Lembrar-me
Foucault, a Teoria Queer a e Homoparentalidade PDF Imprimir E-mail
Arquivado em:  Michel Foucault
Escrito por alberto carneiro   
Qua, 13 de Fevereiro de 2008 13:08
Este texto é um trecho de minha dissertação de Mestrado pela PUC-Rio intitulada "Se ele é artilheiro eu tambem quero sair do gol: um estudo sobre a co-parentalidade homossexual".

A teoria queer é uma nova abordagem pós-estruturalista que conta com a preciosa ajuda do referencial teórico de Foucault e Derrida, além da contemporânea Judith Butler. Provocar uma discussao além muros acadêmicos é meu objetivo. Peço desculpas pelo texto acadêmico, mas como tenho um estilo irreverente e simples, não é difícil de se ler. Quem quiser debater o assunto, será bem-vind@!

A teoria queer é baseada em boa parte na obra de Michel Foucault, notadamente em função de sua análise a respeito da invenção dos homossexuais (Foucault,1979), que permitiu,  pela primeira vez, um “discurso inverso”: homossexuais poderiam começar a defender seus interesses usando as mesmas categorias e terminologia que tinham sido usadas para marginalizá-los.

Segundo Foucault (1979), a escolha do objeto nem sempre se constitui como base para uma identidade, assim como não parece ser questão crucial na percepção de toda e qualquer pessoa sobre sua sexualidade. Assim, a desnaturalização das sexualidades e dos corpos marcados biologicamente se faz a partir da própria noção de prática discursiva, que criou uma verdade sobre a identidade humana, que se cristalizou na divisão sexual e binária da sociedade.

Desta forma, tanto a heterossexualidade como a homossexualidade são produções de um saber e de uma prática normativa que exercem o poder de naturalização deste binarismo, que acompanha a divisão do mundo em práticas lícitas e ilícitas.

Assim, este poder se manifesta na identificação dos corpos, no incentivo e na proliferação de práticas sexuadas consideradas lícitas e este binarismo acaba por legitimar a hegemonia da família heterossexual, “como se lhe fosse essencial que o sexo esteja inscrito não somente em uma economia do prazer, mas em um regime ordenado de saber” (Foucault 1993).

 Por isso, a teoria queer concorda com Foucault, quando afirma que a proliferação de novas identidades sexuais (transexuais, bissexuais, homossexuais etc) e sua cristalização, através de reivindicações identitárias, reproduzem as representações hegemônicas na medida em que se afirmam em “oposição a”, “diferente de”, ou seja, o múltiplo gira em torno do eixo unificador do mainstream, polarizando a relação entre estas identidades e uma outra, detentora do poder. Isto porque, para Foucault, o sexo biológico é fruto de um efeito discursivo. Por isso, a desnaturalização do sexo biológico pode promover o questionamento da divisão binária da sociedade com seus efeitos de apropriação e dominação, assim como a identificação da heterossexualidade como orientação sexual normativa.

Claro que Foucault não queria, com isso, afirmar que nós não nascemos com um aparelho genital dado, mas sim mostrar como o poder de práticas discursivas poderosas cria o corpo ao anunciá-lo sexuado, ao fazer de sua constituição biológica um fator “natural” que carrega características específicas e torna indiscutível a divisão dos seres humanos em dois blocos distintos.

Deste modo, ao final do século XX, a política de identidade homossexual entra em crise e revela suas insuficiências e limitações. Foucault, em seu livro "A Vontade de Saber", o primeiro volume de sua "História da Sexualidade", logo no capítulo inicial, discute o que ele chama de hipótese repressiva e questiona se a repressão sexual seria mesmo um fenômeno apenas da Idade Clássica, como até hoje muitos acreditam considerando o nosso século como a era da grande liberação. Segundo a hipótese repressiva, a partir do século XVIII, um crescente puritanismo passa a vigorar, condenando o sexo pelo prazer, permitindo portanto, como única manifestação possível, a sexualidade do casal monogâmico, e heterossexual. Sobre as sexualidades periféricas e estéreis teria sido imposto um silêncio geral, uma intensa repressão.

Foucault propõe uma leitura mais rica desta relação poder/sexualidade. Não nega que em muitos  momentos houve repressão. Mas a dinâmica é mais complexa, mais sutil, mostrando que ocorreu uma dominação das pessoas através do controle, de técnicas de sujeição, de métodos de individuação e de observação.

Ao refutar a hipótese repressiva, Foucault (1979) afirma que o sexo foi colocado em discurso na sociedade vitoriana por ser um canal de entrada do poder no corpo com a finalidade de dominar esses elementos, através de uma “polícia do sexo: isto é, necessidade de regular o sexo por meio de discursos úteis e públicos e não pelo rigor da proibição” (Foucault, 1979), fazendo-nos refletir a respeito da premissa que afirma ser o grau de repressão (ao qual a pulsão sexual é submetida) o único elemento a afetar as manifestações da sexualidade. Assim, podemos inferir que a sexualidade não é nada além de um dispositivo sócio-histórico.

