Lembrar-me
Menoridade Criminal PDF Imprimir E-mail
Arquivado em:  Política
Escrito por Noé Pereira de Campos   
Dom, 04 de Março de 2007 19:08

Há dias estávamos numa polêmica em que uma corrente declara
ser hipocrisia achar que a redução da maioridade penal vai
"resolver" a criminalidade.

Além da hipocrisia, a grande distorção: NINGUÉM disse que vai
resolver, mas amenizar sim - inclusive porque quando a "Consti-
tuição" de 1988 abriu as comportas para os criminosos maiores
usarem os menores, desde então a criminalidade de "menores"
aumentou 300%.

Minha posição: hipocrisia é NÃO QUERER ver isso.

Pois hoje assisti a uma entrevista em que um bandido disse
que pra ele era diversão "roubar, curtir a grana, passar 25
ou 30 dias na "casa de recuperação social" e voltar pra rua
e começar as "aventuras" de novo!

Alguém aí acha que se ele soubesse que podia pegar cinco ou
dez anos de cana ia "se divertir" roubando e talvez matando?

ÓBVIO, corrigir a imputabilidade penal para menos NÃO RESOLVE
a criminalidade (se resolvesse não haveria "maiores" presos).
Mas levantem a imputabilidade criminal de 18 para 20 anos e
vocês vão ver como essa faixa etária aumenta as atividades
criminosas em mais de 300%.

Ora, um "Q.I.-zinho" de semi-retardado talvez já baste para
mostrar a relação de proporção, especialmente se se resolver
analisar que os países com imputabilidade mais severa têm
menos criminalidade proporcional, nas faixas etárias
correspondentes.

ÓBVIO, mais uma vez: isso não resolve os outros gravíssimos
problemas sociais desta colônia do neoliberalismo. Mas pelo
menos ajuda a controlar um deles.

Bom fim de semana.

Comentários (6)add comment

miriam escreveu:

0
...
Noé,

O problema, penso, não é bem reduzir de 18 para 16. Há
menores de 10, 11, 12...cometendo crimes bárbaros. Há, ainda,
crianças que, brincando com armas ou facas, ou fogo, ferem ou matam
o irmão, o colega. Vamos prendê-los? Vamos homegeneizar o crime
por idade? Ou pela natureza do delito? Essa última opção parece
ser mais humana e mais socialmente construtiva. Não é justo que se
mantenha presos, como está acontecendo no RS, dois menores, porque
roubaram um boné que custa dez reais, com um revólver de
brinquedo, na mesma condição em que se encontram adultos que cometem
latrocí­nio, corrupção de menores, aliciamento a prostituição
infantil, homicí­dios sequenciais, sequestro, e todo esse "caldo de
cultura". Para situações diferentes é mais óbvio que se tenham
soluções diferentes. Ou, então, corremos o risco de reprisar "O
Alienista": como não conseguimos compreender com clareza quais são
os elementos que compíµem a violência urbana, prendemos todos " na
dúvida".....

Um dos problemas é que essa redução traz um novo reforço ao
crime organizado, que se concentra nos presí­dios. O í­ndice de
"criminalidade" diminui por uma ilusão de ótica...ao invés de
termos x menores delinquentes, as estatí­sticas passarão a apontar
o número de presidiários e classificá-los por delito. Â
só isso. Estatí­sticamente, teremos x presos , mais x menores
delinquentes abaixo dos 16 anos...Eles não vão deixar de serem
utilizados como massa de manobra com a redução, por que são
impotentes face í s circunstâncias que engendram o delito; não
apenas pela pobreza, pois os garotos que atearam fogo no í­ndio em
Brasí­lia não eram pobres, nem os 17 presos por tráfico no ano
passado o eram, ao contrário. Talvez haja uma diminuição REAL com
o aumento da penalização dos adultos que se servem da menoridade como
escudo.

Outro dos problemas é que o custo-benefí­cio dos presí­dios,
enquanto forma punitiva e de reabilitação é alto para os
cidadãos que asseguram, com seus tributos e taxas, as verbas que
mantém os presos em um estado de inércia social... O nosso patamar
tributário estorou a casa dos 38%, pagamos, agora, 38,8% de nossos
ganhos aos cofres públicos. Â pouco? Quanto desse montante é
destinado a Educação, í Saúde, í Habitação, ao Transporte
coletivo de qualidade?

Outro problema é a DESOBEDIÂNCIA CIVIL, que parece estar
confundida com a idéia de liberdade, o que é, isso sim, idéia
de retardado... Liberdade é o que não usufruimos quando nos
condenam í miséria moral e ao anonimato social. Qualquer
Constituição, ou lei, ou norma, ou regulamento, ou orientação
familiar que não seja acatada como proteção se torna fundamento
para a desobediência, PORQUE NÂO SABEMOS DIALOGAR COM VISTAS AO
FUTURO. Muitas vezes nos arrependemos de ter desconsiderado esta ou
aquela orientação dos pais, dos professores, dos amigos, dos chefes,
das leis. E é muito bom quando podemos admitir que erramos. Se os
pais fossem prender os filhos ao pé da cama toda vez que errassem,
eles se tornariam bons cidadãos?

Cometer um crime é uma questão de grau de adaptação ao meio
externo. Creio que esta noção, de adaptação, é um dos
parâmetros que precisamos repensar. Retirar crianças de ambientes
que as violentam e condicionam a comportamentos indignos parece-me ser
uma medida melhor do que juntá-las todas no mesmo emblema.

