| A Religião e o Trabalho |
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| Arquivado em: Psicanálise | |||
| Escrito por psicopr | |||
| Sex, 15 de Abril de 2005 18:15 | |||
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Camila Rassi Ja, aus der Welt werdem wir nicht fallen. Wir sind einmal darin. Christian Dietrich Grabbe A presença do universo religioso no universo de trabalho tem sido ainda mais frequente com a explosão da religião e das comunidades evangélicas nesta última década. Cabe ao psicólogo do trabalho, desta forma, compreender que significações podem ter as crenças religiosas e quais suas consequências na mentalidade humana, bem como estar refletindo de que forma poderá estar atuando profissionalmente nas organizações. No presente artigo é colocado em pauta, também, sobre em que consistiria a ciência da religião. Deus é aquele que há muito tempo é evocado pelos homens por diversas razões, muitas vezes de tal forma a dar um sentido para a vida daqueles que nele crêem, outras vezes surgindo como explicação para a origem do universo ou, ainda, Deus é aquele que julgará a todos e decidirá o destino dos homens após a morte. Deus ainda é amiúde definido como sendo uma força, uma energia, ou a própria natureza. Para muitos, Deus é pai. Como se sabe, a maioria dos países ocidentais possuem raízes religiosas predominantemente católicas, e não se pode negar que a religião exerceu e continua exercendo poder sobre os homens. É certo que o poder da Igreja em muito já decaiu, mas nos dias de hoje pode-se observar um crescimento muito grande da força evangélica, expressa através da quantidade de igrejas e templos cada vez mais numerosos nas ruas das cidades brasileiras. É importante observar que tal movimento religioso ultrapassa as portas das igrejas, fazendo-se presente na casa das pessoas, com o objetivo de estudar a Bíblia, pregar o Evangelho e louvar a Deus. Além disso, são organizados retiros evangélicos para os fins-de-semana e feriados e é comum que os adeptos a tais religiões (ou seitas, como alguns podem as denominar) frequentem a igreja várias vezes por semana. Assim, diversas atividades passaram a ser desenvolvidas pelos evangélicos, inclusive o carnaval para Cristo, as caminhadas para Cristo, fora os vários atletas que se auto intitulam como "atletas de Cristo", pois afirmam jogar em nome do Senhor Jesus Cristo e para a glorificação de Deus. Não há dúvida que várias seitas, ou filosofias de vida, ou simplesmente crenças em alguém ou em alguma coisa, estão sempre surgindo, e muitas pessoas chegam a ser mesmo ecléticas no que acreditam, tentando às vezes unir o que consideram melhor de cada religião e dizendo formar a sua própria. Mas o que realmente vem sendo um dado alarmante, é a quantidade de evangélicos, que parece se multiplicar tal como na multiplicação dos pães. Chega a ser uma multiplicação quase explosiva. Do que será que isto vem nos dizer? Será que as pessoas já não vêem mais sentido em suas vidas mergulhadas no materialismo capitalista? Será que os valores morais têm mudado tanto a ponto das pessoas quererem se apoiar numa antiga moral, clara, tradicional e mesmo rígida, expressa de forma resumida mas intensa nos 10 Mandamentos das Leis de Deus? Será que outros temem a chegada do ano 2.000 como sendo o símbolo do final dos tempos? Uma coisa é certa: os evangélicos estão aí, por toda a parte. É interessante observar o comportamento totalmente diferenciado entre católicos e evangélicos. Tem-se a impressão que a maioria dos católicos praticantes tem a religião apenas como um dos aspectos, entre outros vários, que fazem parte de suas vidas. Sendo assim, eles acordam, vão trabalhar, almoçam, voltam para a casa, à noite às vezes rezam antes de dormir e, no domingo de manhã, vão à missa. Depois voltam para a casa, vão almoçar com a família. Não quero aqui dizer que todos os católicos sejam assim, visto que muitos não têm nem família, nem casa, nem trabalho. Mas é fato observável que uma grande quantidade de católicos levam uma vida semelhante a esta descrita acima. Em