o elemento novo, enfraquece a força estável, permitindo ao organismo social a assimilação de seu novo costume, que levará a escalar um novo degrau em direção ao melhoramento. É importante observarmos a conexão que o filósofo faz do processo educativo, com relação à superação da moral vigente. O autor retrata dois possíveis papéis da educação. O primeiro é fazer com que o homem se encubra por um sistema rígido, estável e seguro, tal qual uma camisa de força, que jamais permita ao educando desviar-se de sua rota. O segundo é fazer com que o educador, ao tratar das feridas trazidas por seu educando, ou nele feitas via processo pedagógico, faça com que o sofrimento e a necessidade sejam elementos catalizadores do melhoramento, através do novo e do nobre. Acreditamos que a contradição apresentada no início deste artigo desfaz-se pelos argumentos apresentados pelo próprio autor, na medida em que, ao construir sua crítica, a faz a partir, não da moral tradicional, mas a sim a partir de um distanciamento dela, situando-se em uma posição além do "bem" e do "mal", moralmente praticados. Exatamente por isso ele pode conceber o critério da transgressão, legitimamente posto em prática pelo tipo fraco. É este critério que permite-lhe (ao tipo fraco) se estabelecer como peça chave no melhoramento humano, escolhendo as possibilidades que mais lhe adequar. É em relação a essas possibilidades que o autor irá definir uma nova educação, colocada a serviço do progresso espiritual humano, e não mais da moral tradicional.
"O ambiente educador pretende tornar cada homem dependente, na medida em que lhe põe sempre diante dos olhos o mais ínfimo número de possibilidades. O indivíduo é tratado pelos seus educadores como se, na verdade, fosse algo novo, mas devesse tornar-se uma repetição. Se o homem aparece, primeiro, como algo desconhecido, algo nunca visto, pois deve ser transformado em algo conhecido, já visto. Chama-se 'um bom caráter' numa criança, ao aparecer da subordinação através da identificação com o já visto; quando a criança se põe ao lado dos espíritos subordinados, ela manifesta, em primeiro lugar, o seu espírito comunitário, que está a despertar; com base nesse sentido comunitário, porém, ela será mais tarde, útil ao seu Estado ou à sua classe.(Idem, ibidem.)"
Referência Bibliográfica (autoria de Friedrich Wilhelm Nietzsche )
Humano, demasiado humano - um livro para espíritos livres, Vol. I, Portugal, Relógio D'Água Editores, Traduzido do alemão para o português por Paulo Osório de Castro, 1997.
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