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Marcos Lyra (
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) analisa a noção de consciência no romance "A Náusea", de Sartre.
Ao avaliar uma obra literária, quase que invariavelmente nos depararemos com a necessidade de encontrar um visão que seja capaz de relatar as significações subjacentes, propostas pelo autor, consciente ou inconscientemente, tendo por base as possibilidades expressivas proporcionadas pela significação aparente, além das relações lógicas envolvidas no decorrer do texto analisado. Em "A Náusea", o filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980) investiga e demonstra as partes mais fundamentias da sua doutrina existencialista, brilhantemente conduzindo o leitor através dos fluxos da consciência de seu personagem principal, com a intenção de criar um padrão de compreensão que envolva não só o conhecimento dos fatos, mas também a vivência dos mesmos. A maneira como se descortina a consciência de Antoine Rotenquin, em si própria é o instrumento fundamental de que se utiliza Sartre para tornar visíveis as experimentações daquilo que compõe o arcabouço da existência na concepção sartreana. Tomado em seu sentido mais rigoroso, tal sistema está contido em uma série de livros exploratórios e especificamente construídos com fins didáticos. Impossível seria, assim, esperar uma fundamentação teórica de entes como, por exemplo, a angústia, que é um dos componentes centrais do pano de fundo consciente da obra. Se existe uma proposta , no romance , a respeito desta última, esta é efetuada às custas da narração em primeira pessoa de um indíviduo que tenta transcrever parte se suas intensas experiências em seu diário. É através de uma via bastante semelhante que o autor traz á luz, e apresenta, o conceito de Naúsea, dentro do fluxo do acontecimentos. Esta forma de experimentação consciente desenvolve-se ao longo da história, tornando-se o ponto de aglutinação da existência de Rotenquin, um momento onde todos os caminhos da sua angústia e melancolia, da sua auto-consciêcia, suas experiências e frustrações, e finalmente a ausência que parece ser central em sua vida, se entrecruzam e recebem um significado, um nome, se aglutinam ao seu prórpio ser e tornam-se um novo ente das experiências que o acometem e transtornam. Foi dito acima que a argumentação racional está ausente no texto devido à sua própria natureza intrínseca de romance e história, e não especificamente de livro expositivo. Mas é justamenete esta natureza a via da qual se apodera Sartre para explorar temas de significação profunda. Tornou-e obrigatória, então, para o mesmo, a utilização do recurso da metáfora, na visita a alguns dos conceitos fundamentais relativos às investigações existenciais enquanto experiências vividas pelo personagem central. Temos então, o primeiro, e talvez mais fundamental deles, que não é único do existencialismo, mas proporciona a própria razão de ser do mesmo: o conceito de consciência. De que maneira pretende Sarte explorar, e quase conceitualizar o conceito de consciência no romance? Através da música. A música, forma suprema e universal de expressão cuiltural, é passagem obrigatória dentro do caminho de compreensão de qualquer povo ou sua cultura. É o mesmo o que contece no romance de Sartre. Somos, então, neste ponto instados a questionar o significado desta palavra: "música", além de comprernder de que maneira ela foi utilizada pelo atuor no texto. Fundamentalmente, ela sempre foi a ocorrência de padrões sonoros, criados pelo próprio ser humano, que em si pretendem criar alguma forma de prazer na pessoas que as ouvem, a partir da exploração das relações matemáticas entre notas e períodos de tempo, que são imediatamente apreendidas e inconscientemente processadas pelo ser humano que as houve. Desconsideremos inicialmente as formas musicais cantadas. Na música intrumental o que ocore é uma apresentação contínua de notas, ou seja, uma sequência de frequências diversas, normalmente sobrepostas entre diversos timbres, com apresentação simultânea e integrada. Além de frequêncais e timbres, é fundamental na música a ocorrência de um ritmo, seja ele constante ou variável. A percepção de séries de notas submetidas a um padrão determinado de tempo, que seja o ritmo, imediatamente retém a atenção, destaca-se como algo além de simples sonoridade aleatória, como o ruído, e conduz o humano, automaticamente, a um padrào de consciência auditiva, por ela determinado e manipulado. Em cada momento, o que se percebe é uma única nota, ou uma sobreposição de notas em