| Do Trágico ao Patético |
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| Escrito por Éder Cristiano | |||||||
| Qua, 16 de Novembro de 2005 18:16 | |||||||
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Com um cheiro de manhã fúnebre, Maria acorda e salta da cama com um semblante assustador. Olha-se no espelho e percebe a imagem retorcida do tempo, olha de novo e não acredita que já se passou tanto tempo, que depois de dez anos a tormenta ainda a aflige e que sua covardia não a permite livrar-se deste incomodo.
No fulminante movimento de seus braços, atira o despertador contra o espelho, elimina dois incômodos ao mesmo tempo, o barulho irritante daquele pequeno tirano que impõe às manhãs de sono um limite irremediável, e daquele maldito objeto responsável por retratar sua decadência. Mas aquela manhã seria mais uma entre tantas outras de mau humor, ou seria a hora de tomar uma atitude drástica? Isso atormentava Maria, enquanto preparava seu rotineiro café da manhã à base de leite gelado com cereais adocicados. Depois de tão agradável refeição, ela se apressa por tomar seu coquetel de comprimidos, que variam entre calmantes e antidepressivos.
Antes de sair, a solteirona abastece a tigela de ração do seu gato Arthur, um felino felpudo que tem sido sua única companhia nos últimos anos. Além, é claro, dos calmantes e antidepressivos, seus companheiros de longa data. Vivenciando a rotina nunca receber elogios, de sempre acordar com aquele maldito despertador a denunciar sua situação de semi-escravidão, a pobre moça de classe-média, morando em um apartamento conjugado, vivendo a medíocre vida de incertezas emocionais, dietas e regimes alimentares, lamenta mais um dia que se inicia naquele marasmo eterno da repartição pública onde trabalha. Mas não teve jeito, até a hora do almoço foi a mesma rotina, receber mal a todos os que requisitavam seus serviços de atendente num posto do INSS. Maria tem o fenótipo perfeito de uma daquelas mau humoradas que nos atendem mal numa dessas filas que somos obrigados a freqüentar cotidianamente. Mas, no horário de almoço - duas intermináveis horas sem nada pra fazer - Maria resolveu que era hora de por fim àquela situação e, de pé sobre o parapeito da janela, olhava do oitavo andar como era longe o chão, e se sentia ainda mais fraca por não ter coragem de por fim a tudo aquilo que a atormentava. Por fim ela saltou, saltou como pássaro que se lança à primeira aventura, na busca por um vôo rasante. Maria afundou o rosto no chão duro de concreto do meio dia, deixou ali sua marca no mundo, um rastro de sangue de quem entendia que o tédio é o pior dos assassinos. Na porta daquele velho edifício, pessoas passavam e riam da cena trágica, uma gorda semi-nua afundada na calçada, vestindo apenas uma tanga cor de rosa onde se notava a inscrição: "love-me!". Artigo publicado no antigo blog do oestrangeiro por Éder Cristiano.
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jose carlos guimaraes
escreveu:
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comentário Caro Âder, Gostei. A primeira frase tem a beleza de Gabriel Garcia Márquez e tanto o primeiro como o segundo parágrafo, de Borges. Já os leu? Depois acho que muda, fica mais pessoal. A história é ótima e atroz. Seu tema é bastante pertinente: o problema do tempo, da solidão, da rotina e da carência afetiva. E surpreende, no final. Parabéns! José Carlos Guimarães poeta e contista |
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