Lembrar-me
Somos todos insones? PDF Imprimir E-mail
Arquivado em:  Psicologia
Escrito por Neuzi Barbarini   
Qui, 23 de Fevereiro de 2006 18:54
Uma pequena crônica reflexiva sobre a insônia nossa de cada dia.

SOMOS TODOS INSONES?
Neuzi Barbarini[1]


Recentemente fui ao médico para tentar encontrar uma solução para minhas noites insones e dias sonolentos e saí do consultório com uma lista de recomendações, que ele chamou de "higiene do sono, da qual constam itens como: evitar deitar e levantar em horários variáveis; evitar permanecer longos períodos na cama; evitar o uso de produtos estimulantes (álcool, tabaco, cafeína; etc) antes de deitar; evitar envolver-se em atividades excitantes ou emocionalmente perturbadoras muito próximo da hora de deitar; evitar desempenhar atividades que exijam alto nível de concentração imediatamente antes de deitar; não permitir que ocorram na cama atividades mentais como pensar, planejar, relembrar, etc.


Sou professora, o que no Brasil é sinônimo de muito trabalho, baixos salários e horários malucos. São raros os professores neste país que sobrevivem sem as indefectíveis aulas noturnas, e com isso obrigamos nosso corpo a dormir bem mais tarde do que deveríamos e acordar muito mais cedo do que gostaríamos, além de praticar intensamente tudo o que os médicos proíbem, pois qual professor nunca deu aulas para seu travesseiro após sair de uma aula estimulante? Nunca se entupiu de café para agüentar as últimas aulas?


Acho que não é demais estender minhas questões também para outras profissões, e aí entra a questão que dá título a este texto. Estaríamos nos tornando uma civilização insone?


Recentemente encontrei um livrinho muito interessante sobre o TDA/H[2] (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), em que ele questiona a explosão de diagnóstico desse transtorno, e demonstra que a sociedade está cada vez mais construindo bioidentidades, com critérios de normalidade-anormalidade baseados quase que exclusivamente em padrões biológicos, sustentados, é claro pelas poderosas indústrias farmacêuticas que sempre possuem na manga a panacéia química para cada nova dor-de-viver.


Creio que estamos diante da mesma questão quando falamos da insônia. Quais imperativos sociais estariam contribuindo para a construção da subjetividade insone? Que sofrimentos estão embutidos nessa subjetividade? Que mercados são abertos com essa patologia?


Outras perguntas provavelmente poderão derivar destas, mas enquanto esse debate não existir, sairemos dos consultórios cheios de culpa, porque fomos ensinados que os hábitos higiênicos devem ser cumpridos à risca, e que a manutenção da boa saúde só depende de ações individuais. De minha parte posso afirmar que meu médico, imbuído talvez das melhores intenções, me pede o impossível.



[1] Psicóloga, professora de Psicologia Social e do Trabalho.

[2] LIMA, Rossano C. Somos todos desatentos? O TDA/H e a construção de bioidentidades. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005.

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Última atualização em Sáb, 03 de Fevereiro de 2007 13:40
 
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