harmonia, ou seja, matematicamente coerentes entre si. Não obstante, há um prazer intrínseco, proporcionado pela relação entre este instante sonoro e os anteriores, sendo sempre os cálculos matemáticos feitos com base não somente no que está presente, mas também com aquilo que já é passado, mas ainda está vivo na memória. Além deste aspecto de passado há uma sempre uma noção de predição em relação ao que está acontecendo na sucessão de instantes da consciência que ouve. A repetição de sucessões harmônicas, aliada á definição do ritmo e sua divisão em compassos, além de tantos outros elementos da lógica sonora possivelmente incluídos, levam o ouvinte a uma certa previsão do que vai ocorrer em seguida, uma tentativa, intrínsceca a qualquer processo cognitivo humano, de visualizar o futuro, com base no conhecimento do presente e do passado próximo. Mas o presente, entretanto, não fornece auxílio algum dentro do processo de compreensão das significações musicais. Uma simples nota, tomada em si própria, é apenas um elemento solto, sem nexo, sem vida nem relações, um ente completamnete desprovido de significação realmente musical. Cada nota apenas tem sentido porque pode ser matematizada e integrada ao passado retido, somando-se ao futuro previsto. Reter um único desses momentos significaria ouvir a manutenção inútil, não-musical, de uma frequência, como em uma campainha. Eles nascem, como que para dar sentido ao que acabou de ocorrer e simultaneamente preparar o que ainda está por vir. A unidade não tem sentido, o conjunto sim. Não existe presente no significado musical, apenas uma sobreposição entre memorização e antecipação, uma conciliaçào entre o passado e o futuro. Pode-se entender, assim a origem do prazer na música a partir da criação humana de significados sonoros, extraídos de uma sequência de instantes auditivos. Não poderia Sartre ter se utilizado de metáfora mais brilhante para expor em sua história a noção de consciência. O que é esta, senão uma sucessão contínua de pequenos "instantes conscientes", mas apenas, como diferença em relação á música, sendo estes compostos por significações vindas de outros quatro sentidos além do auditivo? O caráter de passado e retenção, expresso pela memória, é peça chave da consciência. Um ser desprovido de memória, como a mosca, pode ter percepção, porém não possui consciência, pois não retém e a partir disto não prevê nada. Este ser não aprende e não tem inteligência. Mostre-me um indício da memória de um ser qualquer, vivo ou não, e eu reivindicarei a ele consciência. A respeito deste tema o filósofo francês Henry Bergson fez algumas investigaçòes, em 1911 (Sartre tinha seis anos de idade), que já tornavam o conceito de consciência bastante nítido. Em sua conferência "Consciência e Vida", Bergson sentencia: "Uma consciência que não conservasse nada de seu passado, que se esquecesse de sem cessar de si própria, pereceria e renasceria a cada instante; como definir de outra forma a inconsciência? (...) Mas toda consciência é antecipaçào do futuro.Consideremos a direção de nosso espírito a qualquer momento: veremos que ele se ocupa do que ele é, mas sobretudo em vista do que vai ser. (...) Reter o que já não é, antecipar o que ainda não é, eis a função primeira da consciência. Não haveria para ela presente se este se reduzisse ao instante matemático. Esse instante é apenas o limite, puramente teórico, que separa o passado do futuro (...) O que percebemos de fato é uma certa espessura de duração que se compõe de duas partes: nosso passado imediato e nosso futuro iminente. (...) Digamos, pois, que consciência é o traço de união entre o que foi e que será, uma ponte entre passado e futuro." Fica compreendido, então qual foi o verdadeiro propósito de Sartre quando colocou a música como um elemento de significação relativa ao fluxo consciente de seu personagem, elemento este que teve um papel importante na primeira cena, no início do romance, em que a Náusea aparece a ele, e a nós leitores, da maneira mais intensa. Através da música foi possível isolar a consciência e redefini-la a uma forma mais simples, a uma forma que no contexto em que foi apresentada deixou de ser apenas mais um ente das experiências e passou a se tornar razão das experiências, num momento crítico em que ela redimiu o personagem da Náusea. Todos os fundamentos da noção de consciência estão presentes na música e na problematização que Rotenquin sucita quando a ouve. Alem disso há outros elementos metafóricos na cena, como um grupo de senhores que joga cartas. Mas todos eles comprometidos com o significado musical.
