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Rumos da Psicologia do Trabalho PDF Imprimir E-mail
Arquivado em:  Psicologia
Escrito por Neuzi Barbarini   
Ter, 11 de Abril de 2006 00:00

Rumos da Psicologia do Trabalho
Neuzi Barbarini


Em uma conversa recente com alguns colegas psicólogos que atuam em empresas, incomodou-me a falta de inquietação em buscar compreender e, principalmente, intervir sobre as causas dos desarranjos vivenciados pelas pessoas nos locais de trabalho.


Reconheci na atuação desses colegas uma postura de adequação fatalista, como se não restasse a nós, psicólogos, nada além do que usar as técnicas e procedimentos da psicologia para minimizar os danos de uma ideologia perversa que tem transformado os locais de trabalho em verdadeiros ringues de luta, onde vença o melhor e excluam-se os perdedores.


Nesse campo de atuação existe um forte discurso sobre a "qualidade de vida", com veiculação de artigos em jornais e revistas de grande circulação, mas o que se percebe é que esses discursos na sua maioria são centrados em "receitas de bem-estar", como por exemplo, práticas de ginástica laboral, relaxamento, atividades físicas em geral, fórmulas alimentares, palestras motivacionais e técnicas de dinâmica de grupo.


Não tenho a intenção de invalidar essas práticas, elas podem ter efeito positivo em alguns casos, mas o problema é que, na maioria dos casos, elas funcionam como um band-aid em um tumor, isto é, tem função cosmética, ajudando a mascarar questões bem mais sérias e difíceis de tratar.


Existe um reconhecimento de que os mal-estares existentes na empresa são causados pela competição exacerbada do mercado, pelas pressões que este exerce sobre as empresas que, por sua vez, repassam aos trabalhadores, mas este reconhecimento apenas não basta para transformar essa condição, pelo contrário, muitas vezes este reconhecimento é usado para reforçar visões fatalistas do tipo "está fora do nosso alcance e não há nada mais que possamos fazer".


Uma questão importante a ser levada em conta é que o Mercado ou a Organização não são entidades sobrenaturais que controlam a vida dos seres humanos, pelo contrário, são as pessoas que as controlam. São homens e mulheres que decidem as estratégias organizacionais massacrantes e que implantam modelos de produção que destroem a vida e adoecem trabalhadores. São homens e mulheres que reproduzem no nível micro as perversidades gestadas no nível macro, e assim temos os pequenos chefes reproduzindo os discursos, a postura e a tirania dos grandes, aplicando as pressões que fazem adoecer e provocam stress, LER/DORT, depressão, burnout, suicídio, etc. , mas o mais preocupante é que muitas vezes nós, psicólogos, aplicamos técnicas que funcionam como "anabolizantes psíquicos", cujo objetivo é fazer com que as pessoas resistam mais um pouquinho a essa pressão e se mantenham nesse ritmo desumano.


Nas empresas, o sofrimento no trabalho geralmente tem sido tratado como fenômeno individual, como predisposição ou falta de resistência do sujeito. Não há como negar que o sofrimento é individual, mas sua raiz é social. A dificuldade de relacionamento com os chefes ou com colegas, de adaptação a mudanças e o sentimento de não estar à altura das exigências, são expressões de um mal estar produzido por relações sociais degradadas impostas pelo capitalismo, e se continuarmos tratando a dor como uma questão individual, estaremos reforçando o desamparo das pessoas que sofrem.


O equilíbrio conseguido com a simples aplicação de técnicas psicológicas no âmbito do trabalho é precário e não tem estancado a evolução do mal-estar, e nós, psicólogos, ainda estamos muito tímidos na busca de compreensão e novas formas de intervenção.


O trabalho tem sido apontado por diversos pesquisadores como portador de sentido e equilíbrio psíquico para o sujeito contemporâneo, precisamos então, debruçar com mais afinco sobre este fenômeno, entender sua complexidade, seus múltiplos vínculos e associações e criarmos uma prática psicológica que viabilize o real fortalecimento desses homens e mulheres transformando-os em sujeitos capazes de intervir no rumo de seu trabalho e de romper com o discurso fatalista e individualizante que os transforma em responsáveis pelo fracasso.