contrapartida, apresenta-se um comportamento mais radical por parte dos evangélicos. A impressão que se tem é que a religião e Deus são a base e o pano de fundo de tudo o pode fazer parte da vida de alguém. Assim, vários deles acordam duas horas mais cedo para fazer suas orações, levantam para tomar um banho e louvam a Deus enquanto estão embaixo do chuveiro. Se forem tomar a café da manhã com a família, um dos seus membros deve fazer uma oração de agradecimento a Deus pelo alimento que está sobre a mesa, pedindo a benção de Deus para o restante do dia. No trabalho, alguns terão como principal objetivo não a satisfação profissional ou o salário do final do mês, mas alegarão estar ali para a obra do Senhor Jesus Cristo, para levar o evangelho a seus colegas de trabalho, vestindo camisetas que falam de Deus, muitas vezes realizando estudos bíblicos na hora do almoço, e sentindo-se intensamente preocupados quando seus colegas ainda não aceitaram o que lhes é pregado. Geralmente são pessoas bem persistentes, apenas se contentando quando conseguem levar os outros à conversão religiosa, ou seja, o cristão deve entregar sua vida a Deus e procurar sempre seguir a vontade divina. As moças não devem usar roupas sensuais, os rapazes não podem se masturbar, a mulher deve ser submissa ao homem e, é lógico, a monogamia acima de tudo. Muitos alegam que Deus criou um homem para uma mulher e, por esta razão, sexo é só depois do casamento, devendo haver fidelidade sexual, e estando interditado de se cobiçar a mulher do próximo. Quero com isto dizer que a vida dos evangélicos estão imersas quase que 24 horas por dia em suas crenças e atos. Se esta imersão não ocorre, pode-se afirmar que ela é pregada como sendo idealmente desejada pela comunidade cristã. Freud (1930, p. 82) comenta que "isso equivale a dizer que se trata do sentimento de um vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo". Procurou-se até aqui introduzir o leitor numa breve reflexão sobre o que é possível perceber como presente em nossa sociedade atual no que concerne ao movimento evangélico. Como foi dito, pessoas adeptas a este movimento levam suas crenças ao ambiente de trabalho, causando uma modificação neste ambiente. Tal percepção se tornou um objeto de reflexão e fonte para o início de uma discussão a respeito deste assunto, tendo em vista que cabe ao psicólogo do trabalho (podendo este ser denominado de psicólogo organizacional) compreender as relações entre os indivíduos que fazem parte da organização. Por que então não discutir o aspecto religioso do ser humano e a forma que este pode tomar nas relações de trabalho? Para a exploração de tal assunto, tomar-se-á emprestado de Freud alguns conceitos por ele desenvolvido em sua obra. Freud (1927, p. 17) comenta que "embora a humanidade tenha efetuado avanços contínuos em seu controle sobre a natureza, podendo esperar outros ainda maiores, não é possível estabelecer com certeza que um progresso semelhante tenha sido feito no trato dos assuntos humanos". Tal afirmação leva-nos a pensar nos grandes avanços tecnológicos atingidos nos últimos anos, na eficácia dos instrumentos de trabalho e na velocidade com que os dados são hoje processados. Isto é o reflexo último do domínio que o homem tem tido sobre os recursos naturais. Mas a impressão que se tem é que o homem vai cada vez mais desenvolvendo suas potencialidades racionais, de pensamento, ou seja, suas potencialidades cognitivas, mas que seu lado emocional continua mais do que nunca primitivo, conservado em sua forma primeva. O homem não acompanha emocionalmente no mesmo ritmo as evoluções tecnológicas que alcançou. E parece que este avanço tecnológico não pára, e um hiato cada vez maior vai se formando entre a essência emocional do homem e aquilo que ele cria ou é capaz de criar. O que fazer? Procurar parar com tal avanço tecnológico e começar a trabalhar mais as questões humanas que permeiam as relações? Talvez esta afirmação não seja nada mais, nada menos, do que um ideal utópico, visto que é certo que estamos mergulhados em um sistema