| Ódios, políticas e o punk |
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| Arquivado em: Política | |||
| Escrito por Everton Moraes | |||
| Ter, 16 de Março de 2010 03:15 | |||
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Tratando do tema ódio Nietzsche afirma que a educação cristã formava homens com um ódio instintivo contra a realidade exterior, já que possuidores de uma extrema sensibilidade à dor, sendo que, para esse homem cristão, o mero fato de tocado é algo insuportável, uma vez que cada sensação se manifesta muito profundamente. Esse ódio volta-se contra si mesmo, já que para escapar dessa realidade exterior, esse homem reprime em si mesmo tudo aquilo que pode advir do contato com ela, tolhe essa experiência a tal ponto que nega a própria vida[1]. Na modernidade do capitalismo tardio, as pessoas também evitam o contato com a realidade. A sociedade do espetáculo as bombardeia com uma quantidade gigantesca de imagens e elas e elas já não encontram meio de se defender de tal ataque, sendo tarefa das mais difíceis, hoje, profanar a sacralidade dessas e imagens e dos valores que elas carregam. A perda de referencias existenciais, valores e crenças fixas, os labirintos intermináveis da vida contemporânea, reduzem em muito as resistências de homens e mulheres frente às dificuldades que encontram em seu cotidiano, no encontro com a realidade exterior. Todo obstáculo torna-se extremamente doloroso e demanda fugas para casas e condomínios seguros e imunizados contra o contato entre as pessoas, para o entretenimento da televisão ou para os antidepressivos.
Se se entende, como já foi dito, a dor e o sofrimento como experiências fundamentais e constitutivas dos próprios encontros e relações, como a condição primeira da existência, isto é, de estar em contato com o outro, então essa fuga contemporânea dos obstáculos também é uma negação da vida, uma forma de passividade e conformismo diante dela. O ódio, nesses casos, não se realiza em uma violência contra seu objeto, mas contra si mesmo. O objeto é mantido intacto. Ao invés de questionar a própria realidade, de se perguntar por um modo diferente de vivê-la, foge-se dela e dos bons encontros, de tudo aquilo que nela pode aumentar a potência. Mas há também uma outra forma de odiar, ou antes, um outro modo de se relacionar com o próprio ódio. E é justamente isso que trabalho tem como objetivo problematizar, o ódio tanto como fluxo psicoquímico, quanto como sentimento pensado e a partir do qual se age racionalmente e politicamente, o ódio e as relações que criadas a partir dele no punk. Quando reivindicamos uma racionalidade para nosso pensar, estamos domesticando sentimentos, controlando os impulsos que nos impelem a agir sem pensar, sem medir as consequências. O ódio não é, mera reação à miséria e o sofrimento do mundo. Não se odeia um terremoto ou uma condição imutável. Ele “aparece (...) quando há razão para supor que as condições poderiam ser mudadas mas não são. Reagimos com ódio quando o nosso senso de justiça é ofendido[2]”. A força desse ódio pode ter como fim tanto uma violência autoritária e ressentida quanto uma violência política. A violência, seu caráter destrutivo, sua capacidade de afetar, é elemento inseparável de toda política, encará-la como tal pode ajudar a desfazer a fórmula que decreta que o ódio implica sempre em uma agressividade antipolítica ou autoritária, ou pelo menos refletir sobre a questão dos modos de se relacionar consigo mesmo que o ódio propicia. Nas diversas vezes em que as práticas punks foram noticiadas na mídia ao longo dos últimos trinta anos foi quase sempre uma forma de se relacionar com o ódio que estava em jogo: o ódio aos rótulos e identidades prontas e acabadas, ódio às condições nas quais se vive, ao tipo de hipocrisia da qual a fuga da realidade é a causa, às tentativas de usar o punk para a promoção pessoal, de despolitizá-lo, etc. Em todos esses casos esse