Comentários (14)add comment

Cristiane Feitosa escreveu:

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Muito pertinente a reflexão!
 
julho 18, 2007
Votação: +1

Alexandre Magno Teixeira de Carvalho escreveu:

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Excelente o texto de Neuzi. O problema é que nunca haverá espaço NO INTERIOR das empresas para uma Psicologia do Trabalho realmente crí­tica. Os psicólogos "industriais e organizacionais" são agentes a serviço do Capital, são contratados para isso, vendem sua força de trabalho para isso. No setor público, contudo, apesar de todos os ataques privatistas que vem sofrendo, creio que ainda é possí­vel construir uma psicologia (uma praxis) crí­tica, de resistência, voltada para os interesses da classe trabalhadora.
Neuzi, gostaria muití­ssimo de compartir contigo e com outros colegas 2 textos de minha autoria e de Elizabeth Moreira dos Santos: "A psicologia industrial e organizacional: um exemplo de sofisticação discursiva", que está no livro Clio-Psyché, de 2003; e "CríŽnicas da vida mais contrariada: sofrimento psí­quico, HIV/AIDS e trabalho em saúde", publicado na revista saúde coletiva da UFRJ, 7(2), jul.-dez. 1999. Esse último está disponí­vel na internet, via google acadêmico.
Um abraço,
Alexandre Magno Teixeira de Carvalho
 
agosto 07, 2007
Votação: +0

Marcia Figueiredo Sampaio escreveu:

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O texto reflete o tapa buraco na saude do trabalhador, a psicologia não deve atuar na reta final da empresa , mas sim na ergonomia junto a outras disciplinas como fisioterapia, para para a formatação do processo de produção do trabalho. Em relação as empresas privadas ou não é demontrar o quanto investir no embreão ,não irá causar rombos no afastamento de um ou mais trabalhador.Ver o que é possí­vel cientificamente,valorizando o ser e o trabalho.
 
setembro 16, 2007
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Mariana Montibeller escreveu:

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Muito interessante o texto. A minha maior dificuldade, sendo psicóloga desta área e trabalhando em uma instituição pública, é como transformar em algo objetivo essa visão crí­tica que temos da organização do trabalho na sociedade capitalista.
 
abril 29, 2008
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Manoel Rodrigues de Sousa escreveu:

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somos responsáveis por tudo que criamos ou copiamos de algo ou alguem, mas não somos breviamente responsáveis para tornar real já que você foi o mentor de tudo....
 
julho 11, 2008
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Angela escreveu:

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Sou da área e concordo. Estamos numa corda bamba e precisamos de muita sabedoria para lidar com a incoerencia que se evidencia a todo o momento. Â frustante! O sentimento de impotência com a vontade de se fazer algo, í s vezes produz algum resultado mas, é muito pouco diante de tudo.....
 
julho 31, 2008
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Angelina Ribeiro de Sousa escreveu:

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Olá Neuzi, sou psicóloga atuante da área clí­nica, organizacional, hospitalar e agora também da Educação. PíŽxa, que ótimo ler o seu texto e poder compartilhar inquietações que vivenciamos no nosso dia a dia. Inquietações essas que nos impulsionam a ir sempre além do que estamos desenvolvendo em nossas ações. Romper com ví­cios, culturas e discursos ultrapassados e transformando as barreiras impostas í nossa profissão através de atitudes e ações eficazes. Aos poucos vão se abrindo os caminhos, desde que não nos acomodemos.  necessário sempre partirmos desse tipo de reflexão. A interação da categoria e troca de informações são imprecidí­veis para o fortalecimento de nossa profissão e abrirmos espaço cada vez maior em todos os setores onde estão PESSOAS.
 
setembro 02, 2008
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Wagner De Oliveira escreveu:

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Bom seria se houvessem psicólogos nas empresas com a função especí­fica de trabalhar os interresses da classe trabalhadora.
Existem, apenas, os profissionais contratados pelas empresas e pra servi-las, por isso a dificuldade em encontrar soluções para os funcionários.
Procurando sempre a solução mais comoda, ou seja, os que não adaptarem são demitidos.
Os psicólogos têm que exercer esse papel e ser o diferencial, para que tenhamos um ambiente melhor para desenvolver bem um trabalho, seja lá ele qual for.
 
