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Da Defesa da Teoria à Construção do Dogma PDF Imprimir E-mail
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Escrito por psicopr   
Sex, 15 de Abril de 2005 17:27

Da Defesa da Teoria à Construção do Dogma

Alberto Manuel Quintana

 

Artigo publicado na revista Insight, editoral Lemos, agosto/1996, e
aqui sob a autorização do autor.

 

Resumo: O autor avalia a formação dogmática na Psicologia: a pretensão de as correntes possuirem um caráter de verdade única quando, na verdade, o reconhecimento mais atual é o de que nelas existem lacunas, bolsões não científicos.

Lembro que meu curso de graduação em Buenos Aires foi marcado pelos intermináveis confrontos entre as diferentes linhas teóricas. Cada uma era colocada como sendo a possuidora do verdadeiro caminho para produzir os efeitos esperados no paciente. Estas brigas tomavam as mais diferentes formas, desde discussões em mesas-redondas até as críticas veladas (e por vezes não tão veladas) que um professor fazia a outro professor na sala de aula.

Acredito que isto não é algo que tenha acontecido somente na minha graduação. Este confronto parece estar presente em muitos cursos de psicologia, independente de ele ser uma linha comportamental, humanista, psicanalítica, etc. O dogmatismo de seus defensores leva a que seus procedimentos sejam semelhantes àqueles apresentados por grupos religiosos, nos quais existe a necessidade de converter, de demonstrar ao outro, e desta maneira a si mesmo, que se possui a teoria verdadeira, a original, a única que é cópia fiel do real. É esta teoria que é o fato.

Com isto, não estou sugerindo aderirmos a um posicionamento eclético em que se diz não se pertencer a nenhuma linha em especial, uma vez que deve-se tomar as coisas positivas que cada uma tem. Não é esta a minha intenção, até porque ambas as posições têm algo em comum, em ambas é impossível refletir sobre a própria teoria e suas relações com a prática; na primeira porque, ao ser um dogma, uma verdade universal na qual a idéia passa a ser tomada pelo real, se fecha toda possibilidade de questionamento. Qualquer assinalamento de uma contradição na teoria, de alguma falha, passa a ser visto como uma heresia, e quem a proferiu, como um inimigo a ser combatido. Já no segundo caso, a falta de pensamento crítico ocorre pelo simples fato de não ter teoria alguma sobre a qual possa se refletir. Tudo é a mesma coisa. Juntam-se conceitos dos mais contraditórios sem que isso os leve a nenhum questionamento, uma vez que não se tem desde onde questionar. Os que optam por este posicionamento desconhecem o que é conflito. Eles nunca se perdem pelo simples fato de não saberem para onde vão. Como diz uma frase popular: Todos os ventos são bons para quem não tem rumo.

Ainda que a afirmação de uma verdade única seja algo que está mudando nas Ciências Humanas, alguns grupos, lamentavelmente, ainda aspiram a se igualarem às Ciências Naturais. Porém, enquanto existe este movimento querendo dar um caráter de verdade única, de transformar as Ciências Humanas em Ciências Exatas, nestas últimas o caminho é justamente o inverso, afastando-se da pretensão de obter uma verdade absoluta e sim pensando em probabilidades.

Este caráter de verdade última, do qual se pretendiam revestir as diferentes teorias psicológicas, é questionado por uma nova visão da ciência, em que se aceita dentro dela a existência de lacunas, de bolsões não científicos.

O que é interessante na epistemologia contemporânea é o reconhecimento, por parte de autores muito diferentes, de que há não-cientificidade no seio das teorias científicas. É Popper que, embora procurando desesperadamente a demarcação entre ciência e não-ciência, reconhece fundamentalmente que ná postulados metafísicos e preconceitos no seio das teorias científicas - o postulado de determinismo universal, o princípio da causalidade etc. - isto é, um indemonstrável necessário à demonstração (Morin, 1983:17)

Quer dizer que no interior da ciência encontramos pressupostos que seriam muito mais preconceitos do que teorias, e dentre eles podemos colocar a teoria do desenvolvimento na antropologia, em nome da qual se destruíram tantas culturas. Baseados no preconceito etnocentrista de que nossa sociedade é mais evoluída do que as outras, no sentido de que nossa sociedade teria passado por um processo histórico, enquanto as sociedades chamadas primitivas estariam detidas no tempo, seriam sociedades sem história que ficaram fixadas num determinado período de sua evolução. Quantas vezes sociedades tribais foram forçadas a renunciar a suas crenças e valores em prol de um pretenso progresso? Isso também pode ser visto na nossa área na célebre equação primitivo=criança=doente mental. O pensamento do psicótico era, e ainda é, igualado ao pensamento indígena.

