Lembrar-me
Da Defesa da Teoria à Construção do Dogma PDF Imprimir E-mail
Arquivado em:  Psicologia
Escrito por Bernardo Rieux   
Qui, 14 de Abril de 2005 18:00

Da Defesa da Teoria à Construção do Dogma

Alberto Manuel Quintana

Artigo publicado na revista Insight, editoral Lemos, agosto/1996, e
aqui sob a autorização do autor.

O autor avalia a formação dogmática na Psicologia: a pretensão de as correntes possuirem um caráter de verdade única quando, na verdade, o reconhecimento mais atual é o de que nelas existem lacunas, bolsões não científicos.

Lembro que meu curso de graduação em Buenos Aires foi marcado pelos intermináveis confrontos entre as diferentes linhas teóricas. Cada uma era colocada como sendo a possuidora do verdadeiro caminho para produzir os efeitos esperados no paciente. Estas brigas tomavam as mais diferentes formas, desde discussões em mesas-redondas até as críticas veladas (e por vezes não tão veladas) que um professor fazia a outro professor na sala de aula.

Acredito que isto não é algo que tenha acontecido somente na minha graduação. Este confronto parece estar presente em muitos cursos de psicologia, independente de ele ser uma linha comportamental, humanista, psicanalítica, etc. O dogmatismo de seus defensores leva a que seus procedimentos sejam semelhantes àqueles apresentados por grupos religiosos, nos quais existe a necessidade de converter, de demonstrar ao outro, e desta maneira a si mesmo, que se possui a teoria verdadeira, a original, a única que é cópia fiel do real. É esta teoria que é o fato.

Com isto, não estou sugerindo aderirmos a um posicionamento eclético em que se diz não se pertencer a nenhuma linha em especial, uma vez que deve-se tomar as coisas positivas que cada uma tem. Não é esta a minha intenção, até porque ambas as posições têm algo em comum, em ambas é impossível refletir sobre a própria teoria e suas relações com a prática; na primeira porque, ao ser um dogma, uma verdade universal na qual a idéia passa a ser tomada pelo real, se fecha toda possibilidade de questionamento. Qualquer assinalamento de uma contradição na teoria, de alguma falha, passa a ser visto como uma heresia, e quem a proferiu, como um inimigo a ser combatido. Já no segundo caso, a falta de pensamento crítico ocorre pelo simples fato de não ter teoria alguma sobre a qual possa se refletir. Tudo é a mesma coisa. Juntam-se conceitos dos mais contraditórios sem que isso os leve a nenhum questionamento, uma vez que não se tem desde onde questionar. Os que optam por este posicionamento desconhecem o que é conflito. Eles nunca se perdem pelo simples fato de não saberem para onde vão. Como diz uma frase popular: Todos os ventos são bons para quem não tem rumo.

Ainda que a afirmação de uma verdade única seja algo que está mudando nas Ciências Humanas, alguns grupos, lamentavelmente, ainda aspiram a se igualarem às Ciências Naturais. Porém, enquanto existe este movimento querendo dar um caráter de verdade única, de transformar as Ciências Humanas em Ciências Exatas, nestas últimas o caminho é justamente o inverso, afastando-se da pretensão de obter uma verdade absoluta e sim pensando em probabilidades.

Este caráter de verdade última, do qual se pretendiam revestir as diferentes teorias psicológicas, é questionado por uma nova visão da ciência, em que se aceita dentro dela a existência de lacunas, de bolsões não científicos.

O que é interessante na epistemologia contemporânea é o reconhecimento, por parte de autores muito diferentes, de que há não-cientificidade no seio das teorias científicas. É Popper que, embora procurando desesperadamente a demarcação entre ciência e não-ciência, reconhece fundamentalmente que ná postulados metafísicos e preconceitos no seio das teorias científicas - o postulado de determinismo universal, o princípio da causalidade etc. - isto é, um indemonstrável necessário à demonstração (Morin, 1983:17)

Quer dizer que no interior da ciência encontramos pressupostos que seriam muito mais preconceitos do que teorias, e dentre eles podemos colocar a teoria do desenvolvimento na antropologia, em nome da qual se destruíram tantas culturas. Baseados no preconceito etnocentrista de que nossa sociedade é mais evoluída do que as outras, no sentido de que nossa sociedade teria passado por um processo histórico, enquanto as sociedades chamadas primitivas estariam detidas no tempo, seriam sociedades sem história que ficaram fixadas num determinado período de sua evolução. Quantas vezes sociedades tribais foram forçadas a renunciar a suas crenças e valores em prol de um pretenso progresso? Isso também pode ser visto na nossa área na célebre equação primitivo=criança=doente mental. O pensamento do psicótico era, e ainda é, igualado ao pensamento indígena.

O preconceito também pode ser encontrado na pretensa universidade presente nas diferentes teorias psicológicas, pressupondo assim que esta teoria pode dar conta de qualquer situação, independente da época e do contexto sócio-cultural em que se apresente.

Devemos assim reconhecer que os diversos conhecimentos de uma determinada cultura sempre vão estar perpassados por suas crenças, formas de vida, valores, visão de mundo, etc.. Contudo, que existam determinantes culturais no conhecimento não significa que ele seja verdadeiro ou falso, o que por outra parte é uma falsa questão.

Como coloca Morin: ...a cientificidade é a parte emersa de um iceberg profundo de não-cientificidade. A descoberta de que a ciência não é totalmente científica é, a meu ver, uma grande descoberta científica (Morin, 1983:11-8).

É uma grande descoberta científica, pois permite que as afirmações ditas científicas se liberem de seu dogmatismo. Quebra a estereotipia que separa mito e ciência, preconceito e verdade confirmada. O caráter fictício destas divisões fica claro em relação à idéia de que a Terra se movimenta. Idéia que, após Aristóteles e Ptolomeu, foi ignorada e considerada crença e só foi resgatada por Copérnico, mostrando assim como de um preconceito se pode construir ciência (Feyerabend, 1989).

Isto nos coloca frente à impossibilidade de continuar tentando colocar a ciência como possuidora de uma verdade inquestionável, produto de sua desvinculação social, que lhe permite uma neutralidade, uma assepsia em relação ao mundo que a rodeia. Como se a ciência fosse produzida num bloco cirúrgico onde estaria a salvo das possíveis contaminações do ambiente. Porém, é nesta estratégia de mostrar uma ciência asséptica que fica mais clara sua vinculação política. Pois, ao negar seu componente ideológico e colocar-se como a afirmação privilegiada da verdade, desqualifica outras formas de compreensão do mundo, ao mesmo tempo em que se deixa de ser teoria para se transformar em doutrina.

A ideologia é teoria quando é aberta, e aceita ser discutida, ou seja, refutada à prova dos dados fenomenais e do raciocínio. A ideologia é doutrina quando se fecha em si mesma, se torna imune a toda irrupção do real fenomenal, do acontecimento não conforme que, então, se torna o inimigo... (Morin, 1982:244)

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Última atualização em Sáb, 29 de Agosto de 2009 12:37
 
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