| Ética e subjetivação no pensamento punk |
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| Arquivado em: Michel Foucault | |||||||||||||||
| Escrito por Everton Moraes | |||||||||||||||
| Dom, 27 de Novembro de 2005 20:41 | |||||||||||||||
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Este texto pretende abordar, brevemente, o pensamento punk com a intenção de mostrar como ele se constitui em uma forma de resistência à sociedade de controle, rapidamente descrita por Deleuze em um pequeno texto, e também analisada por Guattari em seus escritos. Importa aqui pensar outras formas de assujeitamento, para que não tomemos nossas identidades como dadas de uma vez por todas e não perpetuemos a "amarga tirania de nossas vidas cotidianas" Ética e subjetivação no pensamento punk É nesse domínio da atividade crítica que se situam as estéticas de existência. Elas são uma forma de subjetivação que se contrapõe a sujeição dos mecanismos disciplinares e de controle, pois pressupõe um relacionamento do indivíduo consigo mesmo, um trabalho do pensamento sobre o próprio pensamento que busca liberá-lo de toda identidade fixa e essencial, de qualquer sujeição a códigos que se pretendam universalmente válidos e do achatamento de subjetividades característico das sociedades contemporâneas. Diferenciam-se das formas de luta que pretendem homogeneizar as práticas de resistência, propostas pelo marxismo. O que se busca com as estéticas de existência é a constituição de "estilos tão diferentes uns dos outros quanto seja possível". Foucault faz essa proposta mostrando a imanência do que a sociedade ocidental se acostumou a pensar como transcendental, substituindo o fundamento pela experiência, colocando o sujeito no espaço desta, como aquele que se constitui através de práticas de sujeição (Nascimento, 2000) e, no caso desta pesquisa, de liberação. Deleuze e Guattari, atualizando as análises de Foucault, mostraram que nas sociedades contemporâneas, as formas de subjetivação estão ganhando um espaço cada vez maior, as subjetividades entraram no reino do nomadismo, as pessoas não tem mais uma terra natal, uma origem, estão desterritorializadas, multiplicam-se as reivindicações por singularidades. "Tudo circula"(Guattari, 1992), estamos na era dos fluxos produtivos, que requerem participação contínua dos sujeitos na produção, participação modulada que legitima o controle contínuo. Dos controles a céu aberto, realizados com ajuda da informática, diferentemente dos confinamentos da sociedade disciplinar, que estão em crise ou redimensionados a novas necessidades. Uma era onde há uma pletora de direitos, que exigem cidadãos eternamente devedores no processo de construção social, sempre inacabado, demandando constantes reformas. Onde a produção industrial se concentra nos países do "terceiro mundo", nos quais a população é tratada como um gueto a ser assistido pelo Estado e suas políticas públicas. Tudo isso articulado com os programas midiáticos, talvez os principais moduladores de subjetividade, em torno dos quais se organizam esses outros mecanismos. "São as sociedades de controle (Deleuze, 1992) que estão substituindo as sociedades disciplinares", engendrando um nomadismo e uma busca de singularidades que não busca conferir mais autonomia ao sujeito, mas modulá-lo as necessidades do controle. Caberia então à resistência subverter essas participações, resignifiando-as, indo além delas, de modo que extrapolem essa modulação. Uma re-singularização que envolveria todas as instancias do real, criando práticas de liberação. São novas práticas de liberação que os movimentos anarco-punk, desde a década de 70, vem introduzindo, em todo o mundo, novas formas de construir-se a si mesmo ética e esteticamente. São práticas que negam os paradigmas vigentes, os modos de pensar o tempo, o espaço, o sujeito e a própria existência, novas formas de se relacionar com sua experiência e a experiência social, de forma a desconstruir valores universais fixos, em favorecimento de uma relação de diferenciação consigo mesmo e com o próprio pensamento, criando estéticas de existência punks. O tornar-se punk pressupõe uma atividade crítica sobre si mesmo. Um questionamento do que se acreditava anteriormente, de toda uma moral que estava posta como verdadeira. Pressupõe um