| A Quarta Virada |
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| Arquivado em: Filosofia | |||
| Escrito por psicopr | |||
| Ter, 26 de Abril de 2005 18:10 | |||
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Luís Fernando Veríssimo - Caros Amigos - número 7/out de 1997 Copérnico, Darwin e Freud foram os responsáveis pelas três principais viradas no pensamento humano, depois das cavernas. As três reviravoltas tiveram uma coisa em comum: destruíram uma idéia que tínhamos da nossa própria importância. Primeiro descobrimos que a Terra não é o centro do cosmo, o que já abalou um pouco a nossa auto-estima. Ainda éramos os reis do mundo, o mundo é que não era lá grande coisa. Depois veio Darwin e nos disse que mesmo neste pequeno mundo entre mundos não éramos tão excepconais assim. Tínhamos evoluído como qualquer outra espécie animal, sujeita a variações genéticas ao acaso, e não foi fácil aceitar macacos na nossa árvore genealógica. Eu, por exemplo, ainda digo que meus antepassados não descenderam de chimpanzés, foram adotados. Mas, mesmo tendo que rever todas as nossas noções sobre o pedigree da espécie, ainda podíamos dizer que no fundo éramos boas pessoas, no controle dos nosso sinstintos. Os únicos animais da Terra com uma boa opinião a seu próprio respeito, mesmo porque eram os únicos que tinham opinião. Aí veio o Freud. Quer dizer, tem sido um baque depois do outro. Antigamente, humanista era o que rejeitava qualquer desculpa metafísica ou obscurantista para diminuir o homem no seu autoconceito. Hoje temos que nos cuidar para não ver razão na onda de anti-razão que varre o mundo, pois no fim das contas o que ela quer é restituir um pouco da nossa antiga importância. A ciência e o pensamento racional nos reduziram a nada. O anti-racional - que inclui desde a seção de horóscopo do nosso jornal diário até o mago das massas mais recente - nos devolve ao mundo pré-Copérnico, em que as estrelas decidiam nosso destino, olha só o prestígio. Hoje o obscurantismo faz mais pelo nosso autoconceito do que a lucidez. Como disse aquele missionário de cartum ao canibal que se preparáva para comê-lo:"Abomino os seus métodos mas admiro o seu gosto". Mas houve uma outra virada no pensamento humano. A de Marx, que nos permitiu pensar num homem predestinado, não pelas estrelas ou pelos seus instintos mas pela história. Mesmo sem a orientação divina estaríamos destinados a ser justos, pois a história, no fim, é moral. Em vez da escatologia cristã, Marx propôs uma redenção final cientificamente inescapável e, se ninguém mais acredita no materialismo histórico na prática, a compulsão solidária persiste, como uma fé religiosa que o desmentido dos fatos só reforça. Talvez porque seja a fé secular que reste para muita gente. Ficamos órfãos de todas as melhores ilusões a nosso respeito (inclusive as marxistas) e nem assim nos resignamos à idéia de que aquilo que vemos no espelho é apenas um bípede egoísta em breve e descompromissada passagem por um dos planetas menores. Quando esta fé acabar, aí sim estaremos prontos para os magos e as seitas. Tenho ouvido falar numa que adora a Alcachofra Mística e ainda ensina como aplicar na bolsa. Vou investigar. (CAROS AMIGOS, nº 7, out./1997)
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