"Sua camisa de algodão azul sobressai alegremente contra a parede cor de chocolate. Também isso me dá a Náusea. Ou, antes, é a Náusea." Até o momento em que faz uma visita a um de seus costumeiros cafés, Roquentin expõe de maneira obssessiva a sua angústia e as razões de possuí-la.. Basicamente ele vive uma vida sem sentido, sem metas, sem prazeres reais, sem nenhum tipo de envolvimento. O que há é uma infindável sequência de percepções, algumas delas boas, outras ruins, algumas animadoras, outras enfastiadas, mas não há jamais a possibilidade de uma vivência tranquila e despreocupada. Em todos os momentos ele traz à tona observações meticulosas e por vezes inúteis, mas incontroladas, dos entes que o rodeiam. O que ele experimenta, até então, é uma sequência de momentos conscientes desprovidos de sentido. Em termos sonoros sua vida é a sequência desconexa, desintegrada, aleatória de frequências. Sua consciência é ruído. Ele é ruído. Isto é a principal, senão a única causa da Náusea. A consciência que existe, e percebe sua própria existência, como sequência de momentos sem sentido. Tudo é falso, fugaz, apenas momentâneo, nada se encaixa. Isto fica claro, por exemplo, na experiência do espelho. Ele vê a si próprio, porém aquilo é mais uma imagem topográfica do que sua auto-imagem. No café, um grupo de cidadãos manipula cartas, repetida e obstinadamente. Eles também são ruído, porém não têm consciência disto, e portanto não têm náusea. Sartre demonstra seu caráter de seres inconscientes, por viverem apenas o instante, sem implicações futuras ou passadas nas suas ações, remetendo às noções expostas anteriormente: "As mãos formam manchas brancas sobre o pano, parecem poeirentas e inchadas. Continuam a cair ourtas cartas, as mãos vão e vêm. Que ocupação estranha: não parece um jogo, nem um rito, nem um hábito. Acho que fazem isso simplesmente para encher o tempo." A sensação nauseante o invade, impede seus movimentos, e o coloca quase inerte. O que ele vê, cada vez mais e mais são expressões da continuidade desconexa, como a camisa, o copo, os jogadores. "Inclina-se para trás, inclina-se, o rosto inteiramente virado para o teto; depois, no momento de cair, segura-se destramente na beira do balcão e recupera o equilíbrio. Após o que, tudo se repete. Estou farto, chamo a garçonete." Ele pede que ela ponha sua música preferida no gramofone. A partir de então inicia-se a experiência pela qual ele realiza seu encontro fundamental com a música, e descreve o fato de maneira a tornar claras as relações implicadas com a sua condição existente. Inicia, então, ele suas considarações a respeito da música. Imediatamente percebe-se uma identificaçào radical entre o personegem e a experiêncai musical. Ele aponta a sucebilidade de momentos de consciência: "Elas (notas) não param, uma ordem inflexível as origina e destrói, sem nunca permitir que existam por si ", bem como a impossibilidade de se reter o momento. "...se conseguisse deter uma, só me ficaria entre os dedos um som apagado e vulgar." De maneira simplificada e conscisa ele revisita todas as questões, transtornos e angústias da sua existência, mas desta vez ele compreende o que ocorre, ele pode ter uma visão global e integrada de todo o processo, apesar de não realizar essa relação conscientemente. Tudo o compõe a consciência, tudo o que nos faz ser o que somos, e como somos, tudo isto está lá, naquela "curta duraçào da música". A seguir, começa o seu processo de cura. Ele afirma sentir uma pequena felicidade "de Náusea", que como qualquer nota, mal acaba de nascer, já parece velha. É a felicidade por começar a encontrar, de alguma forma, um sentido na consciência. Aquele ragtime, um tipo de música instrumental que originou a jazz, oferece-lhe uma miríade de notas, instantes, mas mostra por si próprio que eles não são como os instantes da consciência de Rotenquin. Eles se encadeiam, levam de uma nota a outra, se integram, explicam, mostram, duvidam, concluem, sugerem, surpreendem, a ainda assim são parte de uma mesma lógica global. A sucessão de notas, no jazz, não só neste romance, é pura aventura. Isto traz a ele um início de felicidade. Mas há um momento em que a felicidade pode atingir a plenitude, um instante dentro da música em que tudo isso, essa sucessão aventuresca se exacerba e chega a um ponto de aglutinação, em que o caráter de sentido inerente á música, e por extensão à consciência, fica provado: é o refrão. "Se amo essa bela voz é sobretudo