Lembrar-me
O Nascimento do Sentido no Espírito da Música PDF Imprimir E-mail
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Escrito por psicopr   
Ter, 26 de Abril de 2005 12:49
Marcos Lyra ( Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ) analisa a noção de consciência no romance "A Náusea", de Sartre.

Ao avaliar uma obra literária, quase que invariavelmente nos depararemos com a necessidade de encontrar um visão que seja capaz de relatar as significações subjacentes, propostas pelo autor, consciente ou inconscientemente, tendo por base as possibilidades expressivas proporcionadas pela significação aparente, além das relações lógicas envolvidas no decorrer do texto analisado. Em "A Náusea", o filósofo
Jean-Paul Sartre (1905-1980) investiga e demonstra as partes mais fundamentias da sua doutrina existencialista, brilhantemente conduzindo o leitor através dos fluxos da consciência de seu personagem principal, com a intenção de criar um padrão de compreensão que envolva não só o conhecimento dos fatos, mas também a vivência dos mesmos. A maneira como se descortina a consciência de Antoine Rotenquin, em si própria é o instrumento fundamental de que se utiliza Sartre para tornar visíveis as
experimentações daquilo que compõe o arcabouço da existência na concepção sartreana. Tomado em seu sentido mais rigoroso, tal sistema está contido em uma série de livros exploratórios e especificamente construídos com fins didáticos. Impossível seria, assim, esperar uma fundamentação teórica de entes como, por exemplo, a angústia, que é um dos componentes centrais do pano de fundo consciente da obra. Se existe uma proposta , no romance , a respeito desta última, esta é efetuada às custas da narração em primeira pessoa de um indíviduo que tenta
transcrever parte se suas intensas experiências em seu diário. É através de uma via bastante semelhante que o autor traz á luz, e apresenta, o conceito de Naúsea, dentro do fluxo do acontecimentos. Esta forma de experimentação consciente desenvolve-se ao longo da história, tornando-se o ponto de aglutinação da existência de Rotenquin, um momento onde todos os caminhos da sua angústia e melancolia, da sua auto-consciêcia, suas experiências e frustrações, e finalmente a
ausência que parece ser central em sua vida, se entrecruzam e recebem um significado, um nome, se aglutinam ao seu prórpio ser e tornam-se um novo ente das experiências que o acometem e transtornam.
Foi dito acima que a argumentação racional está ausente no texto devido à sua própria natureza intrínseca de romance e história, e não especificamente de livro expositivo. Mas é justamenete esta natureza a via da qual se apodera Sartre para explorar temas de significação profunda. Tornou-e obrigatória, então, para o mesmo, a utilização do recurso da metáfora, na visita a alguns dos conceitos fundamentais
relativos às investigações existenciais enquanto experiências vividas pelo personagem central. Temos então, o primeiro, e talvez mais fundamental deles, que não é único do existencialismo, mas proporciona a própria razão de ser do mesmo: o conceito de consciência. De que maneira pretende Sarte explorar, e quase conceitualizar o conceito de consciência no romance? Através da música. A música, forma suprema e universal de expressão cuiltural, é passagem obrigatória dentro do caminho de compreensão de qualquer povo ou sua cultura. É o mesmo o que contece no romance de Sartre. Somos, então, neste ponto instados a questionar o significado desta palavra: "música", além de comprernder de que maneira ela foi utilizada pelo atuor no texto. Fundamentalmente, ela sempre foi a ocorrência de padrões sonoros,
criados pelo próprio ser humano, que em si pretendem criar alguma forma
de prazer na pessoas que as ouvem, a partir da exploração das relações
matemáticas entre notas e períodos de tempo, que são imediatamente
apreendidas e inconscientemente processadas pelo ser humano que as
houve. Desconsideremos inicialmente as formas musicais cantadas. Na
música intrumental o que ocore é uma apresentação contínua de notas, ou
seja, uma sequência de frequências diversas, normalmente sobrepostas
entre diversos timbres, com apresentação simultânea e integrada. Além de
frequêncais e timbres, é fundamental na música a ocorrência de um ritmo,
seja ele constante ou variável. A percepção de séries de notas
submetidas a um padrão determinado de tempo, que seja o ritmo,
imediatamente retém a atenção, destaca-se como algo além de simples
sonoridade aleatória, como o ruído, e conduz o humano, automaticamente,
a um padrào de consciência auditiva, por ela determinado e manipulado.