capitalista que não nos permite realizar de forma simples tal mudança. Mas o desespero humano parece grande, e algumas pessoas têm buscado auxílio, seja com psicólogos, seja em Igrejas. Não bastando esta hiância entre as instâncias emoção e razão, um outro aspecto se faz igualmente importante de ser abordado, e trata-se da dificuldade em si da vida em comunidade. Conforme Freud (1927, p.16), os homens sentem "como um pesado fardo os sacrifícios que a civilização deles espera, a fim de tornar possível a vida comunitária". Freud (1927, p.17 e 18), um pouco mais adiante, afirma que "a questão decisiva consiste em saber se, e até que ponto, é possível diminuir o ônus dos sacrifícios pulsionais impostos aos homens, reconciliá-los com aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação". Sabe-se que, sob o ponto de vista da psicanálise, o ser humano conserva pouco (para não ser radical e dizer que na realidade ele não conserva nada) de suas características instintuais. O homem, desde o momento do seu nascimento, passa por um processo de humanização e de aprendizagem de diferentes modos de satisfação que variam qualitativamente de cultura para cultura, de família para família, de pessoa para pessoa. Ou, seja, não se trata de instinto porque não é inato e nem comum a todos os seres desta espécie "animal". Mas o sofrimento para a adaptação à realidade é geral. Parece mesmo que o homem necessita de gratificações, de recompensas pela renúncia temporária de determinadas satisfações pulsionais. Freud comenta (1927, p. 18) que "é impossível dispensar a coerção no trabalho da civilização, já que as massas são preguiçosas e pouco inteligentes; não têm amor à renúncia pulsional e não podem ser convencidas pelo argumento de sua inevitabilidade". Parece que também é neste sentido que algumas diferenças hierárquicas se acentuam, já que a "massa" é controlada por uma minoria. Freud (1927, p. 18) afirma, desta forma, que "só através da influência de indivíduos que possam fornecer um exemplo e a quem reconheçam como líderes, as massas podem ser induzidas a efetuar o trabalho e a suportar as renúncias de que a existência depende. Em seguida, considera que "tudo ocorrerá bem se estes líderes forem pessoas com uma compreensão interna (insight) superior das necessidades da vida, e que se tenham erguido à altura de dominar seus próprios desejos pulsionais". Freud (1927, p. 18) afirma que "existem duas características humanas muito difundidas, responsáveis pelo fato de os regulamentos da civilização só poderem ser mantidos através de certo grau de coerção, a saber, que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões". Este autor comenta adiante (1927, p.19) que "provavelmente uma certa percentagem da humanidade permanecerá sempre associal; se, porém, fosse viável simplesmente reduzir a uma minoria a maioria que hoje é hostil à civilização, já muito teria sido realizado - talvez tudo o que pode ser realizado". Uma experiência de estágio em psicologia do trabalho no Hospital de Clínicas de Curitiba tornou possível perceber com mais clareza de que forma a satisfação pulsional dos funcionários ali presentes impedem que o trabalho flua de maneira prazerosa e adequada para a realização de um trabalho harmonioso em grupo. A começar, as escolhas profissionais de cada um já refletem, mesmo que parcialmente, como funciona o aparelho de gozo de cada sujeito. Poder-se-ia, por exemplo, submeter alguns médicos a uma entrevista, perguntando-lhes por que optaram por esta profissão. Alguns diriam que querem ajudar as pessoas; outros, que almejam salvar vidas, mas muitos talvez fariam alusão ao poder do médico, ao status que tal profissão tem em nossa sociedade. Freud (1927, p. 24) aponta que "as pessoas sempre estarão prontamente inclinadas a incluir entre os predicados psíquicos de uma cultura os seus ideais, ou seja, suas estimativas a respeito de que realizações são mais elevadas e em relação às quais se devem fazer esforços por atingir". Segundo ele, "a satisfação que o ideal oferece aos participantes da cultura é, portanto, de