A Idade Média tinha organizado, sobre o tema da carne e da prática da confissão, um discurso estreitamente unitário. No decorrer dos séculos recentes, essa relativa unidade foi decomposta, dispersada, reduzida a uma explosão de discursividades distintas, que tomaram forma na demografia, biologia, medicina, psiquiatria, na mora e, na crítica política. E mais: o sólido vínculo que vinculava a teologia moral da concupiscência à obrigação da confissão (o discurso teórico sobre o sexo e sua formulação na primeira pessoa) foi rompido ou, pelo menos, distendido e diversificado: entre a objetivação do sexo nos discursos racionais e o movimento pelo qual cada um é colocado na situação de contar seu próprio sexo produziu-se, a partir do século XVIII, toda uma série de tensões, conflitos, esforço de ajustamento, e tentativas de retranscrição.(FOUCAULT,1979,p.35)

É exatamente a partir deste pressuposto que Foucault desenvolveu sua teoria do “biopoder”, que pode ser descrito como um conjunto de práticas e discursos que determinam a normatização do desejo sexual. O bio-poder nos interessa bastante pois a família tornou-se uma instituição privilegiada para que se traçasse a linha divisória entre o que seria normal e patológico em relação à sexualidade. Para Foucault a noção de bio-poder corresponde aos i vida nos jogos do poder da sociedade atuando sobre os corpos. O poder passa a dominar a vida de todos nós, um poder preocupado em a produzir forças e foi a partir do século XVII que essa nova configuração de poder sobre a vida entra no cenário da sociedade ocidental através de dois caminhos: pela tomada do corpo como máquina e atraves da biopolítica da população, onde se captura do corpo toda a mecânica do ser vivo e dos processos biológicos que o atravessam.

Em sua obra Os Anormais, Foucault (1999) mostra bem claramente como a família foi usada como instrumento de controle do bio-poder: entre 1760 e 1780 se deflagra grande campanha contra a masturbação na França, tendo como justificativa os males que tal prática poderia ocasionar no adolescente. O real temor que havia, segundo Miskolci (2003), era o do incesto, tornando possível a presença do médico através da psiquiatria no controle das práticas sexuais na família e, mais tarde, do psicanalista.

É fácil percebermos como a sexualidade era vista como um perigo e como era projetada na família a suspeita de que os adultos ameaçavam sexualmente seus filhos. Portanto, não é de se admirar que, quando homens homossexuais, mais tarde, viessem a reivindicar o direito à paternidade, seriam imediatamente taxados, entre outras coisas, de pedófilos em potencial. Porém, a homossexualidade não foi sempre vista desta forma. Em diferentes momentos históricos, o “amor que não ousa dizer seu nome” parafraseando o brilhante escritor inglês do século XIX, Oscar Wilde, se construiu de maneiras diferentes. Para chegarmos à construção da homossexualidade tal qual ela é atualmente concebida, inúmeras desconstruções do próprio conceito tiveram de ser feitas em nossa cultura.

Comentários (15)add comment

Vera Costa escreveu:

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Entre em contato comigo, por favor, meu rapaz pois gostaria de conversar sobre sua dissertação.abs.
 
março 25, 2008
Votação: +4

Ed colombo escreveu:

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olá tudo bem, estive lendo sua pesquisa, achei interessante, estou trabalhando tbém a homossexualidade no final do séc. XIX, gostaria de trocar idéias com vc, se for possí­vel, um grande abraço
 
abril 17, 2008
Votação: +1

Margarida Diniz escreveu:

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olá

estou a fazer a dissertação de mestrado sobre Homoparentalidade em Portugal, no ISPA, e gostaria de entrar em contacto consigo, e até ler algo mais sobre a sua tese se possí­vel. se pudesse fornecer-me o seu e-mail agradecia

Obrigado
 
abril 21, 2008
Votação: +1

Raphael Cruz escreveu:

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Um capí­tulo da minha monogra fia trata de dissertar, entre outras coisas, sobre a Teoria Queer. Gostaria de estabelecer um contato o mais rápido possí­vel !
 
maio 07, 2008
Votação: +1

Marianna escreveu:

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Gostaria de te perguntar se alguem jé escreveu sobre macrobiótica, vegetarianismo homeopatia , livros de auto ajuda ,. do ponto de vista do bio poder
 
maio 07, 2008
Votação: +1

Maria Ivone Marchi Costa escreveu:

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Olá Alberto, lendo seu texto me interessei em ter acesso a sua dissertação. Pois, sou douturanda na sociologiA E ESTOU TRABALHANDO HOMOPARENTALIDADE.
Seria possí­vel??? Ficaria muito grata, constá-la em minhas referências.
 
setembro 12, 2008
Votação: +1

Carolina escreveu:

0
Excelente
Caro Alberto,
Adorei o resumo da tese, estou começando a pesquisar homoparentalidade para minha monografia e gostaria muito de ler na integra, seria possível??
Desde Já agradeço!

 
dezembro 03, 2009
Votação: +1

Carolina escreveu:

0
Excelente
Caro Alberto,
Adorei o resumo da tese, estou começando a pesquisar homoparentalidade para minha monografia e gostaria muito de ler na integra, seria possível??
Desde Já agradeço!

 
dezembro 03, 2009
Votação: +1

João Paulo Silva Martins escreveu:

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Eu gostaria muito de dicas para aprofundar meus estudos sobre a Teoria Queer, meu tcc tras a "Homossexualidade" como tema, ficarei profundamente grato se puderes me ajudar
 
julho 14, 2010
Votação: +0

Alisson Herrera escreveu:

0
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Caro,
Estou iniciando meu TCC, gostaria muuito de ler sua tese na integra, seria possivel, agradeço desde já!

Abraço
 
agosto 19, 2010
Votação: +0

barbara lima dos santos escreveu:

0
homossexualidade
estou fazendo a minha monografia se referindo a homossexualidade na escola.. estou com dificuldade em entender os objetivos especificos de Foucault sobre a homossexualidade.. teoria queer tambem estou de mal a pior.. por favor me ajude.. obrigada
 
setembro 11, 2010
Votação: +0

kaku escreveu:

0
amor gay
Foucalt examina em seu livro "Vigiar e punir" ("Surveiller et Punir: Naissance de la prison") os mecanismos sociais e teóricos que motivaram as mudanças verificadas nos sistemas penais ocidentais durante a era moderna. Foucalt descreve o dispositivo panóptico, uma ‘máquina’ cuja arquitetura é formada por uma torre central e uma construção circular periférica. Nesta construção circular encontram-se indivíduos a serem vigiados – prisioneiros, loucos, escolares e trabalhadores – enquanto na torre central se encontram os vigias.

A possibilidade de serem vigiados a todo instante incita nos indivíduos um sentimento de auto-regulamentação, ou seja, de assimilação de uma série de condutas que permanecem dentro de um limite aceitável – o bom senso não é transgredido. Nas palavras do autor, o dispositivo induz “um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder”, com um objetivo inicial, base representativa do panoptismo: disciplinar. Segundo Foucault, portanto, seria melhor e mais eficaz para a sociedade vigiar do que punir.

 
outubro 28, 2010
Votação: +2

kaku escreveu:

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...
Sem enrolação: panoptismo, isto é, um sistema disciplinar de controle através da vigilância.Pan-óptico é um termo utilizado para designar um centro penitenciário ideal desenhado pelo filósofo Jeremy Bentham em 1785, em que se pode vigiar sem ser visto. Hoje o termo é utilizado por outros métodos, como o poder panóptico das câmeras de transitos, Big Brother, etc...

 
outubro 28, 2010
Votação: +1

kaku escreveu:

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...
Foucault trata principalmente do tema do poder, rompendo com as concepções clássicas deste termo. Para ele, o poder não pode ser localizado em uma instituição ou no Estado, o que tornaria impossível a "tomada de poder" proposta pelos marxistas. O poder não é considerado como algo que o indivíduo cede a um soberano (concepção contratual jurídico-política), mas sim como uma relação de forças. Ao ser relação, o poder está em todas as partes, uma pessoa está atravessada por relações de poder, não pode ser considerada independente delas. Para Foucault, o poder não somente reprime, mas também produz efeitos de verdade e saber, constituindo verdades, práticas e subjetividades.

Para analisar o poder, Foucault estuda o poder disciplinar e o biopoder, e os dispositivos da loucura e da sexualidade. Para isto, em lugar de uma análise histórica, realiza uma genealogia, um estudo histórico que não busca uma origem única e causal, mas que se baseia no estudo das multiplicidades e das lutas. Também abriu novos campos no estudo da história e da epistemologia.

As criticas e análises feitas por Foucault (1979) são pertinentes principalmente em relação ao significado de categorias de análise como soberania; mecanismos de poder; efeitos de verdade, regras de poder; etc., categorias essas de fundamental importância para a análise e compreensão do funcionamento do Estado e dos problemas cotidianos do homem comum.

 
outubro 28, 2010
Votação: +3

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Última atualização em Dom, 17 de Fevereiro de 2008 21:13
 
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