O preconceito também pode ser encontrado na pretensa universidade presente nas diferentes teorias psicológicas, pressupondo assim que esta teoria pode dar conta de qualquer situação, independente da época e do contexto sócio-cultural em que se apresente.

Devemos assim reconhecer que os diversos conhecimentos de uma determinada cultura sempre vão estar perpassados por suas crenças, formas de vida, valores, visão de mundo, etc.. Contudo, que existam determinantes culturais no conhecimento não significa que ele seja verdadeiro ou falso, o que por outra parte é uma falsa questão.

Como coloca Morin: ...a cientificidade é a parte emersa de um iceberg profundo de não-cientificidade. A descoberta de que a ciência não é totalmente científica é, a meu ver, uma grande descoberta científica (Morin, 1983:11-8).

É uma grande descoberta científica, pois permite que as afirmações ditas científicas se liberem de seu dogmatismo. Quebra a estereotipia que separa mito e ciência, preconceito e verdade confirmada. O caráter fictício destas divisões fica claro em relação à idéia de que a Terra se movimenta. Idéia que, após Aristóteles e Ptolomeu, foi ignorada e considerada crença e só foi resgatada por Copérnico, mostrando assim como de um preconceito se pode construir ciência (Feyerabend, 1989).

Isto nos coloca frente à impossibilidade de continuar tentando colocar a ciência como possuidora de uma verdade inquestionável, produto de sua desvinculação social, que lhe permite uma neutralidade, uma assepsia em relação ao mundo que a rodeia. Como se a ciência fosse produzida num bloco cirúrgico onde estaria a salvo das possíveis contaminações do ambiente. Porém, é nesta estratégia de mostrar uma ciência asséptica que fica mais clara sua vinculação política. Pois, ao negar seu componente ideológico e colocar-se como a afirmação privilegiada da verdade, desqualifica outras formas de compreensão do mundo, ao mesmo tempo em que se deixa de ser teoria para se transformar em doutrina.

A ideologia é teoria quando é aberta, e aceita ser discutida, ou seja, refutada à prova dos dados fenomenais e do raciocínio. A ideologia é doutrina quando se fecha em si mesma, se torna imune a toda irrupção do real fenomenal, do acontecimento não conforme que, então, se torna o inimigo... (Morin, 1982:244)

Desta maneira, as diferentes teorias científicas, no seu afã de objetividade, tentam excluir qualquer aspecto que possa interferir na sua pretensa neutralidade. Passam assim a adquirir um caráter de doutrina, em que precisam regenerar-se através de sua fonte, de seu fundador (Morin, 1983). Em nossa área, esta recitação quase litúrgica é muito fácil de ser encontrada: Freud disse... Klein disse... Lacan, no seminário X, aborda esta questão... O livro do mestre passa a ser uma referência bíblica, no sentido de que ele é a palavra através da qual se fala a verdade. Daí a necessidade de que sempre se fundamente qualquer trabalho na sua obra.

De fato, não existiria uma teoria neutra; ela sempre cria artificialmente um produto convencional, que é dado como natural, e assim, por detrás deste natural se consegue ocultar seu caráter ideológico (Barthes, 1986). Por exemplo, uma determinada linha psicológica toma a sua linguagem como natural, a única possuidora de sentido, a única que nos dá conta da real situação do paciente, ela é a projeção do real, o fato posto em palavras. Esta teoria é natural no sentido de que seria a descrição natural, lógica e portando única de, por exemplo, uma patologia. Enquanto que a linguagem utilizada por outras linhas seria caracterizada como uma invenção daquelas pessoas que a sustentam sem nenhuma outra ligação com o real, ela não seria natural e sim artificial, criada.

Desta forma, estes discursos dogmáticos se colocam à margem da cultura à qual pertencem, e assim, se pretendem sem nenhuma ligação sócio-política. Porém, paradoxalmente, sua própria pretensão de neutralidade, segundo a qual não estaria incluída na teoria uma determinada visão do mundo, coloca e desqualifica qualquer outro discurso sobre o funcionamento psíquico, tornando-o assim uma forte ferramenta ideológica.

