| Notas sobre o livro de Eisenstein: O Significado do cinema |
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| Arquivado em: Semiótica | |||
| Escrito por Bernardo Rieux | |||
| Qua, 13 de Abril de 2005 18:29 | |||
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PALAVRA E IMAGEM Eisenstein aborda inicialmente a questão da justaposição de elementos. A justaposição seria uma "síntese dedutiva definida e óbvia" entre os elementos (p. 14). Está a justaposição aí relacionada à percepção, pois justaposições distintas gerarão percepções distintas. A união dos elementos (por exemplo, MULHER + CHORO + TÚMULO = VIÚVA), gera uma inferência daquele que interpreta os elementos. Há uma tendência em combinar os elementos da sentença e reduzi-la a uma unidade, formando aí em determinadas situações um caráter ambíguo, como, por exemplo, na frase "O corvo voou enquanto o cachorro sentou-se em seu rabo". - Portmanteau - É como a mistura de duas palavras, mas sem ganhar um novo conceito. Resulta numa associação cômica, como entre as palavras HORRÍVEL + TERRÍVEL = TORRÍVEL'; O caráter cômico daqui denuncia também a inferência que é feita na associação entre duas palavras (embora sem modificar o conteúdo, no Portmanteau). - Para se surgir um novo conceito, a justaposição não deve ser "a simples soma de um plano mais outro" (p.16), mas o produto. Quando há um produto de uma justaposição, o resultado é diferente de cada elemento separado. "O todo é mais que a soma das partes" Eisenstein utiliza Koffka para esta afirmação da justaposição dos elementos. Numa montagem, cada elemento é uma representação, enquanto cada produto da associação de elementos é uma nova imagem. Muitas vezes não importa se os elementos estão relacionados entre si, para a elaboração de uma nova imagem, "e até freqüentemente a coisa se dá por isso mesmo" (p.16). - Numa montagem, a nova imagem pode ser tanto imprevista, paradoxal, quanto prevista. No caso de se prever o efeito de uma montagem, pode-se (e deve-se) manejar a nova imagem segundo o próprio efeito resultante, e segundo a intensidade de cada elemento que monta a imagem. Assim, na composição do cinema, os elementos entre si e em relação à imagem passam a possuir uma relação mútua. Cada representação torna-se essencial e única no papel da correlação (p.17). - No cinema, o objetivo da manipulação das justaposições é suscitar no espectador a percepção e os sentimentos em mesma intensidade e valor que qualidades formuladas pelo autor do tema. - O exemplo dos ponteiros do relógio é ótimo para demonstrar o conjunto das representações; a simples disposição dos ponteiros do relógio são apenas um conjunto de representações, enquanto CÍRCULO + PONTEIROS + MOVIMENTO UNIFORME DOS PONTEIROS pode resultar na imagem do tempo. Às vezes se olha para o relógio e, por distração, não se vêem as horas, a imagem das horas. Por isso, deve-se haver um novo elemento na justaposição entre representações aleatórias (ou não). "Algo tem que acontecer com a representação, algo mais tem que ser feito com ela" (p.18). Esse "algo mais" é o vínculo entre a justaposição e outra situação, como por exemplo <doze horas> representar a hora do almoço, e não somente a justaposição dos ponteiros do relógio. As representações, deste modo, devem suscitar a imagem. Os elos intermediários da justaposição desaparecem, e o conjunto de elementos passa diretamente a indicar a imagem. "O hábito psicológico tende a reduzir essa cadeia intermediária a um mínimo, a fim de que apenas o início e o fim do processo sejam percebidos" (p.19). Essa mecânica de formação de uma imagem serve, de qualquer modo, desde o cinema aos outros tipos de arte, tanto como na elaboração de aspectos da realidade, por analogia. As conexões entre uma representação e uma imagem acontecem na consciência e nos sentimentos. Dessa forma, o nome de uma rua traz sensações e representações daquela rua, como uma determinada hora, determinado nome, etc. Para a elaboração da imagem, primeiramente há o processo em que as representações devem ser constatadas, agrupadas, para aí Ter-se a imagem resultante; num segundo estágio, as conexões simplificam-se. Um estágio é a reunião da imagem, e o outro é o resultado da união. - A imagem para ser suscitada no espectador precisa estar presente em cada elemento da peça. Assim, um ator não apenas deve reproduzir as representações da persona qual está encarregado, mas deve, de certa forma, sentir e viver tal persona, para que a imagem seja diferente e mais próxima do produto almejado pela peça do que simplesmente uma seqüência de atos. O ator deve formar em sua mente o próprio