ódio não implica nem em uma violência irrefletida contra a realidade que tomem por decadente e odeiam, nem em uma fuga dela, mas em um trabalho sobre si que visa potencializar esse Si para a sua ação no mundo, para a transformação, mesmo que parcial e limitada da realidade, através de alguma forma de violência, em alguns casos física, em outras afetiva, simbólica, ou estética. Os fanzines, um dos modos mais articulados de comunicação no interior do punk, são pequenos informativos feitos artesanalmente e depois fotocopiados em algumas centenas de cópias que eram distribuídas ou vendidas entre os amigos, através de correspondências ou em algumas lojas, geralmente vinculadas ao punk rock, cuja circulação geralmente se restringia a pessoas ligadas, em maior ou menor grau, ao punk. Trata-se de umas poucas folhas com alguns textos curtos, poesias e frases soltas, normalmente intercaladas com imagens as mais diversas recortadas de jornais e revistas, datilografadas, digitadas ou até mesmo escritas à mão, onde aparecem críticas éticas e políticas as mais diferentes manifestações do poder nas sociedades contemporâneas. Através deles uma série de pessoas ligadas ao punk (ou algumas de suas vertentes – hardcore, anarco-punk) construíram, ao longo da década de 1990, uma cultura do cuidado de si, da reflexão sobre o próprio ser, visando um certo tipo de interferência na vida política mais ampla. Em cada uma de suas páginas, varias existências foram questionadas, éticas foram praticadas e sentimentos foram expressos. Os indivíduos que os compunham o faziam de modo a colocar muito de si mesmo nos textos e imagens que produziam. Falando sobre suas visões políticas, sobre o que pensavam, sobre essa ou aquela postura do grupo, reproduzindo letras das bandas das quais eram fãs ou recortando e colando imagens, estas pessoas se recriaram através dessa composição. Isso na medida em que nela puderam criar uma imagem de si, tomar uma certa distância dessa imagem, pensá-la, oferecê-la ao outro e solicitar sua intervenção. O leitor do fanzine também foi levado a se questionar sobre si mesmo, sobre os caminhos que estava seguindo, especialmente porque era incitado a ler e observar o material que tinha em mãos como matéria a ser pensada e criticada, como conjunto de reflexões a respeito das próprias ações. E a reflexão deveria servir para transformar estas últimas, tornando-as mais resistentes ao controle e tão livres quanto fosse possível do fascismo do cotidiano, esse mal que espreitava cada um de seus gestos. E eram os sentimentos de indignação e ódio que constituíam uma das bases da cultura punk. Com efeito, pode-se dizer que a revolta, motivada pelo sentimento de ódio, foi para esta, desde o início da década de oitenta, o operador ético da transformação de si e da atualidade. “Destruir o sistema, destruir a religião”, a transformação social e subjetiva desejada sempre aparecia sob o signo da destruição, do desfecho final da ordem vigente, dos valores estabelecidos. Porém tudo leva a crer que essa destruição reivindicada era apenas um recurso retórico, ou antes, uma energia bruta que seria preciso domar. Para que se tornasse produtiva, a energia desse ódio não deveria ser apenas destrutiva, rancorosa e caótica, ela deveria ser submetida e contida dentro de uma forma para que se pudesse chegar aos resultados desejados. As energias brutas deveriam se transformar em ação política:
Espírito crítico, pensamento criativo, bah! Não são saídas fáceis. São caminhos que decidimos trilhar. Caminhos que nos levam a beira do precipício. Como Nietzsche, “você olha para o abismo e ele olha de volta para você”. (...) não podemos desistir (...) Acho que da raiva, da frustração e do ódio deve surgir algo de bom. Devemos canalizar isso para algo construtivo. Algo que mude. Estou cansado de autodestruição, pena de si mesmo, desespero. Vai de nós decidirmos se os sentimentos vão apenas virar rancor ou se vão virar algo concreto, palpável, construtivo e bom. (...) Nossas energias têm que virar algo além de ódio para nós mesmos e nossas ações. Algo além de alguém sentado na cama chorando a noite. Não sou ingênuo, nem tolo. Mas não há porque ser amargo. Acho que ser hardcore/punk é andar nessa linha, essa “corda bamba” (oh não, mais um chavão...). Os dois levam ao fracasso. O importante é o equilíbrio. A revolução tem que começar dentro de nós. [3]