natureza narcísica; repousa em seu orgulho pelo que já foi alcançado com êxito". Estudos já comprovaram que a roupa branca ou o jaleco branco são símbolos que suscitam admiração, respeito, submissão e até medo por parte de outras categorias profissionais e por parte dos pacientes. Estes sentimentos não são despertados pelo tipo da roupa em si, mas pelo fato de que desde há muito tempo a força médica, a prepotência médica e o lugar que a classe médica ocupa nas hierarquias foram despertando, nas pessoas que com eles mantêm algum contato, determinados sentimentos como os descritos acima e, por conseguite, a roupa branca passou a ser símbolo que desperta tais sentimentos, pelo simples emparelhamneto de estímulos. Com isto pretende-se dizer que algumas pessoas gozarão psiquicamente nesta posição de poder, enquanto que outras gozarão numa posição de submissão. Então, mesmo que se defenda no discurso explícito os objetivos de trabalho de uma organização, certamente haverá dificuldade para que os mesmos sejam atingidos pelo simples fato de que as pessoas ali envolvidas são seres humanos, cada um com sua maneira particular de satisfazer-se pulsionalmente, o que gerará, desta forma, uma rede pulsional cheia de "nós críticos" decorrentes do intricamento das relações. Contudo, tendo em vista a particularidade do ser humano e sua complexidade, não se descobriu ainda se há alguma possibilidade de desatar estes nós. Procurou-se fazer um trabalho de dinâmicas de grupo com a equipe de enfermagem deste hospital, a fim de trazer mais consciência sobre as variáveis que vêm corroborando para a manutenção ou agravamento de determinados problemas e para que o grupo pudesse, através desta conscientização, instrumentalizar-se na busca de soluções para suas queixas. Mas a experiência foi mostrando que, embora tenham alguns problemas na instituição que sejam desencadeadores de estresse ou de insatisfação, parece ainda mais cômodo permanecer num estado homeostático e não mexer na estrutura dos problemas. Sintomas nos relacionamentos são frequentes, como por exemplo, a ocorrência de boicotes às normas institucionais (relação do funcionário com a instituição) ou então a comunicação não eficaz entre os colegas de trabalho como consequência de sentimentos tais como a inveja, sentimentos de inferioridade, injustiça ou qualquer outro alimentado pela produção imaginária de cada um. Segundo Freud (1927, p. 19), "o homem se acha aparelhado com as mais variadas disposições pulsionais, cujo curso definitivo é determinado pelas experiências da primeira infância". Assim sendo, torna-se inviável fazer uma clínica psicológica ou psicanalítica para os funcionários da organização - primeiramente porque esta tarefa não cabe ao psicólogo organizacional e, em segundo lugar, porque para a concretização de tal trabalho (clínico), é necessária a implicação dos sujeitos a serem analisados - , mas isto não impede que estejamos atentos e abertos para compreender os fenômenos humanos e organizacionais. Os homens podem não ser espontaneamente amantes do trabalho, mas é certo que algumas recompensas, tais como o dinheiro no final do mês ou algumas regalias obtidas dentro da própria instituição (tal como continuar trabalhando no setor mais "leve" do hospital), são fatores que gradativamente foram e continuam propiciando uma convivência e um trabalho em comunidade. Outro fator que contribui para o vida em sociedade é a aparição de uma instância denominada superego. Freud (1927, p. 22) comenta que a mente humana passou por alguns desenvolvimentos desde os tempos primitivos. Ele afirma que "acha-se em consonância com o curso do desenvolvimento humano que a coerção externa se torne gradativamente internalizada, pois um agente mental especial, o superego do homem, a assume e a inclui entre seus mandamentos. Toda criança apresenta este processo de transformação; e só por este meio que ela se torna um ser moral e social". Pretende-se, neste momento, entrar um pouco mais aprofundadamente no assunto que se refere às idéias religiosas, já que se começou a falar de mandamentos