Devemos ter presente que a impossibilidade de uma neutralidade do pesquisador, uma vez que ele faz parte do processo de pesquisa, não é uma prática exclusiva das Ciências Humanas, como observou Lévi-Strauss:

..las ciências físicas y las naturales se encuentran en la misma situación , ya que todo elemento de lo real es un objeto, objeto que da lugar a representaciones y cuya explicación integral tiene que dar cuenta simultánea de la estructura propia del objeto y de las representaciones a través de las cuales conocemos sus propriedades (1971:25).

Este é o mau do idealismo que acredita que o real pode deixar-se fechar na idéia e, desta maneira, confunde o mapa com o território (Morin, 1982).

Já não se trata, então, de procurar a verdade única, não se trata de escolher uma teoria porque ela é a verdadeira, mas sim de escolher uma teoria por uma questão de coerência em relação ao trabalho e às implicações ideológicas dessa teoria e de sua aplicação. Partindo da idéia de que em toda teoria existe uma determinada opção ideológica, a questão não é escolher uma por ela ser uma cópia do real, mas sim escolhê-la como uma opção ideológica, sabendo por que a estamos escolhendo e sendo conscientes de suas implicações, assumindo esta teoria como uma narrativa, entre outras, através da qual procuramos dar conta de um conjunto de situações.

Como já dissemos, esta perspectiva já vem sendo adotada em diferentes áreas das Ciências Humanas. Na História, por exemplo, existe uma tendência em que, deixando de lado a procura de um estatuto científico, a preocupação se concentra na construção de modelos rigorosos sem se importar com que os mesmos se perpetuem (Silva, 1993). O mesmo movimento pode se observar entre antropólogos que

se recusam doravante a trazer relações objetivas de seu 'terreno', mas empreenderam trazer romances. Eles querem, assim, testemunhar não de maneira verdadeira no sentido judiciário, e sim de maneira discutível, não apenas daquilo que aprenderam, mas também da maneira pela qual aquilo que aprenderam os transformou, o caráter patético de sua experiência que o ideal judiciário de objetividade os obriga a ocultar (Stengers, 1990:140).

Este caminho parece ser mais difícil para a psicologia. A aceitação desta posição cria uma problemática que nas outras áreas não se apresenta. O trabalho clínico se propõe produzir efeitos no seu paciente. Para que isto aconteça, se torna necessário que o terapeuta ocupe, em relação ao paciente, o lugar daquele que detém uma verdade, uma verdade que é fundamental para a cura. Porém, em que consiste esta cura? O que é que se pretende curar? Acredito que o papel da clínica seja a cura do que denomino de Feridas Simbólicas. Noutras palavras: o resgate de um sentido.

Torna-se necessário nos determos um pouco neste ponto. Como vimos anteriormente, não existe nenhuma teoria que dê conta do real, independente de esta teoria ser científica ou do senso comum, todas elas vão se igualar em que é impossível abranger o real nas suas malhas.

Tentarei deixar mais claro o que estou querendo dizer com isto. O animal, ao nascer, já traz no seu código genético uma forma única de registrar, de interpretar o mundo que o rodeia. Nesta forma unívoca, não existem espaços nem para mal-entendidos nem para criações, o significado é fixo. Tudo o que merece ser significado já vem com sua etiqueta na frente. Aos olhos do coelho, a cenoura já traz um carimbo na frente que diz comida. é em função disto que o coelho não tem conflitos, angústias, porém tambpouco arte. É um sistema de significação fechado. O ser humano, da mesma forma que o coelho precisa de um código através do qual interpretar o real, contudo, por ele nascer prematuro, estes códigos genéticos precisarão ser complementados pelo social, pela cultura. O mundo humano será construído pelo próprio homem. Estas construções simbólicas são fundamentais para o ser humano orientar-se no seu universo. Como falou Renato Mezan: Pensa-se porque pensar faz o mundo aparecer de uma maneira menos caótica, confusa e aflitiva do que quando estamos inteiramente mergulhados nele (Mezan, 1994:62).

Assim, se para o coelho a cenoura é boa para comer, para o homem a cenoura é boa primeiro para pensar e depois para comer (Lévi-Strauss, 1970).

Esta matriz interpretativa tão importante é, ao mesmo tempo, muito frágil e instável. Continuamente apresenta brechas através das quais o real se infiltra. Surge assim a ameaça à produção de sentido e portanto se faz necessária uma outra matriz que possibilite o seu restabelecimento. É nesta possibilidade de acesso a esta nova matriz de significação que vai estar a função da clínica: Não sei o que me passa; Não sei o que acontece comigo; a vida já não tem sentido para mim.