Em cada momento, o que se percebe é uma única nota, ou uma sobreposição
de notas em harmonia, ou seja, matematicamente coerentes entre si. Não
obstante, há um prazer intrínseco, proporcionado pela relação entre este
instante sonoro e os anteriores, sendo sempre os cálculos matemáticos
feitos com base não somente no que está presente, mas também com aquilo
que já é passado, mas ainda está vivo na memória. Além deste aspecto de
passado há uma sempre uma noção de predição em relação ao que está
acontecendo na sucessão de instantes da consciência que ouve. A
repetição de sucessões harmônicas, aliada á definição do ritmo e sua
divisão em compassos, além de tantos outros elementos da lógica sonora
possivelmente incluídos, levam o ouvinte a uma certa previsão do que vai
ocorrer em seguida, uma tentativa, intrínsceca a qualquer processo
cognitivo humano, de visualizar o futuro, com base no conhecimento do
presente e do passado próximo. Mas o presente, entretanto, não fornece
auxílio algum dentro do processo de compreensão das significações
musicais. Uma simples nota, tomada em si própria, é apenas um elemento
solto, sem nexo, sem vida nem relações, um ente completamnete desprovido
de significação realmente musical. Cada nota apenas tem sentido porque
pode ser matematizada e integrada ao passado retido, somando-se ao
futuro previsto. Reter um único desses momentos significaria ouvir a
manutenção inútil, não-musical, de uma frequência, como em uma
campainha. Eles nascem, como que para dar sentido ao que acabou de
ocorrer e simultaneamente preparar o que ainda está por vir. A unidade
não tem sentido, o conjunto sim. Não existe presente no significado
musical, apenas uma sobreposição entre memorização e antecipação, uma
conciliaçào entre o passado e o futuro. Pode-se entender, assim a origem
do prazer na música a partir da criação humana de significados sonoros,
extraídos de uma sequência de instantes auditivos.
Não poderia Sartre ter se utilizado de metáfora mais brilhante para
expor em sua história a noção de consciência. O que é esta, senão uma
sucessão contínua de pequenos "instantes conscientes", mas apenas, como
diferença em relação á música, sendo estes compostos por significações
vindas de outros quatro sentidos além do auditivo? O caráter de passado
e retenção, expresso pela memória, é peça chave da consciência. Um ser
desprovido de memória, como a mosca, pode ter percepção, porém não
possui consciência, pois não retém e a partir disto não prevê nada. Este
ser não aprende e não tem inteligência. Mostre-me um indício da memória
de um ser qualquer, vivo ou não, e eu reivindicarei a ele consciência.
A respeito deste tema o filósofo francês Henry Bergson fez algumas
investigaçòes, em 1911 (Sartre tinha seis anos de idade), que já
tornavam o conceito de consciência bastante nítido.
Em sua conferência "Consciência e Vida", Bergson sentencia: "Uma
consciência que não conservasse nada de seu passado, que se esquecesse
de sem cessar de si própria, pereceria e renasceria a cada instante;
como definir de outra forma a inconsciência? (...) Mas toda consciência
é antecipaçào do futuro.Consideremos a direção de nosso espírito a
qualquer momento: veremos que ele se ocupa do que ele é, mas sobretudo
em vista do que vai ser. (...) Reter o que já não é, antecipar o que
ainda não é, eis a função primeira da consciência. Não haveria para ela
presente se este se reduzisse ao instante matemático. Esse instante é
apenas o limite, puramente teórico, que separa o passado do futuro (...)
O que percebemos de fato é uma certa espessura de duração que se compõe
de duas partes: nosso passado imediato e nosso futuro iminente. (...)
Digamos, pois, que consciência é o traço de união entre o que foi e que
será, uma ponte entre passado e futuro."
Fica compreendido, então qual foi o verdadeiro propósito de Sartre
quando colocou a música como um elemento de significação relativa ao
fluxo consciente de seu personagem, elemento este que teve um papel
importante na primeira cena, no início do romance, em que a Náusea
aparece a ele, e a nós leitores, da maneira mais intensa. Através da
música foi possível isolar a consciência e redefini-la a uma forma mais
simples, a uma forma que no contexto em que foi apresentada deixou de
ser apenas mais um ente das experiências e passou a se tornar razão das
experiências, num momento crítico em que ela redimiu o personagem da
Náusea. Todos os fundamentos da noção de consciência estão presentes na
música e na problematização que Rotenquin sucita quando a ouve. Alem
disso há outros elementos metafóricos na cena, como um grupo de senhores
que joga cartas. Mas todos eles comprometidos com o significado musical.