e moral. Freud (1927, p. 29) comenta que "um homem transforma as forças da natureza não simplesmente em pessoas com quem pode associar-se como seus iguais, mas lhes concede o caráter de um pai. Transforma-as em deuses, seguindo nisso, não apenas um protótipo infantil, mas um protótipo filogenético". Em relação ao protótipo infantil, Freud (1927, p. 28) diz que "já uma vez antes, nos encontramos em semelhante estado de desamparo: como crianças de tenra idade em relação a nossos pais. Tínhamos razões para temê-los, especialmente nosso pai; contudo, estávamos certos de sua proteção contra os perigos que conhecíamos. Assim, foi natural assemelhar as duas situações". Parece que Deus seria então nada mais do que uma produção imaginária dos homens. Na impossibilidade de que o pai terreno suprisse a todo instante as necessidades de amor e proteção de seus filhos, estes puderam, através dos seus imaginários, criar para si seus pais ideais. Não é à toa que Deus, para alguns, são pais extremamente amorosos, enquanto que para outros, são pais castradores, que funcionam com lei a todo instante, e são às vezes, acima de tudo, pais punidores. Em certa oportunidade pude conversar com uma pessoa que me relatava um pouco de sua história. Trata-se de um adolescente, J., que na época tinha 19 anos, e relatara que seu pai era maníaco-depressivo. Quando seu pai se encontrava em fase de mania, trabalhava muito e a família ficava bem financeiramente. Este homem, quando em mania, julgava estar bem, já que somente a depressão era por ele sentida e descrita como incômoda. Muitas vezes, após o período de mania, vinha um período "normal". Então considerava que estava bem e não precisava mais tomar medicamentos. Logo após, seguia-se um episódio depressivo. E esta sequência de fatos se repetiu por numerosas vezes. J. revoltava-se com o fato de que o pai resolvia parar de tomar seus medicamentos, pois a depressão deste abalava a família inteira, tanto em termos emocionais como financeiros. J. tinha o hábito de ia à Igreja umas duas vezes por semana e seguia incontestavelmente os mandamentos de Deus quando seu pai terreno agia conforme o que ele considerava correto: tomar remédios e estar com disposição para trabalhar. Quando seu pai se rebelava contra as instruções médicas e da família, J. se rebelava contra seus pais - seu pai terreno e Deus - e deixava de ir à Igreja, e fazia coisas que considerava como pecado. Este é um breve exemplo de como Deus é a projeção de um protótipo infantil predominantemente paterno. Segundo Freud (1927, p. 29), "os deuses mantêm uma tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que a vida civilizada em comum lhes impôs". Em seguida, Freud (1927, p. 30) comenta que "criou-se um cabedal de idéias nascido da necessidade que tem o homem de tornar tolerável seu desamparo, e construído com o material das lembranças do desamparo de sua própria infância e da infância da raça humana. Pode-se perceber claramente que a posse destas idéias o protege em dois sentidos: contra os perigos da natureza e do Destino, e contra os danos que o ameaçam por parte da própria sociedade humana". Tamanha a fragilidade da raça humana, constituída por seres incapazes de se reconhecerem como mortais, pelo simples fato de que não puderam experimentar o registro da morte. O homem , desta forma, nega sua mortalidade e, quando fala em morte, é para se referir à vida que há pós esta morte. Talvez exista esta vida pós-morte, talvez não. Mas a sociedade cristã e outras, insistem em considerar que a história de cada homem não pode se resumir a um início, meio e fim terrenos. Freud (1927, p. 37), ao discutir a significação psicológica das idéias religiosas, afirma que estas "são em ensinamentos e afirmações sobre os fatos e condições de realidade externa (ou interna) que nos dizem algo que não descobrimos por nós mesmos e que reivindicam nossa crença". Segundo Freud (1927, p. 43), as idéias religiosas, "proclamadas como ensinamentos, não constituem precipitados de experiência ou resultados finais de pensamento: são ilusões, realizações do mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo da sua força reside na força desses desejos". Mais adiante ele afirma (p. 43) que "constitui enorme alívio para a psique individual se os conflitos de sua infância, que surgem do complexo paterno - conflitos que nunca superou inteiramente - , são delas retirados e levados a uma solução universalmente aceita". A impressão que se tem é que, assim como existem drogas socialmente aceitas, como o cigarro e o álcool, estas crenças (religiosas) coletivas que se assemelham a delírios em "massa", também o são. O delírio, se não for despertado por drogas, é um dos sintomas reconhecidos por médicos e psicólogos como típico da loucura, ou melhor, da psicose. Mas é verdade que os delírios coletivos raramente são encarados como sinal de loucura. É realmente como se o homem pudesse compreender, devido ao registro no próprio inconsciente, de experiências pregressas de desamparo, a necessidade humana de crer em determinadas ilusões que venham a apaziguar os conflitos infantis que se fazem presente a todo instante. Segundo Freud (1927, p. 44) "podemos chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e, assim procedendo, desprezamos suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação". Em seguida, afirma que "não poucas pessoas encontram sua única consolação nas doutrinas religiosas, e só conseguem suportar a vida com o auxílio delas". (1927, p. 48) Alguns homens definitivamente não se ancoram em tais ilusões. Freud é simplesmente simples e objetivo ao afirmar que "constituiria vantagem indubitável se abandonássemos Deus inteiramente e admitíssemos com honestidade a origem puramente humana de todas as regulamentações e preceitos da civilização". (1927, p. 55). Freud (p. 57) afirma que "a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai". Na página seguinte ele afirma que "se, por um lado, a religião traz consigo restrições obsessivas, exatamente como, num indivíduo, faz a neurose obsessiva, por outro, ela abrange um sistema de ilusões plenas de desejo juntamente com um repúdio da realidade, tal como não encontramos, de forma isolada, em parte alguma senão em um estado de confusão alucinatória aguda, num estado de confusão alucinatória beatífica". Freud desenvolve a idéia de que a aceitação da neurose universal dos crentes devotos poupa-lhes o trabalho de elaborar uma neurose pessoal. Parece, desta forma, que qualquer sujeito (crente devoto) que inicie uma análise, terá então que colocar em questão todas estas ilusões religiosas e voltar o foco de atenção para sua própria história. É possível questionar até que ponto tais pessoas são sujeitos analisáveis ou não, tendo em vista a rigidez das formas de pensamento e o alto grau de dogmatismo. Tal como questionou Freud (1927, p. 62): "Como podemos esperar que pessoas que estão sob domínio de proibições de pensamento atinjam o ideal psicológico, o primado da inteligência?" Freud, num tom um pouco sarcástico, afirma que:
O infantilismo da civilização talvez nunca seja superado por completo, visto que as repetições de determinadas condutas em nossa vida refletem justamente, na abordagem psicanálítica, a não elaboração, a não resolução do complexo edipiano. Mas parece que algumas elaborações, como nos mostra a prática analítica, são possíveis de serem realizadas. Freud (1927, p. 69), neste sentido, afirma: "Acreditamos ser possível ao trabalho científico conseguir um certo conhecimento da realidade do mundo, conhecimento através do qual podemos aumentar nosso poder e de acordo com o qual podemos organizar nossa vida". Freud (1930, p. 94) comenta que "mais uma vez, só a religião é capaz de resolver a questão do propósito da vida. Dificilmente incorreremos em erro ao concluirmos que a idéia de a vida possuir um propósito se forma e desmorona com o sistema religioso". Macedo (1989), a este respeito, discute que em qualquer sociedade, a religião define um modo de ser no mundo em que transparece a busca de um sentido para a existência. Nos momentos em que a vida mais parece ameaçada, o apelo religioso