Saint-Exupéry, o autor de O Pequeno Príncipe, escreveu também um outro livro não tão conhecido mas muito interessante: Um sentido para a vida. Nele expressa muito bem o que estamos falando, quando diz:

A penitenciária existe onde se dão machadadas que não têm sentido, que não ligam aquele que as dá à comunidade dos homens (1972:157)

Portanto, se a função da clínica vai ser possibilitar essa nova matriz interpretativa, como isto se realiza?

Antes de responder, precisamos dar um pequeno rodeio. Na procura de uma neutralidade científica, inspirada numa visão positivista, procurou-se afastar ao máximo as influências que o terapeuta pudesse gerar no seu paciente. Na psicanálise isto encontra seu fundamento no seu criador, uma vez que Freud, desde o início da psicanálise, procurou dar a esta um status científico. Assim, em função de uma visão de ciência positivista, Freud se preocupou em obter uma testemunha fidedigna para afastar a psicanálise da metafísica e assim elevá-la ao nível de ciência. Nesta tarefa, dever-se-iam afastar todas as influências que o terapeuta-pesquisador poderia exercer sobre seu paciente-testemunha. Encontrávamo-nos, assim, frente a uma visão estereotipada da ciência, na qual, baseados num modelo das Ciências Naturais, pretende-se questionar a cientificidade de uma determinada terapêutica, por meio de apontar o que nela existiria de subjetivo, mostrando, desta maneira, a influência do pesquisador sobre o objeto pesquisado.

Freud se vai lançar à procura desta neutralidade ilusória. Desde então, o fantasma da sugestão passa a assombrar as sessões psicanalíticas e toda aquela ampla variedade de terapêuticas que de alguma forma tomam a psicanálise como referência. Tendo como orientação este modelo de ciência baseada em Descartes, na procura do almejado conhecimento objetivo, tenta-se excluir o sujeito no processo científico do conhecimento, esquecendo-se de que: Não há atitude totalmente neutra e objetiva: há esforço de se conseguir, ou de se aproximar a uma postura de neutralidade e objetividade (Rodrigues, 1979:5)

Este aspecto da terapêutica, que tanto incomoda a psicanálise, parece ser um ponto fundamental no próprio processo terapêutico. Se bem, como já dissemos, Freud tentava afastar qualquer influência por parte do terapeuta, paradoxalmente, em diversas ocasiões colocava esta influência como um dos componentes do tratamento. Somente a modo de exemplo, citaremos duas passagens. No texto As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica(1910) ele, referindo-se aos progressos da psicanálise, diz que antigamente tinha-se de pressionar o paciente para que este dissesse tudo de si, mas que atualmente as coisas seriam mais cordiais:

O tratamento compõe-se de duas partes - o que o médico infere e diz ao doente, e o que o doente elabora de quanto ouviu. (...) damos ao doente a idéia antecipadora consciente [a idéia do que ele espera encontrar] e, então, ele acha a idéia inconsciente reprimida, em si mesmo, no fundamento de sua similaridade com a idéia antecipadora (p.127).

Esta idéia não está presente somente num texto que poderia considerar-se inicial; ela se faz presente em diversos momentos de sua obra, inclusive num dos seus últimos textos, Construções em análise (1937), é claramente colocado que estas construções, em certas situações, ainda que não possibilitem a recordação do reprimido, devem conduzir à convicção do paciente nelas.

O caminho que parte da construção do analista deveria terminar na recordação do paciente, mas nem sempre ele conduz tão longe. Com bastante frequência, não conseguimos fazer o paciente recordar o que foi reprimido. Em vez disso, se a análise é corretamente efetuada, produzimos nele uma convicção segura da verdade da construção, a qual alcança o mesmo resultado terapêutico que uma lembrança recapturada (p.300).

Contudo, cabe esclarecer que não se trata de autoritarismo, de o terapeuta mandar de forma direta em seu paciente. Este processo de ressignificação, que a meu ver está em jogo nas construções, é um processo negociado. A pessoa que recebe estas construções não recebe o significado pronto, ela tem de procurar, explorar, ver o que de sua experiência engaja no modelo colocado pelo terapeuta. Noutras palavras, apropriar-se da metáfora utilizada pelo terapeuta de forma criativa. Portanto, o terapeuta não dá um significado predeterminado. O paciente vai realizar uma adaptação criativa do modelo oferecido pelo terapeuta com sua história individual. Desta maneira, o paciente consegue reorganizar o seu discurso, dar-lhe maior coerência, e o terapeuta, por sua vez, por meio das narrativas do paciente, que se enquadram nesse modelo oferecido, o atualiza e o revalida. Assim, uma nova narrativa é criada e com a mesma se possibilita uma antecipação da solução futura do conflito, resultado de um jogo criativo de parte do terapeuta e do paciente (Alvez & Rabelo, 1995).