"Sua camisa de algodão azul sobressai alegremente contra a parede cor de
chocolate. Também isso me dá a Náusea. Ou, antes, é a Náusea." Até o
momento em que faz uma visita a um de seus costumeiros cafés, Roquentin
expõe de maneira obssessiva a sua angústia e as razões de possuí-la..
Basicamente ele vive uma vida sem sentido, sem metas, sem prazeres
reais, sem nenhum tipo de envolvimento. O que há é uma infindável
sequência de percepções, algumas delas boas, outras ruins, algumas
animadoras, outras enfastiadas, mas não há jamais a possibilidade de uma
vivência tranquila e despreocupada. Em todos os momentos ele traz à tona
observações meticulosas e por vezes inúteis, mas incontroladas, dos
entes que o rodeiam. O que ele experimenta, até então, é uma sequência
de momentos conscientes desprovidos de sentido. Em termos sonoros sua
vida é a sequência desconexa, desintegrada, aleatória de frequências.
Sua consciência é ruído. Ele é ruído. Isto é a principal, senão a única
causa da Náusea. A consciência que existe, e percebe sua própria
existência, como sequência de momentos sem sentido. Tudo é falso, fugaz,
apenas momentâneo, nada se encaixa. Isto fica claro, por exemplo, na
experiência do espelho. Ele vê a si próprio, porém aquilo é mais uma
imagem topográfica do que sua auto-imagem. No café, um grupo de cidadãos
manipula cartas, repetida e obstinadamente. Eles também são ruído, porém
não têm consciência disto, e portanto não têm náusea. Sartre demonstra
seu caráter de seres inconscientes, por viverem apenas o instante, sem
implicações futuras ou passadas nas suas ações, remetendo às noções
expostas anteriormente: "As mãos formam manchas brancas sobre o pano,
parecem poeirentas e inchadas. Continuam a cair ourtas cartas, as mãos
vão e vêm. Que ocupação estranha: não parece um jogo, nem um rito, nem
um hábito. Acho que fazem isso simplesmente para encher o tempo." A
sensação nauseante o invade, impede seus movimentos, e o coloca quase
inerte. O que ele vê, cada vez mais e mais são expressões da
continuidade desconexa, como a camisa, o copo, os jogadores. "Inclina-se
para trás, inclina-se, o rosto inteiramente virado para o teto; depois,
no momento de cair, segura-se destramente na beira do balcão e recupera
o equilíbrio. Após o que, tudo se repete. Estou farto, chamo a
garçonete." Ele pede que ela ponha sua música preferida no gramofone. A
partir de então inicia-se a experiência pela qual ele realiza seu
encontro fundamental com a música, e descreve o fato de maneira a tornar
claras as relações implicadas com a sua condição existente. Inicia,
então, ele suas considarações a respeito da música. Imediatamente
percebe-se uma identificaçào radical entre o personegem e a experiêncai
musical. Ele aponta a sucebilidade de momentos de consciência: "Elas
(notas) não param, uma ordem inflexível as origina e destrói, sem nunca
permitir que existam por si ", bem como a impossibilidade de se reter o
momento. "...se conseguisse deter uma, só me ficaria entre os dedos um
som apagado e vulgar." De maneira simplificada e conscisa ele revisita
todas as questões, transtornos e angústias da sua existência, mas desta
vez ele compreende o que ocorre, ele pode ter uma visão global e
integrada de todo o processo, apesar de não realizar essa relação
conscientemente. Tudo o compõe a consciência, tudo o que nos faz ser o
que somos, e como somos, tudo isto está lá, naquela "curta duraçào da
música". A seguir, começa o seu processo de cura. Ele afirma sentir uma
pequena felicidade "de Náusea", que como qualquer nota, mal acaba de
nascer, já parece velha. É a felicidade por começar a encontrar, de
alguma forma, um sentido na consciência. Aquele ragtime, um tipo de
música instrumental que originou a jazz, oferece-lhe uma miríade de
notas, instantes, mas mostra por si próprio que eles não são como os
instantes da consciência de Rotenquin. Eles se encadeiam, levam de uma
nota a outra, se integram, explicam, mostram, duvidam, concluem,
sugerem, surpreendem, a ainda assim são parte de uma mesma lógica
global. A sucessão de notas, no jazz, não só neste romance, é pura
aventura. Isto traz a ele um início de felicidade. Mas há um momento em
que a felicidade pode atingir a plenitude, um instante dentro da música
em que tudo isso, essa sucessão aventuresca se exacerba e chega a um
ponto de aglutinação, em que o caráter de sentido inerente á música, e
por extensão à consciência, fica provado: é o refrão. "Se amo essa bela
voz é sobretudo por isso: não é por seu volume, nem por sua tristeza; é
porque ela é o acontecimento que tantas notas prepararam, de tão longe,
morrendo para que ela possa nascer." No entanto, a voz da cantora negra,
contida naquela "faixa de aço" continua sendo muito frágil, e forte