cuidado consigo mesmo, um repensar de atitudes que critica toda forma de autoridade que venha do exterior e tente se impor ao indivíduo, como se não requeresse uma reflexão sobre ela. Nesse processo, tudo que era tido, até então, como verdadeiro é relativizado e repensado. Mudam as práticas, que buscam agora, incessantemente a criatividade e a invenção de costumes. São constantes os movimentos de desterritorialização e reterritorialização, acompanhando a capacidade de apreensão e captura das máquinas abstratas e midiáticas. Em suma é um processo que produz uma existência-fluxo, sempre intensa, instantânea e mutante, fazendo conexão com outras existências e outros fluxos desejantes de novos encontros e novas desterritorializações (Deleuze & Parnet, 1998). Estando organizados, como movimento, ou dispersos, em grande ou pequeno número os punks sempre incomodaram aqueles que desejavam o conformismo e o sedentarismo ou a organização hierárquica. Suas práticas não deixaram de produzir efeitos sobre o real, principalmente no que diz respeito às subjetividades alheias, através da ação de indivíduos, de pequenos grupos, da produção de fanzines, de música, de estética etc. Efeitos estes que se constituem em formas de resistência aos, já citados, controle e disciplina das sociedades contemporâneas. Resistem porque produzem um estilo e uma ética próprios, questionando os pretensos valores universais e estabelecendo uma relação consigo mesmo que produz uma subjetividade autônoma através de práticas criativas e transformadoras de si, como pode-se perceber ao analisar a "ética motriz" desse pensamento, o "faça você mesmo" (O'Hara, 2005). Ética que conduz a invenção de novos costumes, desligados da produção maquínica de subjetividades induzida pelos mass midia. Está em jogo produzir identidades que fujam das constantes apropriações midiáticas. Investir em uma micro-política do cotidiano. Uma nova relação com a família, com os amigos, com as instituições, mas principalmente, uma nova relação consigo mesmo. Participam subversivamente, questionando a demanda por participação produtiva nos fluxos inteligentes, característica da sociedade de controle. Exemplo disso é a sua estética que, pela agressividade e radicalidade, incomoda, atravessa e abala subjetividades conservadoras, contestando padrões estéticos impostos. Esse incomodo é causado também pela principal forma de comunicação punk, os fanzines. Neles o incomodo está presente por toda parte. Logo de cara se percebem as imagens sobrepostas, as colagens, os desenhos, materiais tirados de grandes revistas e jornais, imagens que não apenas ilustram o texto, mas constituem um outro texto, que complementa e dialoga com o escrito, aumentado a eficácia e, portanto, o incomodo da informação. Essas imagens incitam o destinatário ao desassossego, a inquietação do pensamento, porque não o deixa descansar, repousar sobre uma certeza. São imagens que procuram problematizar a modernidade, mostrando fragmentos dela que nem sempre são apresentados pelos meios de comunicação de massa. Fragmentos de uma memória muitas vezes, que se pretendeu apagar. Outras que são tiradas de grandes revistas de moda, descontextualizadas e re-apropriadas pelo discurso punk, tendo seu significado subvertido e invertido. Percebe-se, além disso, uma escrita composta de fragmentos, que não obedecem a padrões lingüísticos rígidos. Dentro do mesmo zine é possível encontrar diversos fragmentos, frases que carregam em si imagens capazes de inquietar, de suscitar o desassossego do pensamento, sua criatividade. No conteúdo fica mais explícito o objetivo de inspirar uma existência mais criativa, uma invenção de costumes no cotidiano, que contesta as formas de dominação características da modernidade e o estilo de vida que elas fazem funcionar como o verdadeiro. Mas talvez a forma, nesse sentido, tenha uma eficácia maior. Ela faz desaparecer toda ordem característica da escrita acadêmica formal, faz surgir uma sobreposição de palavras, uma variação absurda de tipos de letra, além de imagens que mostram todo o peso esmagador do poder atuando no cotidiano, mostrando-o como aquilo que é intolerável. Inventam também novas formas de pensar o tempo. Liberam o presente de toda a tradição que já não tem mais sentido, senão o de produzir efeitos opressivos