| O CENTENÁRIO DE UM FILÓSOFO MALDITO |
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| Arquivado em: Filosofia | |||||||
| Escrito por psicopr | |||||||
| Ter, 26 de Abril de 2005 10:36 | |||||||
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por Jorge Barcellos Georges Bataille, que no dia 10 de setembro de 1997 completaria cem anos de nascimento, é um original pensador das forças subterrâneas que movem o social. Estraído do endereço: http://www.terravista.pt/AguaAlto/2158/bataille.htm com a autorização do autor A última quarta-feira foi a passagem do centenário de nascimento de Georges Bataille, um dos mais polêmicos e originais escritores deste século. Nascido em Billom, Puy-de-Dôme, em 10 setembro de 1897, sua obra atravessou campos diversos, da literatura à filosofia. Autor boêmio nos meios da cena intelectual parisiense e arquivista da Biblioteca Nacional de Paris durante décadas, sua obra foi marcada por duas experiências centrais - a experiência estética no âmbito do surrealismo e a experiência política ligada ao radicalismo da esquerda. O autor de A Parte Maldita, O Erotismo e O Azul do Céu teve uma história singular: filho de "pai descrente, mãe indiferente" como ele mesmo escreveu, converteu-se aos 15 anos ao catolicismo, vindo a abandonar anos após. Muito cedo estudou psicanálise, marxismo e a antropologia de Marcel Mauss; foi leitor de Nietszche e filiou-se ao seu anarquismo: seu caráter contestador já se faz presente em 1929-30, quando atacou violentamente na imprensa André Breton, pai do Surrealismo, chamando-o de "leão castrado". Com uma intensa atividade como editor, Bataille foi o responsável pela fundação de várias revistas literárias, como a "Documents", "Acéphale" e "Critique. Preocupado em escapar ao cativeiro da modernidade, do universo fechado da razão ocidental, Bataille, diferente do que fez Heidegger, não pretende encontrar os fundamentos mais profundos da subjetividade, mas sim libertá-la dos seus limites (Habermas). Autor de uma obra erótica que dá continuidade a obra de Sade, publica em 1928 "História do Olho", sob o pseudônimo de Lord Auch e em 1937, sob o pseudônimo de Pierre Angélique, "Madame Edwarda. É uma ficção erótica onde encontramos seres angustiados e torturados por conflitos íntimos, que Bataille utiliza para nos mostrar a perda do indivíduo em torno de suas paixões até a morte. Esse gosto pela literatura o levou a reunir em A Literatura e o Mal, diversos estudos onde analisa a obra de Emily Brontë, Baudelaire, Michelet, William Blacke, Sade, Proust, Kafka e Jean Genet, parcialmente publicados a longo de anos na revista Critique nos anos que se seguiram a Primeira Guerra Mundial. Eles nos oferecem o sentido que tinha a literatura para Bataille - a literatura é comunicação, impõe uma lealdade, uma moral rigorosa. Não é inocente. "A literatura é o essencial ou não é nada. O mal - uma forma penetrante do Mal - de que ela é a expressão tem para nós, creio eu, o valor soberano". Duas obras são fundamentais para compreendermos o pensamento de Bataille. Em A Parte Maldita Bataille buscou a elaboração de um pensamento sobre economia partindo da antropologia de Mauss, bastante distinta do liberalismo e do marxismo dominantes em sua época. É o único livro onde ele teria tentado construir sua visão de mundo: filosofia da natureza, filosofia do homem, filosofia da economia, filosofia da história (Jean Piel). Influenciado pela leitura de O Ensaio Sobre o Don, A Noção de Despesa, que precede e origina o livro, sustenta que o consumir, e não o produzir, que o despender e não o conservar, que o destruir em vez de construir, constituem as motivações primeiras da sociedade humana. Reinvertendo o princípio axiomático da primazia da produção sobre o consumo, Bataille traz para a interpretação da economia as análises que privilegiam as formas de circulação e que não se traduzem em medidas de valor. Ao sistematizar sua teoria geral da circulação da energia sobre a terra, sempre numa espiral ascedente que dá o caráter de nossa sociedade, Bataille revela a influência da idéia de dádiva, onde ele nos mostra que existe outros princípios de troca fundadores da sociedade, onde impera a qualidade, como o sacrifício ritual, e que nos vinculam ao que está além do humano. Rejeitando as teorias de Keynes, bem como o marxismo de juventude, Bataille construiu seu pensamento insistindo na hipótese de uma abundância inevitável e inaceitável no mundo, cuja acumulação conduz a morte. Em O Erotismo, Bataille continua essa linha de estudos. Ao encontrar no Erotismo a chave que desvenda os aspectos fundamentais da natureza humana, o ponto limite entre o natural e o social, o humano e o inumano, Bataille o vê como a experiência que permite ir num além de si mesmo, superar a descontinuidade que condena o ser humano: "Falarei sucessivamente dessas três formas, a saber: o erotismo dos corpos, o erotismo dos corações e, finalmente, o erotismo sagrado. Falerei dessas três formas a fim de deixar bem claro que nelas o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda". Divida em duas partes, o livro expõe na primeira parte sistematicamente os diferentes aspectos da vida humana sob o ângulo do erotismo e na segunda, estudos independentes que tratam de psicanálise e literatura. Estudioso de religiões orientais, experiências místicas e práticas extáticas e sacrificiais, Bataille nos leva a descobrir que "entre todos os problemas, o erotismo é o mais misterioso, o mais geral, o mais a distância". Mostrando os efeitos de transgredir as interdições impostas milenariamente por estes elementos desordenadores, Bataille dá ao erotismo e a violência uma dimensão religiosa, onde explora os meios para se atingir uma experiência mística "sem Deus": "um homem que ignora o erotismo é tão estranho quanto um homem sem experiência interior". Hoje, passados cem anos de seu nascimento, é preciso ler Bataille urgentemente. Ainda que sua obra seja pouco conhecida entre nós, sua presença pode ser encontrada em vários os meios, sob as mais diferentes formas. Seu pensamento alimenta Michel Aglietta, André Orléan e Jacques Ataille, importantes referências em questões monetárias na Europa Contemporânea; Jean Baudrillard inspira-se diretamente no texto batailleano - a morte como destino da sociedade de consumo é essencial a sua doutrina; Deleuze-Guattari, inspiram-se em Bataille para ver o mundo como espaço de várias alternativas possíveis à lógica do mercado, lugar onde desenbocam pulsões e desejos, um mundo de novas estratégias não mercantis. Ao reconhecer o excesso encarnado no desejo de transgredir os mitos no campo simbólico, Bataille contribuiu para uma geração de intelectuais projetarem da economia à psicanálise uma tonalidade impregnada de culturalismo que não cessa de mostrar-se como alternativa original e criativa de compreender nosso mundo. Falecido em 8 de julho de 1962, Bataille foi enterrado em Vézelay, em um pequeno cemitério próximo a basílica, com uma simples tábua funerária, sem outra inscrição que não seu nome e as datas: Georges Bataille, 1897-1962.
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Guilherme Falleiros
escreveu:
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Onde conseguir A Parte Maldita em versão online gratuita para um grupo de estudos? Saudações, Jorge! Faço parte de um coletivo ligado à busca de alternativas eco(nomo)lógicas, lidamos com práticas agroecológicas, de "economia" da dádiva, reciclagem, autogestão etc. Temos um grupo de estudos também e pretendemos ler Bataille neste ano (2010). Você teria como entrar em contato comigo para sugerir uma forma de conseguir uma cópia gratuita do livro A Parte Maldita (em português)? Agradeço desde já pela atenção. |
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