simultaneamente. "Nada pode interrompê-la e tudo pode aniquilá-la. (...)
Some of this days... You'll miss me honey!"
Até que finalmente a música se encerra, mas de maneira alguma termina
para ele. Sua pequena experiência musical foi mais do que um processo de
identificação ou projeção, como parecia ser até então: foi uma redenção.
A Náusea se encerra tão abrubtamente quanto a música. Mas esta ainda
está presente, esmagando as paredes do café. "Esse movimento de meu
braço se desenvolveu como um tema majestoso, deslizou ao longo do canto
da negra; pareceu-me que estava dançando". A essência musical está
defintivamente implantada na alma de Rotenquin, agora ele percebe que de
alguma maneira existe a sucessão integrada, onde um momento leva ao
próximo. Se cada um deles já nasce para morrer, é porque tudo é parte da
mesma aventura, todo o passado não morreu realmente, ele pode ainda
estar presente, no sentido que o momento atual extrai dos anteriores, e
dos quais depende. O sentido cura a Náusea. Um jogo de cartas não é nada
além de sucessão ruidosa, mas a música é sucessão com sentido, uma
experiência que expande a consciência e a fundamenta. Isso lhe dá
esperança. Agora ele é música. Mas quem é música está a salvo de
qualquer ruído, pelo menos momentaneamente. Seria o jogo também musical?
Vejamos: "Belo rei, vindo de tão longe, preparado por tantas combinações
por tantos gestos extintos. Ei-lo que desaparece por sua vez, para que
nascam outras combinações e outros gestos, ataques, réplicas,
reviravoltas da sorte, uma quantidade de pequenas aventuras." Após
responder à nossa pergunta, nosso personagem reafirma sua nova vocação
musical-existente "...e nunca podia voltar atrás, da mesma maneira que
um disco não pode girar ao contrário. E tudo isso me levava aonde? A
esse minuto, a esse banco, a essa bolha de claridade zoante de música.
... And when you leave me"
Futuramente, ocorre uma cena em que toda a sequência da experiênca
musical é revivida, e que comprova a transformação sofrida pelo
personagem alguns dias antes. É Domingo, e Rotenqiun caminha pela rua
principal da cidade, testemunhando uma longa sequência de momentos,
compostos basicamente por interações e comunicações ente as pessoas que
ele observa. A sucessão ocorre de maneira aproximadamente costumeira,
até que de repente transparece a mudança, e a maneira como isso é
contado expõe novamente o caráter absolutamente antagonista entre música
e Náusea. "Nada mudou e no entanto existe de uma maneira. Não consigo
descrever; é como a Náusea e no entanto é exatamente o contrário:
finalmente me acontece uma aventura, e quando me interrogo, vejo que me
acontece que sou eu e que estou aqui." Ele adquire identidade como ser
existente, ao contrário da experiência do espelho. A seguir ele entra no
estágio de início de felicidade, como no café: "Algo vai suceder...";
ele procura um lugar, suas emoções se intensificam, e agora o
encadeamento dos últimos acontecimentos certamente não ficará sem o seu
devido coroamento. Obviamente, é a ansiedade da antecipação, a
expectativa do futuro, o que vai acontecer, e que de alguma maneira foi
preparado e determinado pelo passado, que está prestes a se condensar
num único momento que dará sentido a todo o resto. Rotenquin aguarda o
refrão. Isso lhe dá confiança e satisfação, como a negra. "Estou
inteiramente sozinho mas caminho como uma tropa que irrompe numa
cidade." Nenhuma tropa irrompe em lugar algum sem possuir a maravilhosa
e plena sensação de objetivo próximo a ser cumprido, com toda a
arrogância que a situação lhe permite ter. Após mais algumas andanças,
ele finalmente chega a um café, onde pela vidraça observa uma senhora
ruiva. "Tudo parou; minha vida parou: esse grande vidro, esse ar pesado,
azul como a água, essa planta carnuda e branca no fundo da água e eu
próprio formamos um todo imóvel e pleno: estou feliz." Sem dúvida, havia
chegado o momento, preparado por tantas notas que aquele dia lhe havia
oferecido, em que elas ganhavam um sentido e sua consciência musical era
ampliada, e justificada. Ele havia chegado ao refrão.

And I think to myself,
what a wonderful world!
Louis Armstrong

Comentários (1)add comment

Heloisa Igreja escreveu:

0
...
Você alcançou um instante mágico em que o ser humano consegue unir emoção, comprensão, saber, alma e vida ao mesmo tempo e transformar o pensamento em palavras que chegam í sensibilidade do leitor como uma obra de arte. Seu artigo é emocionante, jorra como água cristalina, levando-nos a viver um momento de grande poesia.
Lindo, Marcos!!!!!!!
 
abril 27, 2007
Votação: +0

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Última atualização em Sáb, 29 de Agosto de 2009 12:03
 
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