| O Homem Objetivo |
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| Arquivado em: Filosofia | |||
| Escrito por psicopr | |||
| Ter, 26 de Abril de 2005 18:02 | |||
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No aforismo 207 do livro 'Para Além do Bem e do Mal', Nietzsche deixa um irônico recado aos pretensos objetivistas.
"Por muita gratidão que se testemunhe ao espírito objectivo - e
quem não teria estado já, uma vez, farto de morte de todo o
subjetivismo e da sua maldita ipsissimosidade! - deve-se, contudo,
aprender a ter cautela com essa gratidão e acabar com o exagero com
que, modernamente, se celebra a despersonalização do espírito como um
fim em si, como salvação e transfiguração: o que, sobretudo, constuma
acontecer no seio da escola pessimista que, aliás, tem boas razões para
render, por seu lado, honrarias supremas ao 'conhecimento
desinteressado'. O homem objetivo que, tal como o pessimista, já não
pragueja, nem ralha, o erudito ideal, no qual, após mil
malogros e semimalogros, o instinto científico chega um dia a florir e
a deixar de florir, é certamente um dos instrumentos mais preciosos que
há: mas é preciso que esteja na mão de alguém mais poderoso. É apenas
um instrumento; digmaos: um espelho - não é um 'fim em si'. O
homem objetivo é, de fato, um espelho: sobretudo espelho do que quer
ser reconhecido, habituado a submeter-se, sem outro prazer que o dado
pelo conhecimento, pelo 'reflexo' - ele espera que algo aconteça, e
então estende-se docemente, para que não se percam, na sua superfície e
pele, nem mesmo as pegadas leves e o roçar de seres fantasmagóricos. O
que dele ainda resta de 'pessoa', parece-lhe casual, muitas vezes
arbitrário, mais vezes ainda incomodativo: de tal modo se tornou
veículo e reflexo de formas e acontecimentos estranhos. Procura, com
esforço, recordar-se de 'si', e bastantes vezes falsamente; confunde-se
facilmente com um outro, engana-se quanto às próprias necessidades, e
só neste caso é indelicado e negligente. Talvez o atormente a saúde, ou
a mesquinhez e o ar fechado da mulher e do amigo ou a falta de
companheiros e de companhia - sim, obriga-se a pensar sobre o seu
tormento: em vão! Já os seus pensamentos se afastam para o caso mais geral,
e amanhã saberá tão pouco como sabia ontem qual o remédio de que
necessita. Perdeu a possibilidade, e também o tempo, de se tomar a
sério: é sereno, não por falta de preocupação, mas por não poder tocar
e manejar a sua preocupação. A receptibilidade habitual para
todas as coisas e acontecimentos, a hospitalidade amável e franca com
que acolhe tudo o que lhe vem ao encontro, a sua benevolente
indiferença, o perigoso desprendimento pelo sim e pelo não: ah, muitas
vezes tem que pagar caro essas suas virtudes! - e, como homem que é,
mui facilmente se torna o 'caput mortuum' destas virtudes. Se se lhe
requerer amor e ódio, refiro-me a amor e ódio como as entendem Deus, a
mulher e o animal: ele fará o que puder e dará o que puder. Mas não nos
devemos espantar, se não for muito - se ele se mostrar, precisamente
aqui, falso, frágil, problemático e caduco. O seu amor é produto da
vontade, o seu ódio é artificial, 'un tour de force', uma pequena
vaidade e um ligeiro exagero. é que ele só é autêntico enquanto pode
ser objetivo: só é 'natureza' e 'natural' no seu totalismo sereno. A
sua alma refletora e que incessantemente é polida, já não sabe afirmar,
nem negar; ele não comanda, nem destrói. (...) Também não é homem
modelo; não precede, nem segue ninguém; afasta-se demasiado de tudo,
para ter razões para tomar partido entre o bem e o mal. Se o
confundiram durante tanto tempo com o filósofo, com o homem
violento e criador cesariano da cultura: deram-lhe honras demasiado
altas e não viram, nele, o essencial - é um instrumento, algo de
escravo, embora certamente o tipo sublime de escravo, mas, em si,
nada(...). O homem objetivo é um instrumento, um instrumento de medição
precioso, frágil, um espelho primoroso, que se deve tratar bem e
honrar; mas não é um objetivo, não é fim nem princípio, não é homem
complementar no qual se justifique a existência restante, nem
é conclusão - e muito menos é início, geração e causa prima, não tem
nada de rude, de poderoso, de apoiado em sia, que queira ser senhor:
pelo contrário, é apenas um molde tênue, soprado, fino, imóvel, que
deve esperar por um conteúdo que lhe 'dê forma' - normalmente, um homem
sem conteúdo, um homem 'sem eu'. E, por conseguinte, também não tem
valor para as mulheres, in parenthesi...
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