personagem. Aí, como elemento, passa a integrar a totalidade da peça. A imagem concebida por autor, diretor e ator é concretizada por eles através dos elementos de representação independentes, e é reunida - de novo e finalmente - na percepção do espectador. Este é, na realidade, o objetivo final do esforço criativo de todo artista. (p.27) Conclui-se que a criação da imagem envolve cada elemento constituinte dela. Numa peça de teatro o produto será uma dinâmica entre as imagens e representações do autor, do diretor, dos atores, de todos os outros aspectos da peça (cenário, etc.) e da própria percepção do espectador. Cada elemento possuidor da imagem também participa como criador da mesma. - Eisenstein ensina que, alternando-se os elementos, a imagem muda. O Hai-Kai
Isso mostra que, além de uma disposição espacial, uma disposição temporal também influi na elaboração da imagem. Da mesma forma, alterações numa dialética sintaxe X métrica também causa uma singularidade em cada tipo de disposição de elementos. A isso Eisenstein utiliza o termo enjambement. No enjambement um verso pode possuir mais de uma cena, e uma cena pode ser interrompida, intercalada entre dois versos. Isso prega num poema uma métrica mais rígida, já que os períodos não se esgotam no verso, mas continua no próximo. A dialética sintaxe X métrica pode ser explicada como uma dialética plano X verso, onde a articulação da montagem pode se dar no limite do verso e no limite do plano, no período de uma frase, de uma cena.
COR E SIGNIFICADO Eisenstein considera também relações entre cor e significado. Em determinada situação a cor estaria ligada à imagem resultante como todos os elementos que dela fazem parte. Dessa forma, a relação cor/significado depende do contexto. Sendo dependente do contexto, o contexto histórico e cultural também é determinante entre a cor e o simbolismo que apresenta. Por exemplo, o luto de morte no ocidente é representado pelo negro, enquanto no ocidente os rituais fúnebres são representados pela cor branca. Sendo histórico, o significado também se altera na história, dado o ponto seguro na linguística em que as línguas estão em constante mutação. O autor conjectura que uma mesma cor pode apresentar duas significações opostas, ou seja, há "significados ambivalentes dos quais se extrai um sentido não-explícito" (p.79). Associa isso aos estágios primitivos' da evolução humana, onde um "mesmo conceito, significado ou palavra representa igualmente dois opostos mutuamente exclusivos" (p.80). Utiliza para seus exemplos a cor amarela, que seria amarga' relacionada ao limão e doce' quando se trata da laranja. O amarelo também pode representar, dado o contexto, riqueza e esplendor, ou corrupção e ganância. A associação com o limão e a laranja denotam que a cor se associa também com significados dados a outros objetos que possuem tal cor. Divide-se o significado de acordo com a associação. No entanto, nos aspectos cor/som e cor/significado, é um erro procurar correlações absolutas, mesmo que em algumas culturas o significado coincida. É tão inseguro, dessa forma, atribuir características absolutas entre cor e significado quanto presumir que elas não existam. Eisenstein chama a atenção ao fato de correlações serem possíveis com pesquisas empíricas. Podemos dizer sem medo de nos contradizermos que existem relações puramente físicas entre som e vibrações de cor. Mas pode-se dizer também, de modo igualmente categórico, que a arte tem pouquíssimo em comum com tais relações puramente físicas. (p.92) A insegurança entre uma associação absoluta poderia se consolidar pelo próprio fato da percepção ser individual e singular para cada indivíduo, e na percepção da cor estar ligado um elemento subjetivo. Há uma correlação entre o significado e a imagem de experiências pessoais da justaposição de representações de cor, denunciando essa subjetividade. Quando há uma correlação de cor e algum aspecto social, Eisenstein dispõe da anedota, ou seja, a correlação do "episódio que liga a cor a idéias especificamente associadas" (p.89). Assim, o fato do socialismo possuir' uma cor vermelha está ligado a várias situações (por exemplo, ser a cor preferida de Marx), e não a uma legitimidade a priori, natural. Isto significa que não obedecemos a nenhuma "lei abrangente" de "significados" absolutos e correspondências entre cores e sons - relações absolutas entre estes e emoções específicas, mas significa que decidimos quais as cores e sons que se adequarão melhor à dada tarefa ou emoção que queremos.
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| Última atualização em Qua, 09 de Novembro de 2005 16:11 |