se torna mais forte. As crenças religiosas seriam, para os que as adotam, formas de conhecimento e teorias da natureza e do universo e do homem. As práticas religiosas são, portanto, relacionadas frequentemente com a procura de verdades que, segundo se imagina, os homens devem conhecer para seu próprio bem e que estão acima do conhecimento comum ou da educação puramente racional. Ainda segundo esta autora, o homem religioso esforça-se por permanecer o máximo do tempo possível num universo sagrado, ao contrário do homem privado do sentimento religioso, que deseja viver, ou vive, num mundo des-sacralizado. Retomando neste momento a questão da religião no ambiente de trabalho, pode-se, através de observações, perceber que diferentes universos se encontram, entre eles o universo religioso e o não-religioso, podendo estes se harmonizar ou se chocar. Por exemplo, uma pessoa religiosa pode ser vista, pelos funcionários da empresa onde trabalha, como um exemplo de vida. Por outros, pode ser vista como alguém bitolado e alienado. O problema ocorre quando alguém deseja sobrepor suas verdades às verdades de outros. É como entrar em discussões sobre política e futebol. Mas uma problemática importante a ser levantada é saber até que ponto um psicólogo organizacional poderia intervir quando, por exemplo, em um grupo operativo, surgissem questões da ordem religiosa. Se o psicólogo por um cético e tiver sua verdade calcada, por exemplo, na visão psicanalítica acima apresentada, parece que a ética falará então de que ele não deverá impor sua verdade à daqueles com quem trabalha. Não se trata de uma guerra entre as forças do bem e as forças do mal, de cristãos contra pagãos. Ao psicólogo caberia então somente ouvir as verdades de cada sujeito e mostrar-lhes como o intrincamento destas verdades estão sendo fatores facilitadores ou dificultadores nas relações de trabalho necessárias? Talvez sim. Mas certamente alguns psicólogos terão que ter sua função organizacional de uma forma muito clara para si mesmos, para que não se caia na tentação de provar aos outros a verdade de sua verdade. Parece interessante e importante que se possa discutir em outras oportunidades sobre o que seria a ciência da religião, ou seja, como seria a compreensão no nível da ciência do fenômeno religioso. Como se sabe, o homem, desde os seus primórdios, efetiva rituais para manter uma comunicação com o que ele chama de "sagrado". É no sentido de compreender esta comunicação, os fenômenos que a religião introduz no seio da sociedade e a relação homem x sagrado que ciências e filosofias tais como a sociologia, antropologia, psicologia, teologia e outras utilizam seus cabedais teóricos para cientificamente os analisarem. Desta forma, as ciências da religião são na verdade um conjunto formado por várias outras com o intuito de estudarem a religião e suas consequências na mentalidade humana. Já a ciência (no singular) da religião seria um tipo de estudo em que se absorve diversos métodos da ciência que estudam a religião aglutinando-as em um único trabalho. Embora se fale em ciência da religião, não é novidade dizer que até os cientistas, quando não encontram explicações para determinados fenômenos, atribuem sua causa a Deus. Crentes orgulhosamente afirmam que "até os cientistas estão se rendendo à onipotência de Deus, e têm se convertido em nome do Senhor Jesus Cristo". Tal é a onipotência humana que não permite aos homens a humildade de ficar na carência de respostas que dêem sentido às suas vidas e ao universo. Juntando-se a Deus, talvez adquirirão também, pela identificação e fusão com ele, poderes divinos e a ilusão de que tudo na vida é tão certo como dois mais dois são quatro. Que futuro terão tais ilusões? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FREUD, Sigmund. (1927) O futuro de uma ilusão. In: Edição Standart Brasileira das FREUD, Sigmund. (1930 [1929]) O mal-estar na civilização. In: Edição Standart MACEDO, Carmem Cinira. A imagem do Eterno: religiões no Brasil. 5ª ed. São
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