janeiro 22, 2009
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AníŽnimo escreveu:

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Eu passei por um ringue raivoso quando fui trabalhar na área comercial de produção de ví­deos. O local era desumano, o chefe, a pior pessoa possí­vel, completamente despreparada para gerenciar. O pior é que ficou a impressão que os donos do local sabiam ou fingiam que não sabiam dos demandos de seus subordinados com os outros funcionários. Esses acontecimentos ruins me desmotivaram tanto que até troquei de área de trabalho e não pretendo voltar a trabalhar com propaganda e televisão tão cedo.
 
janeiro 25, 2009
Votação: +0

AníŽnimo escreveu:

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O quanto alguns professores e psicólogos podem desanimar estudantes universitários. Eu tinha uma carreira brilhante como estudante de uma universidade federal, mas fui diversas vezes afrontado por professores e por alunos. Eu me destacava na minha turma e lia livros que se quer os professores haviam lido na biblioteca ou por descaso e acomodação nem sequer sabiam que existia. Tinha a intenção de fazer mestrado e doutorado, mas fui tão mal tratado por funcionários e professores de uma universidade federal que já nem penso mais em seguir tal carreira. Mesmo que ela seja um sonho, ainda penso na possibilidade de estudar com outras pessoas que não façam meu conhecimento regredir. Assim me parece os conheceimentos Freudianos, muitos deles me parecem regressões e há muita coisa melhor por aí­. Tive problemas com psicólogos por não concordar com suas posturas e também com professores escritores por não concordar com seus livros. Tive que aguentar muita agressão verbal. Para se atingir um conhecimento sozinho já é difí­cil, imagine quando seus próprios professores escolhem livros defasados e você tem que estudar aquela baboseira. Â um tédio. A ciência deles parece que está cheia de teia de aranha. mas o mais triste é saber que você sonha em entrar numa universidade federal e chega lá dentro e se depara com esse tipo de situação agressiva, teve até uma professora que falou pra mim que era uma vampira. Minha nossa em que pé anda nosso ensino superior.
 
março 17, 2009
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MATEUS COSTA SILVA escreveu:

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PANÔRAMA
O TEXTO TRAZ UMA TRANCESDENCIA VIRTUAL QUE FAZ COM QUE SEJAMOS CADA VEZ MAIS SUBLIMES EM RELAÇÃO AO RODO COTIDIANO DESSA FALCETA MORAL QUE NOS NORTEIA .
PARABENS.
 
setembro 03, 2009
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MATEUS COSTA SILVA escreveu:

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vida vitoriosa
pense menos e faça mais . como zaqueu!!!!!!
 
setembro 03, 2009
Votação: +1

MATEUS COSTA SILVA escreveu:

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O PROXIMO
O PROXIMO PRECISA DE VOCE E VOCE DELE PORTANTO SEJA COERENTE COM TODOS PARA TODOS AGIREM DA MESMA FORMA!!!!!!!!

MATEUS COSTA SILVA ( SALVADOR BAHIA )
 
setembro 03, 2009
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Márcio Oliveira escreveu:

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Atuação dos Psicólogos Organizacionais
Seu texto é bastante pertinente nos dias de hoje. Empresas relutam e impõem aos colegas Psicólogos "das indústras" a busca de resultados: produção! Presenciamos, ainda, um descaso com a situação de saúde mental nas empresas; não seria ilícito afirmar que ocorre a busca do adestramento dos colaboradores. É muito sutil, mas, existe! O fato é que não existem programas de fato que contemplem os Psicólogos Organizacionais tampouco os colaboradores. O que existem são ações paleativas como: palestras de 6/6 meses, compêndios ou catálagos de erros chamdos "receitas prontas" para adestramentos, ou seja, um grande limitador das ações de experientes Psicólogos! Ações de Psicólogos deveriam ser contínuas, em departamento próprio, buscando a valorização e saúde dos colaboradores, pois, no meu ponto de vita, são eles que movimentam as empresas! A voracidade (regada com os mais altos índices de falta de ética e hostilidade, ainda vão se perpetuar). É, na forma literal e visceral a visão de Thomas Hoobes do homem.
 
março 10, 2010
Votação: +0

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Última atualização em Ter, 11 de Abril de 2006 20:13
 
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