por isso: não é por seu volume, nem por sua tristeza; é porque ela é o acontecimento que tantas notas prepararam, de tão longe, morrendo para que ela possa nascer." No entanto, a voz da cantora negra, contida naquela "faixa de aço" continua sendo muito frágil, e forte simultaneamente. "Nada pode interrompê-la e tudo pode aniquilá-la. (...) Some of this days... You'll miss me honey!" Até que finalmente a música se encerra, mas de maneira alguma termina para ele. Sua pequena experiência musical foi mais do que um processo de identificação ou projeção, como parecia ser até então: foi uma redenção. A Náusea se encerra tão abrubtamente quanto a música. Mas esta ainda está presente, esmagando as paredes do café. "Esse movimento de meu braço se desenvolveu como um tema majestoso, deslizou ao longo do canto da negra; pareceu-me que estava dançando". A essência musical está defintivamente implantada na alma de Rotenquin, agora ele percebe que de alguma maneira existe a sucessão integrada, onde um momento leva ao próximo. Se cada um deles já nasce para morrer, é porque tudo é parte da mesma aventura, todo o passado não morreu realmente, ele pode ainda estar presente, no sentido que o momento atual extrai dos anteriores, e dos quais depende. O sentido cura a Náusea. Um jogo de cartas não é nada além de sucessão ruidosa, mas a música é sucessão com sentido, uma experiência que expande a consciência e a fundamenta. Isso lhe dá esperança. Agora ele é música. Mas quem é música está a salvo de qualquer ruído, pelo menos momentaneamente. Seria o jogo também musical? Vejamos: "Belo rei, vindo de tão longe, preparado por tantas combinações por tantos gestos extintos. Ei-lo que desaparece por sua vez, para que nascam outras combinações e outros gestos, ataques, réplicas, reviravoltas da sorte, uma quantidade de pequenas aventuras." Após responder à nossa pergunta, nosso personagem reafirma sua nova vocação musical-existente "...e nunca podia voltar atrás, da mesma maneira que um disco não pode girar ao contrário. E tudo isso me levava aonde? A esse minuto, a esse banco, a essa bolha de claridade zoante de música. ... And when you leave me" Futuramente, ocorre uma cena em que toda a sequência da experiênca musical é revivida, e que comprova a transformação sofrida pelo personagem alguns dias antes. É Domingo, e Rotenqiun caminha pela rua principal da cidade, testemunhando uma longa sequência de momentos, compostos basicamente por interações e comunicações ente as pessoas que ele observa. A sucessão ocorre de maneira aproximadamente costumeira, até que de repente transparece a mudança, e a maneira como isso é contado expõe novamente o caráter absolutamente antagonista entre música e Náusea. "Nada mudou e no entanto existe de uma maneira. Não consigo descrever; é como a Náusea e no entanto é exatamente o contrário: finalmente me acontece uma aventura, e quando me interrogo, vejo que me acontece que sou eu e que estou aqui." Ele adquire identidade como ser existente, ao contrário da experiência do espelho. A seguir ele entra no estágio de início de felicidade, como no café: "Algo vai suceder..."; ele procura um lugar, suas emoções se intensificam, e agora o encadeamento dos últimos acontecimentos certamente não ficará sem o seu devido coroamento. Obviamente, é a ansiedade da antecipação, a expectativa do futuro, o que vai acontecer, e que de alguma maneira foi preparado e determinado pelo passado, que está prestes a se condensar num único momento que dará sentido a todo o resto. Rotenquin aguarda o refrão. Isso lhe dá confiança e satisfação, como a negra. "Estou inteiramente sozinho mas caminho como uma tropa que irrompe numa cidade." Nenhuma tropa irrompe em lugar algum sem possuir a maravilhosa e plena sensação de objetivo próximo a ser cumprido, com toda a arrogância que a situação lhe permite ter. Após mais algumas andanças, ele finalmente chega a um café, onde pela vidraça observa uma senhora ruiva. "Tudo parou; minha vida parou: esse grande vidro, esse ar pesado, azul como a água, essa planta carnuda e branca no fundo da água e eu próprio formamos um todo imóvel e pleno: estou feliz." Sem dúvida, havia chegado o momento, preparado por tantas notas que aquele dia lhe havia oferecido, em que elas ganhavam um sentido e sua consciência musical era ampliada, e justificada. Ele havia chegado ao refrão.
And I think to myself, what a wonderful world! Louis Armstrong
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