Se a energia do ódio e da revolta sozinhos levam a destruição niilista ou a autopiedade; se, como diz Michel Onfray, a violência aparece no momento em que a energia transborda e se resolve na destruição e no negativo, era preciso que a energia desses sentimentos fosse, então, domada e contida dentro de uma forma para que então se transformasse em algo construtivo, ou seja, uma subjetividade autônoma e equilibrada, liberada das diversas sujeições que a coagiam do exterior e de dentro. Do exterior pela crueldade do “sistema”, pela alienação imposta por ele, seus mecanismos de controle social, suas estratégias que tentam fazer da vida objeto de uma dominação cada vez mais totalizadora, pois atuam em todos os lugares e a todo momento na vida das pessoas. De dentro porque eram sujeições que exigem dos indivíduos não apenas a sua dedicação total, mas também sua alma[4]; isso na medida em que sujeitam sua potência a uma organização padronizada, fazendo com que subjetivem formas de vida previamente codificadas. Submeter essa força à uma forma, transformando-a em estilo (de vida) é, portanto, uma maneira de se antecipar aos assujeitamentos e escapar a essas sujeições que o atingiam, de resistir a elas, de encontrar saídas lá onde o poder pretendia-se impermeável. E para tanto é necessário realizar esse trabalho de domínio de si mesmo através da escrita, isto é, para que se tornasse produtiva, a energia desse ódio não poderia ser apenas destrutiva, rancorosa e caótica, ela deveria ser submetida e contida dentro de uma forma para que se pudesse chegar aos resultados desejados. Para domar essa energia do ódio era necessário um trabalho do sujeito sobre si mesmo, um trabalho de cuidado de si, de governo das potencias que se agitam em si; era preciso um ascetismo, no sentido conferido por Michel Foucault ao termo como “esquemas que o indivíduo encontra na sua cultura e que lhe são propostos, sugeridos e impostos pela sua cultura, sociedade e seu grupo social.”[5]. Tratam-se de formas de relação consigo, práticas e técnicas através das quais o sujeito visa a sua própria transformação, seja ela espiritual ou corporal. O asceta tanto pode integrar-se e reproduzir uma determinada formação cultural, aceitando passivamente esses esquemas, quanto transformá-la, ressignificado-os e fazendo de si uma obra singular. Esse ascetismo é, portanto, uma tentativa de refletir sobre aquilo que acontece consigo mesmo. A partir de um “sentimento de explosão” o indivíduo põe-se a escrever para refletir sobre esse mesmo sentimento, assim como sobre aquilo que o provocou. Mas o que é isso que provoca essa explosão? São angústias e inquietações, os ódios e revoltas provocados pelo mundo em que se vive, pelas condições em que nele se vive: “Você já parou pra pensar no mundo em que você vive? A maneira como você e as pessoas ao seu redor se comportam?[6]”. Ele se pergunta sobre as próprias formas de vida, sobre o poder que perpassa as relações consigo mesmo e com os outros. Contra esse poder deve ser levada a cabo uma guerra movida pela revolta e pela indignação com os modos de viver que somente depreciam a vida. Como afirma Nildo Avelino: Não basta estar convencido de um ideal, é preciso querê-lo e desejá-lo a ponto de transformar a própria existência pessoal através de critérios de estilo. (...) Essa efetuação do pensamento em vontade possui como operador ético a revolta. E a contenção em que venho insistindo é aquilo que torna vivível essa revolta. Era necessária uma suavização