O processo da significação é um processo dialógico, um processo de intercâmbio, e portanto é uma experiência intersubjetiva. De fato, para que este jogo se produza é necessário que se dêem determinadas condições, dentre elas a de que o terapeuta deva cumprir um certo papel.

O que eu quero dizer com isto? Primeiramente chamar a atenção para uma questão básica na clínica: a autoridade do terapeuta. Esta posição se torna imprescindível, principalmente, ainda que não exclusivamente, naquelas terap~euticas como as psicológicas, nas quais se trabalha com processos simbólicos. Como já falamos, não se trata de autoritarismo, mas de o terapeuta poder ocupar o lugar do sujeito do suposto saber. O lugar daquele que, no imaginário do paciente, tem as respostas para suas perguntas. Trata-se de ele poder ocupar, em relação ao paciente, um lugar de ideal, desde o qual possa oferecer um modelo de pensamento para que, ao se apropriar dele, o paciente possa ordenar suas narrativas e através das mesmas ressignificar este modelo. Uma vez ressignificado ele é, por sua vez, novamente apropriado pelo terapeuta num constante jogo criativo.

Se por um lado esta posição de suposto saber em que o paciente coloca a seu terapeuta é imprescindível para o tratamento, também traz o perigo de que o terapeuta se identifique com esse lugar de possuidor de uma verdade, algo que a meu ver é um fenômeno muito comum. Isto se constitui, no mundo psi, uma dificuldade a mais a ser superada. Talvez a área psi seja a única das Ciências Humanas a apresentar esta dificuldade. Bem dizer, que o profissional, para poder exercer sua função, deva concordar com este jogo no qual ele necessariamente tem de aceitar esta investidura de saber por parte do paciente. Um historiador, um antropólogo, um sociólogo, um literato etc. não têm como exigência, para a realização de suas atividades profissionais, ocupar este lugar imaginário de detentor da verdade. Talvez em muitas situações ele se veja pressionado a fazê-lo, contudo isto não é um procedimento inerente ao desempenho de suas atividades. No entanto, para o profissional psi, pel aprópria condição de seu trabalho, assumir este papel se torna uma necessidade.

Podemos dizer que a função da clínica é a de que o terapeuta possa oferecer, através de sua posição, não uma imagem com a qual se identifica, mas, por meio desse lugar de autoridade, possibilitar ao paciente o aceso a uma matriz simbólica que lhe permita dar sentido ao sem-sentido. Assim, no processo de codificação, a teoria se constitui nesta matriz simbólica. Um terapeuta que careça de uma teoria que o respalde vai ficar limitado a se oferecer ele mesmo, como modelo identificatório, a seu paciente. Este, por sua vez, ao se identificar com o modelo oferecido, ficará preso nessa imagem, transformando-se num clone do terapeuta.

Porém, nunca é demais repetir que o terapeuta não deve render-se à ilusão de que sua teoria é uma foto instantânea do real; ela não detém a verdade, se é que algo parecido com isso existe. Não deve transformar sua teoria em doutrina até porque aquele que não aceita a diferença em relação a sua teoria dificilmente poderá aceitar a diferença na clínica com seu paciente e procurará então modelá-lo a sua imagem e semelhança.

De fato, este posicionamento em relação à teoria produz efeitos na clínica e por sua vez a clínica se coloca como um obstáculo a mais a ser superado para não cair no dogmatismo.

Acreditamos que uma forma de superar esta dificuldade seria que o futuro psicólogo se defrontasse com esta diversidade de teorias, o que por sua vez possibilitaria a formação de um espírito crítico e reflexivo. Contudo, o abandono da idéia da existência de um modelo único, o reconhecimento da possibilidade de outras formas de representar o real deve passar primeiro pelo corpo doscente, pois enquanto nós procuramos estabelecer uma guerra santa na defesa dos valores fundamentais do nosso dogma, vamos estar formando seguidores, mas nunca profissionais críticos que possam refletir sobre sua prática.

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Alberto Manuel Quintana é Psicólogo, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/RJ, Doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP, professor do instituto de psicologia da UFSM.

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Última atualização em Sáb, 29 de Agosto de 2009 12:35
 
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