Claro, os detalhes do crime do menino João são de uma profunda
descrença no mundo e total desvalorização da vida como um bem.
Matar e morrer podem ter o mesmo significado em determinadas
circunstâncias. Mas, fica a pergunta, como é que alguém se
convence de que a vida não vale nada? Será que já nasce
acreditando nisso? Como, se o bebê não possui desenvolvimento
cognitivo e psí­quico suficiente para aderir a crenças?

Me permita discordar de uma frase sua: não foi a Constituição que
aumentou o número de menores que cometem delitos, foi o número de
crianças em total desamparo que cresceu muito e desordenadamente.
 
março 04, 2007
Votação: +0

Luiz Flávio Gomes escreveu:

0
...
A prisão sempre foi uma "indústria" porque ela é a grande responsável pela reprodução do delito.  dentro dos presí­dios que a grande maioria dos delinqíŒentes aprimoram sua "carreira criminal". Mas a prisão, na atualidade, também deve ser vista como "indústria" sob outro ângulo: é por meio dela que muita gente está fazendo fortunas incalculáveis.

Desde 1980, especialmente nos EUA, o sistema penal vem produzindo o sub-produto da superpovoação dos presí­dios. Tudo começou como fruto da polí­tica econíŽmica neoliberal de Reagan (que contou, nessa iniciativa, com a co-autoria de Tatcher). Cabe considerar que desde essa época, paralelamente, vem se difundindo o feníŽmeno da privatização dos presí­dios, que deu origem a uma das mais destacadas facetas da "indústria" das prisões.

Quem constrói ou administra presí­dios precisa de presos (para assegurar remuneração decorrente dos investimentos feitos). O Direito penal da era da globalização caracteriza-se (sobretudo), desse modo, pela prisionização em massa dos marginalizados.

Finalmente a elite polí­tico-econíŽmica norte-americana descobriu uma função econíŽmica para os pobres, miseráveis e marginalizados.
 
março 04, 2007
Votação: +0

Noé Pereira de Campos escreveu:

0
...
Gostei MUITO da tua resposta. Inteligente e
abrangente, mas, é claro, não esgota assunto
tão complexo.

Infelizmente não posso dedicar-me só a este
assunto (antigamente investia horas nas discussões
do "estrangeiro", idéia felicí­ssima criada por meu
colega de pós, o Marcio). Por isso, não vou comentar
tuas palavras, exceto a do final:

"Me permita discordar de uma frase sua: não foi a Constituição que
aumentou o número de menores que cometem delitos, foi o número de
crianças em total desamparo que cresceu muito e desordenadamente".

Permita-me em parte discordar da discordância -
e questioná-la:

Se não foi a Constituição que aumentou o número
de menores que cometem delitos, por que é que o
"número de crianças em total desamparo que cresceu
muito e desordenadamente" quadriplicou justamente
a partir da Constituição?

Mais uma vez, minha admiração e agradecimento por
investir seu tempo numa resposta tão bem elaborada,
profunda e gentil.

Um bom fim de semana pra todos os estrangeiros.

Noé.
 
março 04, 2007
Votação: +0

Bruno escreveu:

0
...
Caso eu fosse um traficante e a menoridade penal fosse diminuí­da, para por exemplo 16 anos. Minha meta agora seria recrutar crianças de 15 anos... é simples =]
 
março 18, 2007
Votação: +0

dioniso artuffo escreveu:

0
...
Ora, ora sr. Noé. Não acredito que o sr. acredita, mesmo, que reduzindo a idade penal, aquele que delinqíŒe não mais delinqíŒirá! Esse ví­cio legiferante nos causa muitos problemas: no lugar de agirmos para "amenizar" os problemas, criamos leis na esperança de que elas é que "amenizarão" os nossos problemas. No lugar de leis, proponho ações: criação de empregos, de moradias decentes, de escolas que ofereçam um ensino de qualidade. Proponho a implementação do Estatuto do Menor e do Adolescente, proponho uma melhora substancial do transporte público, proponho construções de centros culturais nas periferias da grandes cidades brasileiras, proponho o funcionamento humano e conseqíŒente da rede pública de saúde, proponho o fim da pena de morte no Brasil ( sim, no Brasil existe pena de morte. Alguém duvida?), etc. Com estas ações concretas, aí­ sim os altos indices de violência diminuirão muito. Quer apostar?
 
abril 03, 2007
Votação: +0

Everton Ramos escreveu:

0
...
Concordo que os criminosos buscarão jovens "cada vez mais jovens" para a prática de crimes. Por outro lado, entendo que a "frouxidão" das nossas leis, permitem essas barbaridades. Por exemplo, se uma "criança" de 16 anos comete crimes barbaros que dariam 30 anos de prisão a um adulto, essa "criança" que já tem o direito de votar mas é protegida pelo Estatuo da Criança e do Adolencente, fica com a pena reduzida a dois anos, ou seja, o bandido vai buscar estes elementos, pois em "pouquí­ssimo" tempo, estará livre para continuar cometendo crimes.
Por isso sou totalmente a favor de que as "crianças" infratoras sejam punidas com rigor. A punição não deve ser a detenção pura e simples, mas com forte incentivo na educação. Ou seja, só terá algum tipo de benefí­cio, quem estudar e procurar uma capacitação para o mercado de trabalho. Por que senão amigos, o problema só tende a aumentar.

smilies/grin.gif
 
novembro 02, 2008
Votação: +0

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Última atualização em Sáb, 29 de Agosto de 2009 12:26
 
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