das formas de atuação ou, mais precisamente, uma contenção em formas que pudessem conciliar a vivência cotidiana no espaço social com um estilo de vida que lhe fazia uma crítica profunda. É a partir dessa tentativa de conciliação que vai surgir uma discussão que transforma o punk de uma série de gestos de transgressão de resistência para uma estética de existência crítica dos modos de vida prescritos pelas sociedades ocidentais capitalistas contemporâneas. Trata-se da criação de uma cultura da crítica constante de si mesmo e dos significados do punk através da escrita (tema que ainda será abordado neste trabalho), o que mobiliza uma série de processos autônomos de subjetivação. Não se trata então, nos fanzines, de tentar impor a um outro uma determinada visão de mundo ou modo de vida punk, mas apenas de propiciar uma reflexão, um questionamento dos valores e das condutas individuais que se praticam no interior do punk. Tanto que na maioria dos textos estão presentes advertências ao leitor, geralmente na forma de um parágrafo introdutório, ou no editorial do zine, quanto ao estatuto do texto que estão lendo; a vontade de verdade é rechaçada para dar lugar a uma busca da verdade que era uma transformação da verdade em ethos:
Quantas vezes não tentamos impor nossa vontade nos outros? Quantas vezes não achamos que somos os donos da verdade? Bem, eu não sou, duvide daqueles que dizem ser, e que professam crenças como verdades incontestáveis. O que eu escrevo neste zine não precisa ser a sua verdade; o que eu escrevo são apenas minhas opiniões, são coisas que eu sinto, coisas nas quais eu acredito. Você não precisa acreditar nelas. Você não precisa nem ao menos gostar delas. Apenas pare e pense, quem sabe tenha até algo com o qual você concorde[7].
Essas advertências servem como forma de rechaçar a vontade de verdade presente na linguagem e fazer com que o texto deixe de lado a pretensão de uma verdade universal para fazer dele uma provocação, um incômodo, uma incitação ao pensamento. O sujeito que profere o discurso relativiza seu ponto de vista e, com ele, seu estatuto de sujeito de enunciado, o qual o ocidente atribuiu o papel de ponto de origem do discurso e do saber que este implica. Não se encontra aqui um sujeito totalmente seguro do que fala e do que é, que teria apenas o trabalho de colocar em palavras o que pensava antes do ato da escrita, mas de um sujeito que não se sabe bem ao certo quem é, e que pensa no momento mesmo em que escreve. Se a escrita e a música punk estão intimamente ligados à ideia de que se deve “tornar sua própria existência uma guerra”[8], elas não são apenas uma expressão dessa guerra. Elas são, sobretudo, algumas das armas com as quais se luta. A reflexão sobre as formas de vida de nossa atualidade, seja na forma de narração de experiências pessoais ou não, assim como a problematização da própria linguagem, funcionam como modos de transformar em acontecimento, em contingência, tudo isso que nos acostumamos a viver como necessidade. A política da que praticam consiste em combater na imanência. [1] NIETZSCHE, Friedrich Whilhelm. A genealogia da moral. São Paulo: Centauro, 2000; NIETZSCHE, Friedrich Whilhelm. O anticristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. [2] ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 81-82. [3] APOCALYPSE WOW n°4, Curitiba: 1998. [4] LAPOUJADE, David. O corpo que não aguenta mais. In LINS, Daniel; GADELHA, Silvio (Orgs.). In: Nietzsche e Deleuze: O que pode o corpo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. p. 81-90 [5] FOUCAULT apud. ORTEGA, Francisco. O corpo incerto: corporeidade, tecnologias médicas e cultura contemporânea. Rio de Janeiro: Garamond, 2008. p. 19. [6] STRAIGHT AHEAD. Curitiba, 1998. [7] APOCALYPSE WOW nº1. Curitiba, 1997. [8] STRAIGHT AHEAD. Curitiba, 1998.
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| Última atualização em Dom, 06 de Fevereiro de 2011 13:23 |