de poder. Apesar da crença nas utopias anarquistas, não fazem delas um consolo que deixaria a ação para um futuro longínquo, criam outros espaços a partir delas, em suas andanças, bares e shows, em ações heterotópicas que conduzem a experimentação de liberdades, no presente, através de contra-posicionamentos, que trazem para o campo da política a ética, a estética e as resistências cotidianas. Pensam o tempo como o local do devir, da constante transformação de si mesmo e dos outros, consideram improdutivo todo sedentarismo identitário, que acaba por gerar a incorporação de suas práticas aos fluxos de controle. Poderia objetar-se que o pensamento anarco-punk, longe de ser tão sofisticado e sintonizado com o seu tempo, tem o discurso atrelado ao revolucionarismo do século XIX, atrelando o fim das formas de dominação a revolução futura, que teria um caráter libertador, o que pensadores como Foucault e Deleuze criticaram ferozmente. Além disso, grande parte do movimento esteve e está em busca, não do nomadismo, mas da afirmação de suas identidades, da reivindicação do direito de ser quem são, de serem reconhecidos, uma política nitidamente servil que faz do punk, um movimento desatualizado. É bem verdade que o discurso punk é, muitas vezes, inspirado pelo pensamento libertário do século XIX e que, não raro, esteve envolvido em lutas para a afirmação de identidades. A cultura punk, por estar constantemente tentando escapar as formas de hierarquia, não se configurou em um pensamento único e muitas vezes se mostrou contraditória. O que aparece nesse discurso é uma incitação à inquietação do pensamento, a existência criativa, uma contestação das identidades como algo dado de uma vez por todas e que fazem perpetuar "amarga tirania de nossas vidas cotidianas". * Estudante de História na Universidade Tuiuti do Paraná. ( Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ) DELEUZE, Gilles. Conversações, São Paulo: editora 34, 1992. _____ & PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998. FONSECA, Márcio Alves da. Do incomodo das imagens a inquietação do pensamento. In: Revista Verve nº6: um incomodo, PUC-SP, 2004. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade. Rio de Janeiro, Graal, 1990. vol. II. NASCIMENTO, Wanderson F. Nos rastros de Foucault: Ética e subjetivação. http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/, 2000. NETO, Nécio Turra. Enterrado vivo: Identidade e território punk em londrina, São Paulo: Unesp, 2004. GUATTARI, Felix. Caosmose: Um novo paradigma estético, São Paulo: editora 34, 1992. O'HARA, Craig. A Filosofia do Punk: Mais que barulho, São Paulo: Radical Livros, 2005. PASSETTI, Edson. Anarquismos e Sociedade de Controle, São Paulo: Cortez, 2003. TÓTORA, Silvio. Devires minoritários: um incomodo. In: Verve nº6: um incomodo, PUC-SP, 2004.
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Hits: 3872 Comentários (3)
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marlos
escreveu:
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... ái aqui quem vos fala é bob cuspi dede encantado RS PARABENSVOCES VOCES FISERAM UM TEXTO DO CARA... simplese objetivo e é sempre bomver a mugra em atividade parabens eu trabalho com artesanato e cultu ra marginal aqui nesse cu apesarde nao ser facil consigoi ainda quebra os padroes dessa gente onde 80Ús pessoas daquitrasem penssamento facistas de seus antepassados ai se vocesconhecen oluca ai de lomndrina eo boco diz que eu to na ativa e que logo logo estarei ai em londres "antes as pessoas amavam pessoas eusavam os bens materiais mas hoje vemosas pessoas amando os bens materias e usando pessoas" |
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... todo ohomen emulher é um para formar um todo como um todo de homens e mulheres podem subemeter-se a um punx es protesta |
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... Bom texto, Sou estudante de Filosofia e também já tive uma banda Punk. Desde os 15 anos sou fascinado pelo movimento e pelas idéias livres e suvbversivas que este representa. Estas idéias que me levaram a fazer Filosofia e a apreciar filósofos como Deleuze, Nietzsche e Foucault. E nesse texto você fez um paralelo muito interessante entre tais pensamentos. Valeu, Abraços |
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