Lembrar-me
O Anjo Exterminador - a compaixão dos fortes PDF Imprimir E-mail
Arquivado em:  Filosofia
Escrito por Amauri   
Dom, 13 de Novembro de 2005 16:55

Um povo doente não conhece o sentimento elevado que as palavras como amizade e amor podem expressar. Pela ótica vulgar, quem verdadeiramente ama (ou quem é verdadeiramente amigo) é o sujeito que abastece o outro somente com afetos alegres. Seja nos momentos de alegria ou de tristeza, a presença do outro é uma exigência, como se sua prontidão em amar, em ser atencioso, fosse a prova do seu amor e amizade. O cristianismo bebeu muito dessa fonte, ao transformar o amor ao próximo num bem supremo. Quem não é a causa da sua própria alegria, quem não ama a si mesmo, exige que alguém o ame.

 

 

O Anjo Exterminador

 

A compaixão dos fortes

 

 

Por Amauri Ferreira (Novembro de 2005) 

 

 

 

Um povo doente não conhece o sentimento elevado que as palavras como amizade e amor podem expressar. Pela ótica vulgar, quem verdadeiramente ama (ou quem é verdadeiramente amigo) é o sujeito que abastece o outro somente com afetos alegres. Seja nos momentos de alegria ou de tristeza, a presença do outro é uma exigência, como se sua prontidão em amar, em ser atencioso, fosse a prova do seu amor e amizade. O cristianismo bebeu muito dessa fonte, ao transformar o amor ao próximo num bem supremo. Quem não é a causa da sua própria alegria, quem não ama a si mesmo, exige que alguém lhe ame. De fato, é importante distinguir a diferença entre uma aliança de fortes e uma aliança de fracos: no primeiro caso, a relação não deixa escapar o surgimento da dor, pois o que também os mantém unidos é a grandeza de suportar a dor, de fazer um uso interessante dela, não reagindo de modo baixo, com acusações e exigências, mas entendendo que a dor é apenas um “mau jeito” que emerge no encontro dos corpos; já no segundo caso, quando a dor aparece, surge uma inimizade, que pode até transformar-se em ódio: o outro vira um inimigo. Ou seja, pelo campo de visão do ressentido, o outro torna-se um grande companheiro se continuar provando a sua capacidade de gerar somente afetos alegres; mas se na relação surgir também afetos tristes, o seu “verdadeiro” amor (ou sua “verdadeira” amizade) é colocado em dúvida: “Não, você não me ama”. A prova desse não-amor é justamente o afeto de tristeza que surgiu, num determinado momento, na relação. Submetido à ficção do EU, o sujeito que ressente imagina que o outro o ama por ter-lhe proporcionado prazer, e imagina também que o outro não o ama por ter-lhe proporcionado desprazer. Então, imagina-se que o outro pode ter sempre boas ou más intenções... As suas exigências nunca acabam: logo após uma efêmera satisfação, segue uma insatisfação perturbadora. O amor ideal, o amigo ideal, ou uma espécie de “amor-amigo” ideal: o homem perfeito e a mulher perfeita são apenas ícones engendrados por uma carência afetiva que varre todo o campo social. O interessante é que quando se descobre que o parceiro ideal não existe, muitos não querem mais sofrer por um amor “imperfeito”: a saída, então, é não “amar” mais ninguém, tornar-se cético, ter “coração de pedra”, fechar-se numa redoma de vidro e separar o sexo do amor. Vive-se, então, um sexo mecânico, pueril, sem sabor, quantitativo. Uma vida sexual triste é o que resta aos que perderam a capacidade de expressar livremente os seus sentimentos. E o pior: por não viverem uma relação sexual ligada ao amor, querem acreditar que experimentam o “melhor sexo possível”, já que “todo mundo age assim”. O máximo de prazer, a qualquer preço. As relações são niveladas por baixo, as noções de amor e amizade tornam-se extremamente superficiais.         

Como os nossos corpos estão em relação, é inevitável que a nossa potência esteja em variação, aumentado e diminuindo de intensidade (como nos mostrou Espinosa: quando a potência cresce surge o sentimento de alegria; quando diminui surge o sentimento de tristeza). E porque podemos agradecer a dor gerada numa relação? Através dela, descobrimos forças que nem imaginávamos que existiam em nós: respiramos um novo ar, o nosso corpo adquire uma nova postura, valorizamos ainda mais a necessidade de nos mantermos vivos; a dor somente é expulsa quando aquilo que pôde ser aproveitado dela serviu para nos fortalecer: trata-se de mais uma experiência que passamos, proporcionada pelo acaso. Daí Nietzsche dizer que “o que não me mata torna-me mais forte” (“Crepúsculo dos Ídolos”: Sentenças e Setas, 8). Portanto, não há um sujeito a culpar, muito menos um sujeito responsável por gerar em nós uma alegria ou uma tristeza; o que existe é a inocência da própria vida de acontecer, uma vida que desconhece o significado do “bem” e do “mal”: ela simplesmente acontece. A grande questão é o que fazemos com o que acontece conosco, já que existem coisas que não dependem de nós, que o acaso disponibiliza na nossa vida. Mais uma vez, Nietzsche nos mostra até que ponto a reação pode ser um sintoma de baixeza ou de nobreza:        

“Aquele ‘fatalismo russo’ de que falei mostrou-se em mim no fato de que durante anos apeguei-me tenazmente a situações, paragens, moradas, companhias quase insuportáveis, uma vez que me haviam sido dispostas pelo acaso – era melhor do que mudá-las, do que senti-las como mutáveis - do que revoltar-se contra elas... Perturbar-me nesse fatalismo, despertar-me à força ofendia-me fatalmente então – em verdade sempre foi fatalmente perigoso. – Tomar a si mesmo como um fado, não se querer ‘diferente’ – em tais condições isso é a grande sensatez mesma” (“Ecce Homo”, Porque sou tão sábio, 6).          

Experimentar tudo o que acontece conosco, inclusive a dor, para amadurecermos: eis a grande sensatez. O lamuriento acredita que falta um monte de coisa na sua vida, reclama de tudo, gasta energia para brigar com o acaso, encontra sempre algum motivo para acusar o destino que foi “injusto” com ele.  Mas a energia pode ter um outro uso: aquilo que está em nosso poder, que depende de nós, que resta somente a nós abrirmos as saídas, é, sobretudo, uma questão de força, de querer...        

Uma relação que não dispensa algumas doses de dor, permite que surja uma nova relação de amor e de amizade entre tipos mais fortes, saudáveis, polidos pela experiência, que caminham juntos para o amor de si mesmo. Portanto, por mais paradoxal que possa parecer, é possível amar a si mesmo através da qualidade da relação que podemos construir com um tipo feliz, alegre e, sobretudo, cruel: ele passa a ser desejado como uma necessidade que um caçador tem para encontrar uma pedra preciosa que está escondida nele mesmo. Cuidar de si é também afirmar a diferença do outro.          

Não existe relação sem crises: a nossa vida seria indigna de viver sem crises. Experimentar altos e baixos faz parte do processo do nosso amadurecimento, da valorização de absolutamente tudo que acontece conosco. Não há uma pontinha de injustiça na nossa vida. Quando tudo parece estar perdido, sempre há uma saída. Mesmo ferido, o guerreiro encontra forças para prosseguir a luta. Determinação sempre, desistir jamais: eis o lema que move a produção do grande espírito. Não importa o país, a cidade ou a simplicidade da casa que nós vivemos: nada a lamentar, nada a resmungar. Somente uma vida sustentada pela amizade e pelo amor é capaz de transformar até a mais singela casa, numa casa banhada a ouro.         

Não há como aprender a amar a si mesmo, descobrir as suas próprias forças, afirmar a sua singularidade até nos momentos de crise e, ainda mais, sentir o contentamento íntimo (conforme nos disse Espinosa), se alguém deseja estabelecer uma relação na qual o outro dá tudo, que traz somente coisas “boas”, que é inofensivo, que não faz tremer o chão, que não traz surpresas “desagradáveis”, em suma, que o outro viva para satisfazer os desejos de alguém: uma relação assim, com o passar do tempo, se esvazia, tornando-se tão impotente como uma união dos tipos fracos – a união dos que querem apenas conservar algo que não merece ser conservado. O ser amado, aquele que sempre fez tudo, já não tem mais charme algum...         

A felicidade não surge da compaixão dos fracos, mas da compaixão dos fortes. Como diz Nietzsche: “O que é felicidade? – A sensação de que a potência aumenta – de que uma resistência foi superada” (“O Anticristo”, II). A potência que cresce, através de uma crise que foi ruminada, digerida e transformada em energia, produz um tipo capaz de afirmar todo acaso, de amar as suas próprias forças. Sem precisar de muletas, ele diz: “Sinto-me mais forte”.  E não é essa postura que a vida, a todo instante, quer nos ensinar?        

Nada de amor cristão: no lugar do amor pelos fracos, o amor pelos fortes. Nada de democracia representativa: a natureza já é democrática; cada um de nós tem o seu valor. Nada de política comandada pelos fracos, pelo ressentimento: viva a política do não-lugar, da não-representação, que é tecida por todos nós, que permita vivermos unidos à nossa capacidade de agir, de afirmar a nossa singularidade, de descobrir a nossa “verdade”. Nem uma gota de desconfiança da vida: prefiro viver confiante nela, aprendendo com ela, fazendo parte dela. Porque ELA é a nossa maior aliada. 

 

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Última atualização em Seg, 17 de Dezembro de 2007 16:06
 
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